Cuidado ao subestimar seu vizinho fascista

São bons cidadãos porque não encontraram o território propício para colocarem para fora os monstros que habitam as profundezas de sua alma

Imagem: Luciano Salles
por Vinícius Carvalho

Eu sempre fui radicalmente contra a banalização do termo “fascismo”, e foi justamente por este motivo que, humildemente, eu percebi quando todo um processo de protofascismo começou a tomar corpo na sociedade.

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O fascismo não nasce apenas no meio das instituições, nem apenas na sociedade civil e nem apenas na imprensa. É um emaranhado complexo que vai se moldando e se retroalimentando. Portanto, atenção. Abra o olho com o teu parente, amigo ou conhecido que anda defendendo ou relativizando essas manifestações de fascismo, que vocifera e perde o controle quando o assunto é política, que estufa a veia do pescoço igual a galinha na hora de entrar na faca e que vive cheio de discursos pseudomoralistas.

Cuidado com essa turma que está defendendo ou relativizado uma prisão sem provas, armada entre juiz e acusação. Cuidado com quem está achando lindo um general batendo na mesa pedindo prisão perpétua para um condenado inocente, cuidado com o cara que bebe cerveja com você e comemorou que ontem um louco atropelou um monte de manifestantes. Cuidado com os negacionistas e com os que defendem de forma radical o Bolsonaro até no meio de mais de 300 mil mortes.

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Não quero incitar a discórdia, quero que você desperte para uma realidade cada dia mais próxima. Por mais que você queira contemporizar e me achar alarmista, eu posso afirmar que esse tipo de indivíduo é ruim e covarde, capaz de qualquer coisa para conseguir seus intentos. A imensa maioria são pessoas que nascem, crescem e morrem sem levantar suspeita de seus traços psicóticos simplesmente porque passam pela vida sem achar o solo fértil para jogarem suas raízes.

Em suma, são bons cidadãos, bons amigos e bons familiares, porque não encontraram o território propício para colocarem para fora os monstros que habitam as profundezas de sua alma. Muitos dos mais notórios, cruéis e perversos carrascos nazistas não eram militares de carreira, eram pessoas comuns, funcionários públicos, pequenos burgueses e um outro tanto de gente comum que coabitam o nosso universo cotidiano sem levantar suspeitas.

Quem viveu os horrores da guerra civil espanhola discorria sobre fatos vivenciados. Os carros da morte que chegavam ao anoitecer, recolhiam cidadãos taxados de “comunistas” entregues por seus diletos vizinhos para serem fuzilados e abandonados à beira da estrada. Nas aldeias e cidades essa barbárie se repetiu praticamente por todo o ano de 1939. Milhares de jovens, professores, escritores, jornalistas, trabalhadores e entusiastas — como nós —, fuzilados covardemente graças ao providencial dedo-durismo do vizinho, do amigo, do conhecido e até de parentes.

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Com esse texto não quero dizer que isso acontecerá no Brasil, apesar de parecer cada dia mais real. Mas é um aviso para você tratar essas pessoas com um pé atrás e colocar um “guizo” no seu pescoço para servir de alerta. Esse cara que cospe quando fala do PT, que deseja a morte dos petistas, que afirma que petista é tudo ladrão e que nem aceita conversar sobre a corrupção do outro lado, é um potencial chefe de campo de concentração e carrasco fascista.

Só faltava aparecer um Hitler para lhe comandar, ou, mais prosaicamente, um Franco liberar milícias para fuzilar os amigos, conhecidos e vizinhos que ele indicar. Agora eles têm Bolsonaro. Desde que isso começou, eu e mais meia dúzia de pessoas passamos a pregar praticamente sozinhos no deserto aqui nessa rede social.

Eu sempre defendi que a agressividade retórica é muito importante e cumpre uma função social. Eu não sou grosso muitas das vezes porque eu o seja naturalmente. Mas porque é necessário. Fui muito criticado por isso, fui equiparado por pessoas queridas como “apenas um igual sendo que do outro lado” (como se a violência fascista fosse a mesma coisa da violência de reação e legítima defesa), perdi amizades, briguei com pessoas que tinha estima por este motivo.

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E faria tudo de novo. Mas nunca perdi de vista que é necessário você derrubar, deixar no chão, humilhar, pisotear o fascista, mesmo que seja um fascista involuntário, um sujeito sem escolaridade. Eu tenho orgulho de nunca ter relativizado o conservadorismo de classe-baixa, por exemplo. Esse cara tem que deitar no travesseiro para dormir se sentindo um merda por suas posições políticas nefastas.

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A partir do momento em que as pessoas mandam a Constituição e a civilidade às favas, então elas não precisam mais de diálogo, e sim de enfrentamento.

Um comentário

  1. Ótimo texto! Me lembrou a fala do José Genoíno: “Não baixemos a cabeça, chegamos onde chegamos por falta de defesa de nossos argumentos. Não tenha medo de se posicionar e pronunciar a palavra “socialismo”.”

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