Deus, amor e vingança no lugar mais abandonado do mundo

Belford Roxo é uma espécie de Terra Santa. Quanto mais se acredita que está perto de Deus, mais perto do inferno está

Imagem: reprodução
por Vinícius Carvalho

Já tem gente demais falando sobre as grandes figuras, as histórias que me interessam são as dos pequenos. Quando estourou uma polêmica acerca das eleições de Belford Roxo, em 2020, onde gente de todo o canto do país voltou os olhos para este município por conta do apoio do PT ao prefeito bolsonarista local, eu alertava para algumas coisas tão incômodas quanto simplórias. As pessoas que estavam debatendo e teorizando longamente sobre o caso, não conheciam Belford Roxo, sequer compreendiam o contexto. No geral eram quadros intelectuais partidários, que veem a esquerda latino-americana ainda com a visão das canções de protesto contra a Ditadura, das cartilhas da Teologia da Libertação dos anos 1970 ou então das suas experiências pessoais em grupos como LIBELU. Tudo isso, eu amo, respeito e faço uso também, mas que pode por vezes nos inserir numa visão completamente liberal. Acabamos militando por uma sociedade que seja igual, sei lá, o Canadá, e já partimos inclusive por tal perspectiva.

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Belford Roxo é uma das cidades mais desgraçadas do país. Viver numa ocupação em São Paulo, seja as do MTST ou na Ocupação 9 de Julho, é infinitamente mais digno, mais seguro e se tem muito mais qualidade de vida do que ser um cidadão médio em tal cidade da Baixada Fluminense. Era EVIDENTE que passada a eleição, o tema ficaria esquecido. E não deu outra.

O que se viu entre novembro de 2020 e o início deste ano, foram uma sequência de massacres ocorridos no local. Crianças desaparecidas, assassinadas na porta de casa por traficantes, por policiais, idosos sendo humilhados ficando 18 horas na fila de vacinação contra Covid, terreiros de candomblé sendo destruídos, famílias flagradas comendo rato, acidentes em transporte público que virariam rapidamente piada na internet, etc.

Temas muito distantes das opiniões pomposas, das certezas, dos dedos em riste e das frases prontas dos Brenos Altmans, Ruis Pimentas, Jones Manoéis, Rudás Riccis, e quejandos companheiros. Belford Roxo, assim como historicamente toda a Baixada Fluminense, foram apenas objeto de uma disputa política oportunista, por guerra de ego e exercício de futurologia por tais pares. E, erraram todos.
Aliás, quando algum desses temas acima tem a serventia de produzir boas curtidas no Twitter, eles voltam à tona.

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Desde janeiro eu decidi me debruçar, acompanhar e escrever sempre sobre o desaparecimento dos 3 meninos de Belford Roxo: Lucas, Alexandre e Fernando. Nem que seja com o intuito de gerar uma fonte narrativa a respeito do caso. A tragédia esquecida pelo amargo do cotidiano vem ganhando contornos de um filme tão triste quanto macabro. Quando os 3 meninos sumiram e tiveram como último registro uma imagem congelada de câmera de segurança, o ocorrido ganhou o noticiário nacional. Esquecido o caso novamente, a investigação prosseguiu sendo tocada pela polícia civil, até que se chegou a conclusão de que foi o tráfico de drogas da Favela do Castelar que executou as crianças.

A imprensa volta noticiar o crime, a opinião pública decide falar novamente sobre o assunto e se espanta pelo fato do assassinato não ter ocorrido por milícias ou pela polícia, o que por si só já demonstra um completo descolamento da realidade. O que se vê é uma total perda de interesse sobre o caso dali em diante.

Os motivos do crime começam a ser descortinados. Os meninos eram de uma comunidade de tráfico rival ao Castelar sendo denunciados por um senhor alegando eles furtaram uma gaiola de passarinho. Os três foram julgados pelo tráfico, torturados e jogados num rio/valão que corta a região. Quando a polícia começa a dar incerta na comunidade, os próprios traficantes começam uma corrida de queima de arquivo e os supostos mandantes e membros da facção que participaram do crime começam a ser executados pelos próprios comparsas.

Duas buscas são realizadas no rio que corta a região. Na primeira é encontrada o pedaço de uma ossada, a mesma é levada para laboratório e descobrem que, na verdade, eram ossos de um animal. Na segunda, são encontrados três corpos jovens, estava solucionado o caso? Não, em teste de DNA descobriram que as ossadas eram de outras pessoas. Enquanto isso, como estavam os familiares dos meninos?

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Almir Guineto, na música “Mãe Iemanjá” disse que “amor com amor se paga”, discordo dele na forma, não na essência. Intensidade com intensidade se paga. Algumas categorias de sentimentos apenas podem ser retribuídos com um sentimento de igual proporção, seja pelo amor ou pelo ódio.
Me soa evidente que um crime tão brutal e praticamente sem resolução, num local carente de tudo, esquecido por todos e onde o gatilho é a lei, suscitará desejo de vingança.

Esqueçam as periferias e subúrbios do país como locais que contam com um povo ingênuo e que, por ingênuos serem, são incapazes de maldade. Esqueçam o subúrbio estilizado dos programas da Regina Casé, na Rede Globo, com pessoas usando roupas coloridas, felizes, casais de idosos voltando de ensaios de escolas de samba, sorridentes e aparentando serem sexualmente ativos, churrasquinho em toda calçada, fumaça, pagode, uma integração harmoniosa entre religiões e raças. Pessoas sorridentes pegando trem e ônibus lotado ouvindo Revelação e Diogo Nogueira, “pé na areia, a capirinha, água de côco, a cervejinha…”, esqueçam isso, pelo bem do Brasil e se quiserem de fato superar o fascismo e o bolsonarismo. Ouso dizer que tal figura, a do pobre bobo alegre, ou não existe, ou existe muito pouco.

A miséria real é a desumanização completa das relações. São as notícias do cotidiano que se cruzam, como as quatro meninas que saíram rolando de dentro de um transporte clandestino em alta velocidade, se machucaram, e o motorista depois dá entrevista às gargalhadas, “eu tava acelerando demais, até vi eles rolando lá atrás, mas foda-se, não ia voltar” ou então, “Homem é acusado de matar vizinho que reclamava de galo cantando ‘Bolsonaro’ ”. Se a vida imita a arte, e aqui já falamos sobre isso, no caso de Belford Roxo, aparentemente ocorreu novamente. E dessa vez foi algo parecido com o filme Cidade de Deus, na guerra entre Cenoura e Zé Pequeno.

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A última notícia desse crime que insiste em não ter desfecho, constatou que o pai de um dos meninos desaparecidos, Anderson de Jesus, foi preso portando um fuzil 556 na última semana em troca de tiros com os traficantes da comunidade que mataram o seu filho. Na audiência de custódia disse ao juiz, “fiz por vingança”. Anderson vem afirmando, desde então, que se aliou a traficantes rivais a da favela do Castelar para vingar a morte dos meninos.

Ainda tem muita água para rolar neste caso, mas apenas um sentimento como a vingança tem a potência suficiente para antagonizar o amor que um pai ou mãe podem sentir pela morte brutal de um filho. Nesse caso, uma vingança que é uma tragédia anunciada pelo descaso, pelo abandono e pela ausência de absolutamente tudo.

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Em lugares muito pobres, é comum que se tropece em igrejas pelas calçadas, a pobreza faz isso. É comum também ver estabelecimentos comerciais, nomes de ruas e nomes de crianças exaltando Deus e as coisas da bíblia. Borracharia El Shadday, Padaria Hosana nas Alturas, Pizzaria Tabernáculo de Davi… é que quando se falta tudo, se apega naquilo que nos conforta em meio ao desespero.
Vai ver, Belford Roxo é uma espécie de Terra Santa. Quanto mais se acredita que está perto de Deus, mais perto do inferno está.

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