Carne | por Luis Britto García

Série de O Partisano traz contos de um dos escritores mais importantes da atualidade na Venezuela, traduzidos pela primeira para o português

Imagem: Figuras Vegetales, de Mario Abreu (1919-1993), artista venezuelano
por Rôney Rodrigues

O Partisano publica série de contos do escritor venezuelano Luis Britto García, traduzidos, pela primeira vez no Brasil, por Rôney Rodrigues. Aos 80 anos, ele é autor de mais de 80 livros, abarcando as mais diversas temáticas: ensaio político, filosofia, comunicação, romance, conto, crítica cultural, humor, teatro e História. Entre eles, também estão Rajatabla (1971) e Abrapalabra (1980), obras premiadas pela Casa de las Américas e consideradas “catedrais literárias” da América Latina.

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Um dos intelectuais mais respeitados da Venezuela que, como costuma dizer, “emprega seus conhecimentos para participar de maneira crítica na vida política e social”, sua literatura arrojada marcou gerações de escritores latino-americanos, inclusive o uruguaio Eduardo Galeano (1949-2015): Rajatabla se destaca pela destreza técnica, pela eficácia do estilo, pela audácia de propósitos, pela associação hábil de ideias e de anedotas, pela lucidez penetrante, pelo poder da fantasia, pela capacidade de síntese e, sobretudo, devido a sua forma vitoriosa de jogar ácido no rosto de uma civilização ultramoderna (…) enxertada em um universo miserável e neocolonial, inferno da realidade que Dante poderia ter copiado, como propunha Martí” [Depoimento citado por Judit Gerendas na introdução de Rajatabla (Monte Ávila Editores Latinoamericana, 2004)].

Leia também:  Apesar de todas as flores | por Fernanda Noal

Para ler outros contos da série Mundos (im)possíveis de Britto García, clique aqui.

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Carne

primeiro: esperar dá de noite chegar no sinaleiro junto dos carro que breca mostrar a caixinha de limpar sapatos e falar Moço, mim dá um trocadim pá comprá graxaaa até que o polícia se aporrinha e fala que tamo trapaiando o tráfego, segundo: correr até o cinema onde fala ESTREA PANAVISION LISA-BEST TAILOR e falar pra eles pros questacionam carros Moço deixa que eu olho até que o rapaz qué mais grande chama nois pra porrada, terceiro: na rua mais longe pular nos carros questacionam e quando eles fechar a porta gritar Aiai Uiui Ceta Ralho e falar ai carai você mim prensou a mão ai carai mim prensou a mão com a porta e aí talvez outro chega e fala Moço olha pra ele ele tá falando que tá doendo muito que se o senhor não dar alguma coisa pra ele ele vai quebrar o vidrio com uma pedraaa, quarto: chegar nos bar kafé lanchonete e falar Ômoço, mindá alguma coisa pá comprá comida inté que o garçom ruivinho e empeixeirado falar chispadaqui, chispadaqui, quinto: colar atrás do cego que pede no cruzamento com o fedelho que chora o tempo todo porque o cu doí quando de noite o cego come ele e falar pra ele cego viado ou voucométeucu voucométeucu comerteucu o que queima o filme dele com as madames que passam de carrão de bacana até que o cara que aluga a área pro cego nos meta a porrada, sesto: tocar nas casa e contar como mim cortaram a mão e queriam mim alugar pra pedir esmola mas mimraspei e se miacham mimcortam a outra ou o pé para não corrrer, sétimo: tocar nas casa e falar Dona mimdá alguma coisa e melhor a Matildinha falar isso que ela amostra os olhinhos dela e eles ardem dem e escorre coisa deles e sempre dão pra ela quando fala que não vê nadinha e é verdade ela não vê nadinha e ardem dem, oitavo: tirar do Iurito o trocado que ele tirou da Matildinha e ver como faço pra tirar ele do Fuefe quando ele tira de mim talvez com rasteira talvez com pedradas ou não melhor não na última pedrada ele me devolveu e me quebrou a boca, nonu: buscar um casarão sem cuidadocãoferoz pra arrombar a porta e na madrugada roubar deles o pão, o leite, désimo: debaixo da ponte fazê uns negocinhos por causa o sonho porque o frio e quem dera fosse bom como aotra vez e que a gente fique com o gordo bom o primeiro que vem pela ponte é regular mas véio pinote nele pra despencar patrás pinote portrais pacai, esse tamém grita quando a gente levanta as perninhas dele pra ele cair do corrimão e enquanto cai pabaixo patibum dobra o pescoço dum jeito muito esquisito de todo jeito tem que meter uma pedrada e uma pedrada pra ele não fazer como o outro que correu e só pegamos ele porque enganchou o pé numa viga então brigamos muito pelas coisas, eu nascuridão acho que quase arranquei um olho do Iurito, mas não com a navalha, não, a navalha é pra cortar e dar as partes mais fresquinhas pra Matildinha que revira muito elas mas come, os outros tamém mas com cuidado para não sujar, e os ossos, junto da roupa, antes do amanhecer, no rio e se afundam muito rápido, e nunca notam eles jamais.

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