Ateu também leva susto

Tive a certeza de que estava morrendo, fiquei esperando o “filme” começar: dez segundos e nada; trinta segundos, nada, nem aquela musiquinha da Paramount.

Imagem: Anton Watman
por Tom Cardoso

Cético, ateu ortodoxo, nunca acreditei em porra nenhuma. Quando eu morrer, já pedi para os meus filhos me enterrarem num terreno baldio para não correr o risco de algum parente carola organizar uma missa de sétimo dia. Mesmo morto, não admito passar por um vexame dessa magnitude.

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Outro dia um amigo, também descrente, me chamou de canto.

– Tom, sabe aquela lance de quando você morre passa um filme da sua vida na cabeça?
– Você me dizendo essas coisas? Que papo é esse?
– É, eu achava também que era a maior baboseira. Até quase morrer.
– É, você enfartou mês passado, né?
– Sim. E um filme passou na minha cabeça.
– Eram os remédios.
– Sei lá o que era. Mas o filme rolou.
– Quem era o diretor? Monicelli? Elia Kazan?
– Tô falando sério, Tom. É impressionante.
– Sei não..
– Experimente quase morrer pra você ver…

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Não dei bola. Todo cara que quase morre fica meio místico.

No ano passado, no Rio, ao comer um polvo com batata e arroz de brócolis no Belmonte, tomar seis chopes e três caipirinhas, sai do boteco completamente de porre, quase vomitando. O hotel ficava a mais ou menos quatro quadras. Achei de bom tom, pra chegar logo, usar aquele patinete cor de abacate, o mesmo que os executivos de terno usam na hora do almoço na Faria Lima para se sentirem livres e descolados.

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Acelerei vinte metros, o suficiente para cair e bater a cabeça naquelas bolas de concreto que a prefeitura do Rio inventou, sem sucesso, para evitar que os motoristas cariocas estacionem na calçada. A batida foi forte. Tive a certeza de que estava morrendo. Lembrei na hora do meu amigo. Fiquei esperando o filme começar. Dez segundos e nada. Trinta segundos. Nada. Nem aquela musiquinha da Paramount.

Até que ouvi uma vozinha, seguida de uma imagem de minha avó Luiza, na casa de Pinheiros, mexendo o sagu. Sentado na cadeira da cozinha, meu irmão gêmeo, remelento, brincando com um playmobil. Tomado de pânico, levantei, ignorei a tontura e corri em direção ao hotel. Entrei no banho, liguei o chuveiro e rezei o pai nosso baixinho, pra ninguém ouvir.

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Quem é ateu, vive sustos como eu…

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