De notícias e não notícias faz-se o mentiroso

Naldo Benny entra em um salão de cabeleireiro na Praia Grande, começa então uma disputa entre os barbeiros do estabelecimento para contar a história mais mirabolante e ganhar atenção

Imagem: Thais Paola Galvez
por João Teixeira

É sexta feira à noite no Salão Danças, um dos salões de barbeiro mais tradicionais da Praia Grande. Naldo Benny, como de costume, aparece para dar uma reforçada no seu corte degradê e passar a tradicional tinta no cavanhaque, para esconder os inevitáveis pelos brancos que a idade avançada lhe proporcionaram.

Naldo é cliente preferencial de Seu Ananias, que, segundo ele, faz o melhor disfarce com fechamento da Baixada Santista. Nas outras cadeiras do salão, trabalham Seu Varetto, o velho italiano, e Seu Toninho, ex-diretor de escola de samba. Sempre que um cliente com certa notoriedade dá o ar da graça no Salão Danças, começa a tradicional disputa de histórias entre os velhos, tentando cair nas graças da celebridade. Nessa noite não foi diferente.

SEU ANANIAS: Pô, Naldão, já te contei do que aconteceu comigo no show do Frank Aguiar lá no Guarujá?

NALDO: Não contou não, Seu Ananias. O que aconteceu com você no show do Frank Aguiar no Guarujá?

SEU TONINHO: Lá vem…

SEU ANANIAS: Certas pessoas gostam de se intrometer na conversa alheia. Mas então, o que aconteceu foi o seguinte. Tava eu lá na orla do Guarujá, onde tinha um palco montado para o show do Frank Aguiar com abertura do Calcinha Preta para a festa de São João. Quando cheguei o Calcinha já tava tocando, comprei cem reais de ficha, já para garantir de não ter que ficar comprando toda hora. Tomei legal. Uma atrás da outra. Você sabe, né Naldão? Eu sou desquitado… Fiquei lá andando no meio do pessoal tentando tirar alguma gostosa para dançar. E eu tô falando do Guarujá, sabe como é, Bennão? Só tem gostosa, não é igual essa pouca vergonha da Praia Grande. Enfim, tava difícil, essa mulherada de hoje em dia não sabe dar valor para um verdadeiro pé de valsa, preferem ficar atrás desses “bombadão fedorento”. E enquanto ninguém dançava comigo, eu ia entornando. Foi quando eu já tinha tomado umas doze latas de Bavária, o Frank entrou no palco. Ele começou apelando, logo com “Morango do Nordeste” de primeira. Aí eu não me aguentei, Naldão. Aquela música eu tinha que tirar uma gostosa para dançar. Puxei uma loirona pelo braço, e grudei na cintura dela, bem arrochado, sabe como é. Porra, eu tava feliz para caralho, dançando com uma loirassa, pé na areia no Guarujá, Frank Aguiar embalando, entende? Mas aí o pior aconteceu, o que eu não tinha calculado é que a loirona tinha um namorado bombadão, que me serviu um direto bem no meu feixe de mola. Parecia que alguém tinha acertado uma beterraba no meu queixo. Caí para trás já lambendo os beiços inchados.

NALDO: Tá de sacanagem, e aí?

SEU ANANIAS: Pô, Naldão, aí eu caí na areia e fiquei lá estatelado não sei quando tempo. Mas quando eu acordei, o Frank ainda estava tocando. Eu estava desnorteado, Bennão. Não sabia nem onde eu estava. Com a roupa toda molhada, porque eu caí perto da água do mar. Procurei me situar, tava tudo girando. Só consegui lembrar onde estava por que reconheci aquela sanfona clássica de “Tô bebendo, Tô pagando”. Uma puta dor de cabeça, visão rodando, tentei me levantar várias vezes mas não consegui. Fiquei rolando igual uma baleia encalhada na beira mar. Eu já estava quase aceitando a derrota, desistindo de levantar e passando a noite ali mesmo, quando vi uma coisa que custei a entender. Um pinguim saindo de dentro do mar, caminhando na minha direção.

Imagem: Thais Paola Galvez

SEU TONINHO: Pinguim? No Guarujá, Ananias?

SEU ANANIAS: Nessa época de frio acontece, eles vêm nadando lá da Argentina. Mas enfim, estou falando com o Naldão aqui, dá licença. Então, Bennão, daí o pinguim veio vindo até mim, e eu sem forças para levantar, tentando entender aquilo tudo. Até que ele parou do meu lado e começou a dar umas bicadinhas na minha cabeça, como se quisesse ver se eu estava bem. Olha, Naldão, confesso que fiquei um pouco emocionado. Quando todos haviam me desprezado, me tratado abaixo de cão, veio aquela criaturinha de Deus e se importou comigo. Juntei todas as minhas forças e levantei. Peguei o pinguim e levei ele lá no meio da galera. Comecei a dançar arrochado com o pinguim. O pessoal ficou pagando o maior pau. Quando fui notar, todo mundo tinha feito uma roda em volta de mim, para ver eu dançar com o pinguim. Para você ver, de desprezado eu passei a ser o rei do forró, por causa do bicho. E eu tirando o maior barato, as gostosas que me desprezaram agora estavam todas em volta de mim, impressionadas. Olhei para o bombadão que me deu um soco e pisquei para ele. Ele ficou revoltado, mas a Loirona deu risada. Foi aí que o Frank começou a se ligar que alguma coisa diferente estava acontecendo ali no show. Quando ele viu que eu tava dançando com o pinguim não pensou duas vezes. Chamou nós dois para o palco. “Traz esse pinguim aqui que eu quero ver ele”. Levei o pinguim lá no palco. O Frank perguntou se o pinguim era meu, respondi que sim. O mais curioso foi que o pinguim estava entendendo tudo. O Frank percebeu que o pinguim estava na onda e começou a conversar diretamente com ele. O pinguim respondia com bicadas no microfone do Frank. Uma bicada para sim e duas para não. “Você gosta do Cãozinho dos Teclados?”, uma bicada. “Você é boiola?”, duas bicadas. No final do show a empresária do Frank veio até mim e disse que ele gostou tanto do pinguim que queria comprar ele de mim. Perguntou quanto eu pediria pelo pinguim e disse que o Frank estava disposto a pagar. Disse que mais cem reais de ficha estava bom e vendi o pinguim. Acabei desmaiando de novo na areia um tempo depois, quando acordei já era dia.

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Seu Varetto, que estava com o rosto queimando de inveja, logo pulou na conversa.

SEU VARETTO: E eu, que uma vez morri em um show de rock…

NALDO: Morreu? Como assim?

SEU TONINHO: Puta que pariu, é um pior que o outro…

SEU VARETTO: Então, Naldão… Se o senhor dono da razão aí me der a licença para falar, eu te conto…

NALDO: Pô, Varetão, manda bala… conta aí.

SEU VARETTO: Bom, foi o seguinte… Diferente desse cara aí, eu não gosto de forró não, sabe, Naldão? Minha praia mesmo é um Rock’n’Roll, sabe como é? Pô, minha época que foi boa de verdade para a música brasileira… anos oitenta, saca? Minha onda era mais um Engenheiros, Hojerizah, Radio Taxi… porra, isso sim que era música! Meu negócio sempre foi um bate-cabeça.

Mas a idade veio. Em 97 eu já me considerava aposentado do rock. Foi quando eu fiquei sabendo que ia ter um showzaço do Raimundos lá no Clube de Regatas Santista. Fiquei semanas pensando naquele show. Na época, eu comprei o CD só por causa daquela bundona que tinha na contracapa, mas acabou que se tornou a minha banda favorita. Minha nega é chata que só ela, e não queria me liberar para ir no show sozinho. E eu não queria ir com ela por que ela não entende o espírito Rock’n’Roll. Enfim, comprei a entrada escondido e no dia do show esperei a nega velha dormir e saí de fininho. Ela dormia sempre virada no clonazepam, então estava tranquilo, sabia que não ia acordar e dar minha falta.

Cheguei lá era um mar de gente na porta, Naldão. Puta que pariu, cara, quanta gente para caber naquele clube. Tinha pra lá de dez mil pessoas na fila, tudo moçada nova, sabe? Umas menininhas, aqueles cara tudo punk, com piercing, tatuagem. Eu era o único tiozão lá, eu acho. Mas aí eu pensei, “não vou me intimidar não”, eu sou anos oitenta porra. Peguei umas latas e fiquei na fila. Na minha frente tinha uma turma de skatistas. Os caras maior gente boa, Naldão. Me enturmei com os caras. Latinha vai, latinha vem, eu já tava ficando meio zureta e nada do portão abrir. Eu trocando ideia com a moçada, e os caras chupando uma latinha que não acabava nunca, passando de mão em mão. Um sugava e passava para o outro e aquilo nunca acabava. Me liguei logo que era tóxico. Pô, eu já embalado, alcoolizado, fiquei na maior vontade de entrar na onda da moçada também. Perguntei “que isso aí?”. “Respingo de solda”, responderam. “Posso?”. “Pô, demorô, tio”. Os caras gostaram de mim, provei para eles que nem todo tiozão é careta. Maior onda, Naldão. Pô, naquele momento ali só o que faltava era a guitarra do Digão chorando mesmo, por que eu já estava no paraíso.

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Foi aí que de repente começou um vuco-vuco lá na frente, perto do portão. Logo vimos que o portão ia abrir. A moçada falou que ia lá para frente para tentar entrar logo e ficar perto do palco. Na euforia de ver o Raimundos, esqueceram a lata de respingo de solda na minha mão. Foram lá para frente e eu fiquei para trás. Depois do portão, aquela multidão toda tinha que passar por um corredor pequeno para chegar no ginásio onde estava montado o palco. Não deu outra, Naldão. Logo começou um tumulto ali por que o corredor era muito apertado para aquela manada enlouquecida passar. Foi caindo um por cima do outro, e quem vinha de trás não estava nem aí, ia passando por cima, o importante era chegar no palco para ver o Raimundos. Maior tragédia, Naldão. Morreram vários pisoteados. E eu lá atrás sem entender nada, só esperando a passagem liberar para entrar no show. Tomando a minha cerveja e baforando meu respingo de solda. Bebendo em uma mão e baforando na outra. “Pá e pum”, “pá e pum”, pra-lá-de-Bagdá. Acontece que como a produção tinha investido muita grana naquele evento, decidiram que o show tinha que continuar. Os seguranças rapidamente tiraram os presuntos ali do corredor e liberaram a passagem. Até então ninguém sabia que estavam mortos, então ninguém se importou. Jogaram os corpos em uma sala separada e trancaram. Aí o resto da multidão entrou, inclusive eu. Porra, estava chapado e ansioso para caralho. Aí entrou o Canisso no palco e puxou “Eu quero ver o oco” no baixo. Puta que pariu, Naldão, eu fiquei tão empolgado que acabei confundindo a latinha de cerveja com a lata de respingo de solda. Tomei um golão de respingo de solda que desceu dissolvendo a minha glote. Comecei a queimar por dentro e em questão de segundos eu apaguei. Fiquei lá no chão jogado, sem sinal de vida. Quando um segurança se aproximou e me viu ali desfalecido, logo pensou “Vixi, morreu mais um… joga lá na salinha”. Os caras me pegaram e me jogaram lá na salinha com os outros cadáveres.

Depois que o show acabou e todos já tinham ido embora, a produção chamou a ambulância, que levou todo mundo para o IML, inclusive eu. Me colocaram em um saco preto, Naldão. Fui dado como morto e levado para o IML. Chegando lá me colocaram em uma mesa. Minha mulher já tinha acordado faz tempo e estava desesperada atrás de mim. Ligaram para ela e chamaram lá no IML. Ela chegou a reconhecer o meu corpo. Estava chorando igual uma condenada, coitadinha. Aí eles iam me colocar em uma gaveta. Foi nessa hora que eu acordei. O legista deu um pulo para trás e gritou para o pessoal: “Esse aqui não está morto não, pô!”.

Levantei, vesti a minha roupa e fui abraçar a minha nega. Ela continuava a chorar descontroladamente. Só não sei se o choro era de alegria ou de desgosto por não ter se livrado de mim.

NALDO: HAHAHAHAHHAHAHAHAHAH

SEU TONINHO: HAHAHAHHAHAHHAHA

SEU ANANIAS: HAHAHAHHAHAHAH

SEU VARETOO: HAHAHAHHAHAHAH

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NALDO: Falando em show… Outro dia eu estava ali em uma festa na casa do Chris Brown. Ele ia lançar o álbum INDIGO dele e fez um show VIP na casa dele. Aí eu tô lá na festa e tal, disfarçando com umas garotas, conversando e pá, de frente para o mar ali, conversando. Eu reparo que ele levanta dali da onde ele tava na cadeira, sentado. Ele levanta e vai lá para perto tipo do… tsc… do… da hidro, de uma piscina, uma parada assim. Ele foi lá para onde que tinha umas minas. Ele foi se afastando para lá. Aí eu falei “pô, ele tá… né… vai lá falar com a galera, cumprimentar, tal..”. Ele se afastou, e aí como ele ficou um pouquinho distante, que já era tipo uns dez, quinze metros, assim, de distância… aí eu não fiquei olhando tanto… que eu falei “ele tá na outra vibe ali…”. Quando de repente, ele vem na minha direção… Quando ele vem na minha direção, já começa o coração a acelerar, tal… ele vem, vem, vem… Aí eu já abri os braços: “BRIZZYYYYY!!”. Eu já abro os braços, já “pum”, abraço ele, pá, beleza… ele: “Porra, cara!”, ele tava de boné… ele fala: “Mano…” .. Eu esfre… Eu chego a cocei o olho… Ele chega, faz assim… Eu chego a cocei o olho. Daí ele: “FUCKING SHIT! PORRA! É O NALDO QUE TÁ ALI?… Porra mano, tu é meu irmão, tu não vem falar comigo? Tu é família, pô. Tu tá aqui na minha festa pô, e não vem me dar um alô? Que isso, por quê?” tal… Aí eu falei: “Cara… me desculpa, eu tô nervoso… eu… eu… eu… I cannot speak… eu não consigo nem falar, eu to muito nervoso, eu tô tremendo… não tô nem acreditando.. e você tava conversando ali também, eu não queria te interromper, me perdoe, pô” e tal… Aí ele falou “Não mano, tá tudo certo… pô, cara, você é família, você tá em casa… você quer fumar? quer beber? quer comer alguma coisa?”. Eu falei “Não, tá… pô, cara, tá lindo…”, eu falei “Obrigado”… “Você é irmão, você é família… fica à vontade… fica em casa, tá em casa.”… Ele dá as costas e sai. Quando ele dá as costas e sai, as minas e a minha mulher faz “HÃÃÔ. A… a minha mulher fala “Amor, vou chorar.”. Tipo assim, as garotas: “Caraca, mano… o cara gosta de você pra cacete… ele veio aqui falar com você, ainda veio tipo que… ‘Pô, tu não veio falar comigo, que isso cara? Não, pô, tu é família, tu é irmão’…”

SEU VARETTO: Pô, aí você já está de brincadeira, Naldão. Muito me admira você… Um cara famoso, mentindo desse jeito.

SEU TONINHO: Isso aqui é ambiente de respeito, meu camarada. Não é lugar de palhaçada não.

SEU ANANIAS: Pelo amor, Naldão… Até a minha netinha de oito anos conta mentira melhor que você!

SEU VARETTO: HAHAHHAHAHHAHA

SEU TONINHO: HAHHAHAHAHAHHA

SEU ANANIAS: HAHAHAHHAHAHA

Naldo se sentiu desmoralizado, ofendido, acuado, humilhado, ridicularizado pelo complô tríplice que desacreditava da sua história. O cantor vem desde então batalhando para comprovar, inclusive na justiça, a veracidade de sua história. Afinal, para Naldo, um artista que vem de um país de terceiro mundo, a intimidade com um renomado artista norte-americano é vista como uma conquista em sua carreira. Não se conforma com o complexo de vira-latas de seus compatriotas, que acham que a história é inverídica e torcem pelo seu fracasso, apenas pelo fato de não ser estrangeiro.

Imagem: reprodução

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