Bolsonaro n’Os demônios de Dostoiévski: à guisa de introdução

O Partisano inicia hoje a série “Bolsonaro, n’Os demônios de Dostoiévski”, onde a autora analisa os acontecimentos que têm nos assolado à luz dessa obra

Retrato de Alexandre Benois por Leon Bakst (1894)
por Mariana Lins

“— Meu amigo, a verdade verdadeira é sempre inverossímil, você sabia? Para tornar a verdade mais verossímil, precisamos necessariamente adicionar-lhe a mentira. Foi assim que as pessoas sempre agiram. É possível que aí haja algo que não compreendemos. O que você acha, existe algo que não compreendemos nesse ganido inverossímil? Eu desejaria que houvesse. Desejaria.”

 Dostoiévski. Os demônios.

“O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz”

Bolsonaro, em março de 2019, num jantar em Washington

À GUISA DE INTRODUÇÃO

Talvez não seja de todo errôneo se elucidarmos o nosso próprio tempo, ao modo que Dostoiévski elucidou o seu: como uma época mais literária e fantástica do que a própria literatura fantástica. É verdade que, na sua época mesmo, a maioria dos seus pares não concordou muito com ele, o que lhe rendeu, desde a sua segunda novela, variações mais ou menos ácidas da crítica de que os seus escritos estariam melhor alocados nos arquivos dos manicômios do que nas estantes de literatura. Mais de meio século depois, até mesmo Freud pareceu concordar com essa cruel avaliação, ao diagnosticar que as representações artísticas de Dostoiévski, a despeito do seu talento, eram excessivamente limitadas pela sua vida psíquica anormal, de modo que a formação em psicopatologia seria a mais apropriada para a interpretação da sua “arte”. Otto Rank, discípulo de Freud, viu na novela O duplo um atestado de que a neurose de Dostoiévski excedia até mesmo os limites normalmente admitidos a artistas.

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O problema é que neste ponto do sistema de coordenadas espaço-temporal em que assistimos estupefatos o encontro diário da pandemia mundial com o pandemônio político, social, sanitário, humanitário e cognitivo concretizado na pessoa de Bolsonaro e no seu governo, tornou-se como se sinônimo de alguma sanidade considerarmos que a nossa realidade cotidiana nacional se desdobra ao modo de uma espécie de surto. Até mesmo o nacionalmente conhecido psiquiatra forense Guido Palomba julgou importante vir a público para aplicar os seus conhecimentos psiquiátricos à política atual e chegar à “hipótese diagnóstica” de que o presidente é clinicamente um psicopata. Em palavras vulgares, uma espécie de Charles Manson presidente, só que com uma infinidade muito maior de “gatinhas”, que alguns dos seus decretos inclusive estão tratando de armar até os dentes.

E o que é pior: ante o aceno público das Forças Armadas às estripulias do Ex-Ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello (cujo motivo estará guardado por cem anos), Bolsonaro, diferentemente do falecido psicopata dos hippies, parece que tem mesmo um Exército propriamente dito de “gatinhas fardadas” para chamar de seu (ou o contrário…). De modo que já não seria estranho se atribuíssemos alguma justeza caso, em delírio megalomaníaco (como tantos que já testemunhamos), esse nosso tenebroso presidente desse uma de poeta à la Manson e declarasse: “Eu sou o rei, cara!”

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Eu tenho um exército e PMs, o agronegócio, a maior floresta tropical do mundo, e garimpos, instituições democráticas, políticas públicas e milícias! Eu tenho robôs de fake news, cara, eu faço circular as armas e um vírus letal em meio à falta da imunização de rebanho. “Eu conduzo o submundo, cara”. Eu decido quem privatiza o quê “e onde faz.”. Eu tenho Ministros e ex-Ministros, líderes religiosos e um príncipe e um guru! Eu sou objeto de dedicação fanática geral! Eu perverto o significado histórico de datas internacionalmente comemoradas. “Eu sou imorrível, imbroxável e também sou incomível.” “Por que eu agiria como uma garotinha por aí,” só por conta de pesquisa de intenções de voto? “Eu faço rodar as moedas. O jogo é meu! Eu dou as cartas”, talkey?

The Intrigue (1890) por James Ensor

Seja Bolsonaro clinicamente um psicopata ou não, fato é que o ticket que lhe permitirá grafar com letras vistosas o seu nome Jair Messias Bolsonaro nos livros sangrentos da História é o sangue do povo que o elegeu. Em termos dostoievskianos, poderíamos, então, lançar a seguinte “hipótese diagnóstica”: a única maneira de um palhaço e patife como Bolsonaro, um “piolho estético”, se fazer, digamos assim, algo semelhante a um “Napoleão” é a magnitude do banho de sangue que ele claramente não se cansa de abrir em velocidade lancinante as comportas. Banho de sangue que, desde tempos imemoriais, vem acompanhado, por assim dizer, de certos gostos mais especializados.

Dentre os ídolos do nosso Messias presidente, muito longe do Napoleão idealizado por um Raskolnikóv, ocupa lugar especial, o para sempre memorável general Augusto Pinochet – a cujas ações Bolsonaro, devotamente, atribuiu, conforme declarado em carta enviada ao seu neto em 2006, o “desenvolvimento humano ora desfrutado pelos irmãos chilenos”. Não há nesta carta, uma breve nota assinada sob a insígnia “Jair Messias Bolsonaro, Capitão de Reserva do Exército e Deputado Federal do Brasil”, quaisquer esclarecimentos sobre até que ponto o desenvolvimento dos irmãos chilenos deveria ser atribuído à “adoção institucional, territorial e social de uma política sistemática de tortura” que, além das execuções sumárias, marcou o governo de Pinochet. Mas conforme tratou de esclarecer em entrevistas, para Bolsonaro, Pinochet teve “que agir de forma violenta para recuperar o país”, “fez o que tinha que ser feito”, embora, como foi muito veiculado na imprensa, na sua opinião só faltou “ter matado mais gente”.

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Sob certo ponto de vista, poder-se-ia considerar como um dos grandes emblemas da ascensão política de Bolsonaro – isto é, da condição de deputado do baixo clero e capitão reformado, ao posto máximo, a julgar por suas palavras, de “chefe supremo das Forças Armadas” –, a homenagem que rendeu com o seu voto a favor do golpe-judicial-parlamentar contra a então presidente, Dilma Rousseff, ao homem que comprovadamente a torturou; e que, militar e torturador, não por acaso é outro dos seus declarados grandes ídolos. “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”! –grito que continua a ecoar, como se tivesse sido uma espécie de senha para os mortos-vivos.

Ilustração: Ilya Glazunov

Sim, ao que parece, o grau de neurose, ou melhor, o grau de psicopatia que marca Bolsonaro, seu governo e parte significativa dos seus apoiadores – que dentre os casos mais grotescos e extremos, tem-se tanto o do vereador afastado Dr. Jairinho, quanto o da deputada federal cassada Flordelis, (dois, por assim dizer, psicopatas com carteirinha) – excede até mesmo os limites normalmente admitidos para a história, muito embora a história mesma, a despeito de todas as promessas universais oriundas do esclarecimento da razão, seja toda ela permeada por esses excessos absolutamente inadmissíveis até mesmo para a história. Seja como for, se hoje, para muitos de nós, brasileiros, tornou-se sintoma de sanidade concordar com algo semelhante ao que foi dito pelos detratores de Dostoiévski – a saber: que os acontecimentos que compõem o nosso presente estariam melhor alocados em relatos de delírios de pessoas com graves distúrbios psiquiátricos, do que em estantes de livros de história, do que em matérias sobre política de jornais e revistas –; sob uma perspectiva dostoievskiana, uma tal atitude é sinal não tanto de sanidade, mas de certa ingenuidade e desconhecimento da vida –, em termos filosóficos, da ligação entre o particular e o universal. Pois ainda que algumas épocas, como ele julgava ser também o caso da sua, possam ser mais “literárias” do que outras, a verdade, talvez, agora, mais clara do que nunca, é que um “realismo” que se dirija à realidade com a métrica do adequado e razoável, é, ele mesmo excessivamente idealista. E daí uma das suas declarações mais debatidas pelos seus intérpretes de que “aquilo que a maioria chama de fantástico e excepcional constitui […] a própria essência do real”. Declaração contida numa carta, em que justamente se defende dos ataques recorrentes dos seus  detratores:

“Em todo número de jornal, você se depara com um relato de fatos muito reais, muito surpreendentes. Para os nossos intelectuais eles são fantásticos; não dão atenção a eles e ainda assim são realidade porque são fatos. Quem os noticia, explica, registra? Ocorrem o tempo todo e a cada minuto, e não são de modo algum excepcionais. […] Apenas deixamos que a realidade passe diante de nosso nariz.”

E assim, em face desta nossa realidade pandêmica e nacional que se apresenta diante de nosso nariz e olhos estupefatos, talvez não seja ilegítimo devanear que se num paradoxo do tempo, Dostoiévski tivesse conhecido o diagnóstico que lhe seria atribuído pelo pai da psicanálise em 1920, quarenta anos após a sua morte, teria, com um tapinha nas costas, lhe aconselhado, o mesmo que aconselhou à sua querida sobrinha, em 1867: “Leia os jornais, por favor, hoje em dia não se pode fazer de outro modo, não porque seja moda, mas porque está se tornando cada vez mais forte e cada vez mais óbvia a evidente ligação entre todos os assuntos gerais e particulares”; conselho que, de todo modo, Freud, ao vivenciar a Segunda Guerra, certamente já não precisaria mais. Como, agora, tampouco nós.

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E eis então a resposta para o porquê de o conselho dado pelo Papa Francisco, em 2013, de que é preciso ler e reler Dostoiévski, não poder em nada apaziguar o coração. Antes o contrário, desespera – ao menos, até que se acostume com o desespero. Mesmo uma leitura superficial de Os demônios (1871), único romance propriamente político do escritor, torna difícil, ao testemunhar o governo Bolsonaro, não se juntar às fileiras dos que aclamam Dostoiévski como profeta – uma aclamação que, no nosso caso de brasileiros neste primeiro semestre do ano de 2021, implica supor que o grande número do circo dos horrores orquestrado pelo presidente (ou do qual ele é o ator principal) talvez ainda esteja por vir. Não que ante as centenas mortes diárias por COVID-19, o prenúncio de novas cepas e ondas, as rotineiras ameaças de golpe de Estado pelo presidente, a crescente pauperização e miséria e aquele receio de que a CPI da Covid seja engazopada pelo bolsonarismo, precisássemos de Dostoiévski para supor qualquer coisa de pior e absurda, mas não deixa de ser desolador que a sua leitura confirme os presságios mais sombrios. Torçamos para que, na emergência da nossa realidade nacional, no caso de Os demônios, a vida não imite a arte.

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