Comunista no Jardim Bonfiglioli

Ao me ver de vermelho, ela começou a ficar vesga de raiva e perguntou, me encarando, o que significava as iniciais CCCP

Imagem: delpixel
por Tom Cardoso

Segui a recomendação da campanha da Folha – USE AMARELO PELA DEMOCRACIA – e coloquei, depois de cinco anos, uma camiseta da seleção brasileira.

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Não é uma camiseta qualquer. É a de 82, número 8, usada pelo capitão do time, Doutor Sócrates.
Nada mais apropriado.

Peguei o elevador. No caminho, parou no quinto andar.

Entrou a Sônia. Também de amarelo. Também com uma camiseta da seleção.

Mas com o Neymar nas costas.

A Sônia é a esposa do Moacir, um dos caras mais queridos do prédio. Sim, aquele mesmo que compra cabo de chupeta só para ajudar os outros.

A Sônia manda no marido; manda no prédio, manda no Jardim Bonfiglioli – e no subprefeito do Butantã.

É a pessoa mais raivosa da Zona Oeste de São Paulo.

E bolsonarista fanática.

Está sempre com aquela baba no canto da boca, de quem passa o dia gritando “A Nossa Bandeira Nunca Será Vermelha!”. Ela quem lidera as carreatas contra o Doria. No domingo passado, começou a buzinar na garagem ainda pela manhã. Quando rompeu o portão do prédio, seguida por 12 carros, rumo ao Jardins, a bateria arriou.

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O Moacir teve que subir correndo para pegar o cabo de chupeta.
Eu morro de pena do Moacir. E morro de medo da Sonia.

Juro que preferia abrir o elevador e dar de cara com a nuvem de gafanhotos.
Mas nunca de cara com a Sônia do quinto andar.

Por covardia – e também um pouco por amizade ao Moacir – eu nunca disse para ela que era de esquerda. Mas também nunca participei de nenhuma carreata e gritei Fora Bozo várias vezes este ano.

Eu moro no décimo e ela no quinto.

Quando grito “Fora Genocida” no terraço, sempre vejo, com o cantinho do olho, a Sônia com o pescoço pra fora janela, olhando pra cima, tentando identificar da onde vem o grito do “comunista” do prédio.
Ela nunca descobriu que sou eu.

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Teve algumas desconfianças, como no dia em que me viu de vermelho, com a camiseta retrô da União Soviética, comprada por 80 reais numa lojinha da Vila Madalena.

Ao me ver de vermelho, ela começou a ficar vesga de raiva (eu a apelidei – ela não sabe – de “A Hulk da direita”) e perguntou, me encarando, o que significava as iniciais CCCP.

Disse que significava Comando de Caça aos Comunistas da Paulista.

Ela ficou tão feliz que me deu um beijo na testa, apertando as minhas bochechas. Não existia Covid ainda.

A Sônia, negacionista, não acatou as recomendações do síndico e não usa máscara para entrar no elevador.

Estranhou ao me ver de amarelo. – Vai hoje na nossa carreata, Cardoso?
– Não, não, vou na padaria comprar leite para as crianças.
– Humm. É bom vê-lo de amarelo. – Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.
– Amém. Quem é esse Sócrates?

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Jamais correria o risco de dizer quem foi Sócrates para a tia da Sara Winter, muito menos dentro de um elevador – e com ela sem máscara. – É um filósofo muito conhecido.
– Filósofo? Então é comunista… Os dois olhinhos da Hulk já estava se dirigindo pro nariz, mas fui rápido: – Ele foi tio bisavô do Olavo de Carvalho, nascido na Grécia. Um grande pensador de direita.
– Ah bom, Cardoso. Que susto.

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É, que susto.

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