As veias abertas da América Latina e os dois gols de Maradona

Vislumbrar Maradona com 1,66m de altura contra o goleiro inglês de 1,86m é vislumbrar nosso continente perante um dos maiores impérios da história do mundo

Imagem: Diego Silvestre

por Vitor Ferreira

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Sou brasileiro, formado em Educação Física, e com a minha formação profissional já é possível identificar que sou alguém que se interessa por esportes, em especial, pelo futebol. Sou latino-americano, “detalhe” determinante que a maior parte dos brasileiros e brasileiras se esquecem ou de que simplesmente não se dão conta.

O significado de ser latino-americano diz respeito ao papel que nossa região cumpriu no processo de colonização com o extermínio dos povos originários, o saque das riquezas naturais, a mão de obra escrava, o impulso no desenvolvimento do capitalismo mundial e nosso papel atual na divisão internacional do trabalho como região periférica do sistema e de capitalismo dependente.

1986, Copa do México

Pois bem, a partir de um olhar brasileiro-latinoamericanizado, em prol de uma militância anti-imperialista, lanço o olhar sobre um dos gestos antidesportivos mais conhecidos da história do futebol e dos esportes em geral, que tem, para mim, como sua contradição, ser o gesto mais poético e significativo da história esportiva: o polêmico e inesquecível gol de mão de Diego Maradona sobre a seleção da Inglaterra pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no México. Seguido também de seu segundo gol nessa mesma partida, definindo a vitória argentina-latino-americana.

Malvinas

Antes de comentar sobre os significados políticos dos dois gols, uma brevíssima contextualização do período histórico em que ocorreu a partida entre Argentina e Inglaterra. Os dois países haviam travado uma guerra no início dos anos 80 pelo território das Ilhas Malvinas. Importante ressaltar a localização geográfica, pois a ilha está imensamente mais próxima do território argentino do que britânico, mas isso de fato nunca significou nada para o imperialismo britânico, como bem sabemos pelos massacres coloniais por aqui e pelo mundo.

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Outro ponto a destacar é que a Argentina na época estava sob regime ditatorial militar organizado pelo imperialismo estadunidense, como bem se sabe hoje pelos arquivos abertos da CIA sobre a operação Condor em toda a América Latina. O saldo final da guerra foi a manutenção do arquipélago pela Inglaterra, com a vitória no confronto permitindo ao governo conservador neoliberal de Margaret Thatcher obter a vitória nas eleições de 1983. Foram registrados cerca de 750 mortos no lado argentino e 256 no lado Britânico.

O jogo

Agora voltemos à partida de 1986, em que já é possível, com essa breve introdução, enxergar os dois gestos de Maradona com outros significados que não apenas os esportivos. É muito difícil ver os dois gols hoje, entendendo o que é ser latino-americano e o que significou e significam a Inglaterra e os imperialismos por aqui ( ou na Ásia, ou na África), e não se emocionar. Mesmo sabendo, é claro, que expressões e resultados futebolísticos não alteram a realidade concreta dos oprimidos e explorados.

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Gol de mão

Boa parte dos argentinos se referem ao primeiro gol como a “mão de Deus”, fazendo a justiça divina. Para mim o significado remete ao símbolo das veias abertas da América Latina, o sangue escorrendo pela mão que sempre foi golpeada pelas potências europeias e estadunidense. Mas que resiste e ousa fechar-se, parar seu sangramento por um instante e golpear de volta.

Vislumbrar Maradona com 1,66m de altura contra o goleiro inglês de 1,86m é vislumbrar nossa América Latina perante um dos maiores impérios da história do mundo.

“Mão”, de Oscar Niemeyer. Imagem: Alf Ribeiro

Gol do século

E para aqueles insatisfeitos com a análise simbólica e política do primeiro gol de Maradona, vem o segundo golpe latino-americano contra o imperialismo inglês. Esse sim, para além de ser uma reação da forma que é possível contra os gigantes, foi tudo que a América Latina é e pode ser: um manancial de arte, uma terra de riquezas e de seres ricos de talentos inigualáveis, um sopro natural da beleza, uma dança, soberana a cada passo.

Maradona, em uma arrancada de 60 metros, “América Latina, un pueblo sin piernas, pero que camina”, passando por 6 jogadores ingleses, inclusive o goleiro de 1,86m, golpeia mais uma vez. O segundo golpe é fatal, inexplicável, de parar o tempo, e apresentar aos europeus algo que eles nunca haviam visto antes.

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Maradona é um personagem histórico e como todo personagem tem suas contradições. Não é o objetivo dessa apresentação julgar ou analisar o argentino. Até porque cobrar, julgar e idealizar um garoto que passou fome em sua infância, um filho da classe trabalhadora que cresceu entre os mais pobres do país, viu, ouviu e aprendeu com as ruas e a violência das ruas, lutou para sobreviver, e tudo isso fruto histórico dos imperialismos, europeus no passado e estadunidense hoje, seria não entender o que de fato significa ser latino-americano.

Sou um pedaço de terra que vale a pena
Uma cesta com feijão, eu sou Maradona contra a Inglaterra
Marcando dois gols (Trecho da música Latinoamérica, do Calle 13)

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