Das mortes que me ressuscitam | por Helena Arruda

#FlautaVertebrada: renascer todos os dias para continuar a luta contra as mortes brasileiras – poema inédito para O Partisano

Imagem: Aline Oleynik
por Helena Arruda

Das mortes que me ressuscitam
[digo num fôlego]

não quero morrer demais esses dias
eu quero viver esses dias
eu não quero morrer demais esses dias
porque já morri outros dias sem parar
eu morri
então eu não quero mais morrer tanto
só um pouco
porque não tem jeito de não morrer
mas eu quero morrer sem dor
assim igual passarinho que fecha
os olhos e morre na floresta
na gaiola não
na gaiola eu não quero morrer
mas se precisar
e não tiver jeito eu morro também nela
eu morro
porque às vezes é necessário morrer
para nascer outra
então eu morro para algumas pessoas e
nasço pra mim
noutras horas eu acabo morrendo
pra mim também
porque na minha tristeza eu não consigo viver
então eu desisto da vida por algumas horas
ou minutos ou segundos e
me mergulho inteira no oceano-azul-das-palavras
para não ter que ver a cara da morte
que debocha das vidas brasileiras e
aí eu viro pra o lado esquerdo e
ouço o meu coração bater forte
ticum-ticum-ticum e
não consigo dormir e
eu não durmo porque se eu fechar os olhos e
os ouvidos eu nunca mais renasço e eu
eu não sou dessas que desistem fácil
porque eu nasço todos os dias
desde que nasci a primeira vez
numa madrugada fria
do dia 28 de junho
em pleno inverno no brasil
quando choviam balas de fuzis e
todos gritavam nas ruas
eu nasci assustada berrando perguntando
pra minha mãe o que significava aquilo e
ela me dizia
“é a barbárie da ditadura militar
[minha filha]
e você será uma mulher resistente
[minha filha]
uma grande mulher”
então o meu pai chegou no hospital
pra me conhecer
com as duas mãos queimadas e
desempregado porque os militares invadiram
a fábrica nacional de motores
onde ele trabalhava e eu
eu nunca mais parei de lutar e
de nascer e
de morrer e
de escrever e
hoje
hoje eu nasci de novo
pra continuar na luta
contra a morte
que assola o brasil.

Helena Arruda nasceu em Petrópolis, RJ. É mestra e doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Poeta, contista, ensaísta, pesquisadora e revisora, é autora dos livros Interditos – poemas (2014); Mulheres na ficção brasileira – ensaios (2016), ambos pela Editora Batel; Corpos-sentidos (prelo, Editora Patuá) e A mulher habitada [ou: cadernos do fim dos dias], ainda sem editora.

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