Eu não entendo a linha reta

“No fundo, acho que o que eu não gosto mesmo é da ausência de hesitação. É dessa coisa sem intervalo, batida”

Imagem: Rohane Hamilton
por Tito Kehl

Quer dizer, eu até entendo, enquanto abstração, no campo da geometria. Mas a linha reta, dentro da experiência humana sensível, e mesmo anímica, não faz sentido algum para mim. Para que serve ela? Uma coisa sem graça, sem mistério, sem surpresa, que leva de um ponto até outro, passando apenas por si mesma.

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A linha reta cria a ilusão de que as coisas podem ser tais como ela é: simples, sem contradições, sem desvios, sem perplexidades, sem hesitações, titubeios, alegrias e medos. A linha reta é monótona, é cinza. A natureza, salvo níveis quiçá microscópicos, desconhece a linha reta. Ela é feita toda de volteios, de idas e vindas, de reentrâncias, protuberâncias e outras anfractuosidades, como dizia um amigo, redondo como ele só.

Nem o horizonte é reto, a não ser para os terraplanistas, que, como todos sabem, são chatos. Enfim, eu não entendo a linha reta, e peço desculpas a ela, mas, definitivamente, não gosto dela. Ah, mas a reta é a menor distância entre dois pontos… Bom, mas isso é apenas uma definição, não é vantagem nenhuma. Pessoalmente, prefiro caminhos curvos e recurvos, como as curvas da estrada de Santos, dizia Roberto Carlos antes da Globo.

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A arquitetura das linhas retas é cansativa. Pode até ser bela, como seios de silicone, mas, positivamente, não é natural, não emociona. A vida não é reta, reta é a robótica. Tudo o que é reto é artificial (claro que existem curvas artificiais, mas vocês entendem o que estou falando).

O cara fala: “vou mandar um papo reto”. Quer dizer: não estou dando espaço para rodeios, não admito contraditório, estou tão cheio de certezas que não hesito em afirmar categoricamente tal ou qual coisa. Cumas? És um deus, meu senhor?

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Mas, se até Ele escreve certo por linhas tortas (e com uma caligrafia horrível, diga-se).

No fundo, acho que o que eu não gosto mesmo é da ausência de hesitação. É dessa coisa sem intervalo, batida. Eu dou um passo pra frente, um pro lado, um de esguelha, volteio e sigo a marcha. Como diz a moda: “cada vez que eu caio, caio deferente, meaço pá trás e caio pá frente, caio devagar, caio de repente, vô de corrupio, vô deretamente… (mai sendo de pinga, eu caio contente)”.

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Essa zonzeira da pinga… e o mundo gira, e nenhuma reta para em pé. Zonzeira da vida, do amor, do desejo, da experiência mística de Deus. Zonzeira de fechar os olhos nessa montanha russa em câmera lenta que é o mundo. De se perder pelo caminho. De sentir a brisa.

“Estudei muito e tive mestres eminentes e me orgulhava dos meus progressos e triunfos. Agora lembro-me do sábio que eu era: era como a água que toma a forma do vaso, como a fumaça ao vento”. (Omar Khayan- Os Rubbayat)

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