A luz que há em mim é a luz de um molotov

“Tem nada de comunidade nessa alternativa. Vocês qué memo é um paraíso particular com cachoeiras de água morna e sem insetos na floresta”

Imagem: Domínio Público
por Lucaz Zarov

Ayahuasca, maconha, amor livre (amor livre, esse pleonasmo). Eu até curto isso tudo e também tive uma fase paz e amor, uma banda de reggae e dreadlocks e busca por equilíbrio e autoconhecimento, mas não consigo, nunca consegui evitar um riso debochado quando escuto “namastê”.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Mermão, tire o seu incenso do caminho, a luz que há em mim é a luz de um molotov. É uma viatura em chamas com o presidente e os filhos dele presos dentro. Saravá ahoo axé haux haux txai. Dependendo de quem fala o abracadabra não funciona. Dependendo de quem colhe a planta perde o poder. E aqui quase todo mundo é muito limpinho e colorido e sorridente demais.

Um ideal branco e burguês de saúde, de bem estar, que cada qual pode customizar conforme suas preferências estéticas. Há quem prefira, como eu preferi, o visual rasta de apartamento. Há quem se aproprie de símbolos e maneiras budistas ou indígenas ou hinduístas ou africanas. Um look monge hindubudista com pitadas de candomblé orna bem com pulseiras huni kuin e aquele poncho peruano. Fora isso, vibrações positivas pra manutenção dos meus privilégios.
– Ain tadinho dos bichinho que vocês come. Vocês não têm corassaum?
– Tem. No espeto. Um é três, dois por cinco. Vai?

Por favor, meus alecrim dourado, eu também gosto de reggae, mas- tire o seu ukulele desafinado do caminho- a vida é punk, morô? (e eu não to falando do punk que cita Bakunin que nem cês cita Bhagavad Gita. Aliás, punks de boutique e espiritualistas bijuteiros, uni-vos!) E o Marley fazia muita coisa além de fumar maconha e escrever canções bonitinhas um só amor um só coração vamos seguir juntos e vamos ficar bem não se preocupe com nada porque cada pequena coisa vai ficar bem. Não vai. Não vamo. Cês tão de marola. Sai dessa rua.

Leia também:  Esta cidade II | por Felipe Mendonça

Eu também acredito- ainda! – na bondade, na gentileza, na apreciação partilhada da beleza, mas não vem com esse papo de que não se combate violência com violência. Hitler não caiu com poesia. Nem esses lixo neonazifascistas vão se comover com as nossas canções. Arremessar flores contra a tropa de choque pode no máximo render uma boa foto. E, dependendo do humor dos homi, uma conta cara no dentista. Tire o seu sorriso parcelado do caminho.
– Ain você é canceriano! Qual ascendente?
– Por quê? Quer saber da vênus?
– Bora fazer yoga na praia.

Eu sei que faz bem fazer uns alongamento, mas yoga não é alongamento!, protesta a patricinha gatinha tilelê. Tá bom. Eu sei que yoga e alongamentos e meditação e água morna com limão e óleo de coco podem fazer bem inclusive pra quem pretende arremessar alguma coisa contra a tropa de choque. O problema é ficar nessa, abraçando árvores, aplaudindo o por do sol, Jah proverá, ain evita falar dessas coisas porque as egrégoras não sei o que as vibrações não sei que lá. Francamente. Não é uma brisa qualquer.

Leia também:  Boca | por Felipe Mendonça

Passei uns dias numa ecovila de uns amigos. No meio da mata, sem eletricidade, roots, vocês dizem. Fumar maconha depois de um banho de cachoeira (antes também, diliça, ok) e fogueira e violão e cogumelos e vamo dançar tudo nu, da hora. Mas é na hora de carpir e plantar ou cozinhar pra um bando de bicho grilo na larica que se vê quem é quem.

Uma molecadinha emocionada deslumbra e cisma que também vai viver da terra, plantar e colher o próprio rango, mas não adianta botar guarani kaiowa de sobrenome no facebook, se você não sabe usar uma vassoura, baby, so sorry, você não vai dar conta de viver da enxada. Vai fazer dodói nas mãozinha. Essas mãozinha macia que você lava no sangue alheio quando tenta a tal neutralidade. Tire o seu filtro de sonhos do caminho.

Tá entendendo, lírio do campo? Chorar pela Amazônia nas redes sociais ou rezar por ela num ritual xamânico cas venta cheia de rapé e o zói de sananga e o corpo inchado de kambô não quer dizer nada se você nem sabe quem é um Ricardo Sales, por exemplo. Quer dizer menos ainda se você elegeu o genocida que disse que os próprios indígenas eram responsáveis pelas queimadas no pantanal. E quer dizer muita coisa se você não participa do debate público, da vida coletiva. Tire o seu muro do caminho. Hoje você tá em cima dele. Amanhã ele desaba em cima de você.

Leia também:  Todos os toques e toda dor | por Sergio Rocha

Então, bitch, viaja nimim não, dont kill my vibe que já não anda nada good. Uma semana sem ifood e chuveiro quente e vocês volta pra babilônia com o sorriso sonso de vocês. Tem nada de comunidade nessa alternativa. Vocês qué memo é um paraíso particular com cachoeiras de água morna e sem insetos na floresta.
– Ain é que eu não curto muito usar repelente, essas coisas, sabe?
– Sei. Mas usar o cartão de crédito do papai de vez em sempre e um pózin vez em quando é suave né, namasteco?
– Tem aí?
– Não. Mas tem citronela.
– Que isso?

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Quinhentos mil mortos e contando e vocês com essa milonga de pensamento positivo, de praticar a gratidão. Ahan. Por mais da metade da população sem saber se vai ter o que comer amanhã, agradeço. Pelo preço do gás, do óleo de cozinha, da conta de luz. Por cada criança que tá na rua agora pedindo esmola ou vendendo bala, por cada pessoa asfixiada, por cada preto assassinado pela polícia, agradeço. Pelo silêncio cômodo de vocês, agradeço, porque esse silêncio diz muita coisa.

Deixe uma resposta