Yuval Harari: a mentira a serviço de uma ordem em colapso

O historiador apresenta uma narrativa em que os EUA e a OTAN seriam pacifistas e Putin seria um ditador capaz de promover conflitos sem similar desde a Segunda Guerra

Yuval Harari: falsificação histórica
por William Dunne

Autor de best sellers como Sapiens e 21 lições para o século 21, o historiador israelense Yuval Harari tem desempenhado o papel de garoto propaganda da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Já há várias entrevistas de Yuval na Internet em que ele defende uma visão atlantista do conflito entre Ucrânia e Rússia. Uma visão que consiste, basicamente, em ignorar as raízes do atual embate, demonizar o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e, finalmente, mentir bastante e descaradamente.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

No Brasil, Yuval apareceu em uma reportagem de 10 minutos que foi ao ar no Fantástico de domingo (6), um programa com grande alcance, perfeito para a propaganda de guerra em que a mídia hegemônica brasileira se engajou. Naquela noite, o Fantástico chegou a 20,1 pontos de audiência.

Durante a reportagem, trechos de uma entrevista de Yuval concedida a Sônia Bridi são sucedidos por imagens e textos que ilustram os argumentos do entrevistado, confirmado-os. O historiador israelense não é confrontado, mas sim apresentado como uma autoridade no assunto. É o argumento de autoridade trazido para a campanha da OTAN, para o consumo de massas no Brasil através de sua principal emissora de TV. É uma carteirada da Globo.

E o “fact checking”?

Porém, as afirmações dessa “autoridade”, que visam corroborar a versão dos EUA e da OTAN sobre o conflito, poderiam facilmente ter sido contestadas. Os milhões de espectadores da Globo ouviram por exemplo que Putin, pintado quase como um novo Hitler por Yuval Harari, estaria gastando 20% do PIB com equipamentos militares. Contudo, dados do Stockholm International Peace Research Institute, da Suécia, mostram que a Rússia gastou 4,263% de seu PIB com defesa em 2020.

Outro problema da afirmação de Harari é que mencionar o gasto do governo de Putin com Defesa não prova que o presidente russo tenha ambições imperialistas e expansionistas. Esse gasto poderia representar cautela diante da expansão da… OTAN – uma despesa defensiva. Os EUA, por exemplo, gastaram 3,741% do PIB com Defesa em 2020, menos do que a Rússia em termos de proporção do PIB. No entanto, em termos absolutos, os EUA gastaram US$778 bilhões naquele ano, enquanto os russos gastaram US$61.7 bilhões. Além disso, a soma dos gastos militares do Reino Unido, Alemanha e França é quase o triplo do que os russos gastam. Se os gastos militares por si sós provam algo, é que Putin está se defendendo de países dezenas de vezes mais hostis.

Leia também:  12 motivos para dizer: a culpa é do Bolsonaro

Nova era de conflitos?

Yuval Harari também apresentou a tese de que, caso Putin vença a guerra, uma nova era de conflitos estará sendo iniciada – como não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele: “Se o Putin vencer, veremos mais ‘Putins’ em muitos lugares do planeta. Veremos países imitando o russo, invadindo os vizinhos e tentando destruí-los. É do interesse de todos, no mundo inteiro, fazer o que puderem para parar essa guerra terrível”.

Essa parte da entrevista, que a Globo selecionou, cortou, e exibiu para milhões de pessoas, talvez seja o exemplo mais flagrante de falsificação da história com propósitos políticos a favor dos EUA e da OTAN. Justamente porque ignora, principalmente, o histórico de intervenções dos EUA.

Antes de falar dos EUA, lembremos que Yuval é israelense. Israel gerou uma crise de refugiados logo depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1948, no episódio que ficou marcado na história dos palestinos como a nakba (catástrofe), mais de 700 mil pessoas foram expulsas de suas terras, em que suas famílias viviam há gerações, durante séculos. Logo em seguida os EUA atravessaram o mundo para se meter na guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953. Depois os EUA entraram na  guerra do Vietnã (que durou de 1955 até 1975) em 1964. Em 2003, os EUA invadiram o Iraque, mataram milhões de civis e deixaram milhões de refugiados, com o pretexto de que o país teria armas de destruição em massa (que nunca foram encontradas). Atualmente, os EUA patrocinam o cerco da Arábia Saudita ao Iêmen, que, segundo estimativa da ONU do ano passado, já teria matado 377 mil pessoas. Isso para não falar em outros conflitos e intervenções dos EUA, que seria uma lista realmente longa.

Como é possível, diante desse histórico do país que lidera a OTAN e, por meio dela, estende sua presença militar por toda a Europa, afirmar que Putin estaria inaugurando uma era de conflitos? Isso só é possível graças ao volume da propaganda de guerra dos EUA. Todos os grandes canais de TV e rádio, todos os grandes jornais impressos e portais, passando por produções cinematográficas e publicação de livros, repetirão dia e noite que a Rússia invadiu outro país sem provocação porque Putin seria um ditador. Por mais que essa história parta de premissas flagrantemente mentirosas, a aposta nesse caso é no volume dessa propaganda, de proporções monumentais.

Leia também:  Não sairemos das ruas, não podemos sair!

Putin nazista?

Outras duas afirmações da entrevista merecem ser apreciadas aqui. Yuval Harari diz que Putin esperava ser recebido com flores, mas que a Ucrânia resistiu. E faz uma caricatura das denúncias da presença de nazistas, quando diz que: “Putin construiu uma mentira, essa fantasia de que a Ucrânia não é uma nação de verdade, que ucranianos são russos, que querem ser absorvidos pela Rússia, e que só não conseguem porque existe uma gangue de ‘judeus nazistas’ no poder”.

A primeira afirmação é uma comparação de Putin com Hitler. O que Yuval insinua é que Putin esperava ser recebido como na anexação dos Sudetos ou da Áustria pela Alemanha nazista. É uma comparação maliciosa que faz parte da demonização do governo russo. A segunda afirmação é mais traiçoeira, porque omite o fato que há uma divisão na Ucrânia, e que há uma ala pró-Rússia, como ficou claro no referendo em que 90% da população da Crimeia escolheu fazer parte da Rússia. Além dos oito anos de guerra civil no leste do país, praticamente inexistentes para a imprensa ocidental.

Mas o conteúdo mais venenoso está no final, quando Yuval se refere a uma “gangue de judeus nazistas” ele está insinuando que, por Zelensky ser judeu, as denúncias da simbiose entre Estado ucraniano e bandos nazistas seriam falsas. O problema é que Zelensky ser judeu não anula esse fato, que tem ficado a cada dia mais evidente graças aos soldados ucranianos que colocam símbolos nazistas em seus uniformes, como o sol negro. No mundo que Yuval Harari e a Rede Globo, assim como todas as grandes TVs do ocidente, vendem para seus espectadores, a realidade é invertida: o governo russo é que estaria associado ao nazismo, já que Putin é uma espécie de Hitler, e a Ucrânia, infestada de bandos de extrema direita, seria apenas uma inocente democracia lutando por liberdade.

Medo

Outra distorção da realidade urdida por Yuval é a de que os países do leste europeu que entraram na OTAN o fizeram por medo da Rússia, e que a Rússia deu razão a todos eles ao invadir a Ucrânia. Como se a OTAN fosse uma entidade benévola, protegendo o mundo da malvada Rússia. É justamente o contrário. A OTAN é a presença militar dos EUA na Europa, apertando o cerco à Rússia de forma propositalmente ameaçadora. No parlamento ucraniano já se debatia abertamente instalar armas nucleares no país, que ficariam apontadas para a Rússia a uma curta distância. É evidente que uma potência militar como a Rússia não ficaria assistindo. Para completar o quadro, a subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, admitiu durante uma audiência no Congresso norte-americano que na Ucrânia há laboratórios de armas biológicas. Ao que parece, seriam laboratórios dos EUA.

Leia também:  Não dá tempo de esperar as eleições de 2022

Portanto, a alegação do governo russo de que sua operação militar tem propósitos defensivos é crível. As ameaças são palpáveis, e o avanço da OTAN já dura décadas, contrariando uma promessa feita ao governo (então) soviético no começo dos anos 90, quando o Secretário de Estado do governo Bush (pai), James Baker, garantiu a Gorbachev que a OTAN não avançaria “uma polegada” para o leste. Desde essa promessa, 15 países novos entraram na OTAN, todos ao leste.

Liberdade e democracia

Toda essa falsificação é feita supostamente em nome do “ocidente” e seus “valores”, pela “liberdade” e pela “democracia” contra governos tirânicos e incivilizados. A situação, porém, revela o que são na prática a “liberdade” e a “democracia” ocidentais. Democracia e liberdade é dar um golpe de Estado usando herdeiros políticos diretos de colaboradores nazistas, encher o Estado de nazistas e o país de laboratórios de armas biológicas. É isso o que o mundo livre ocidental tem a oferecer aos bárbaros governados por tiranos incivilizados.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

O que está em jogo, evidentemente, não são valores nem liberdade ou democracia. O domínio dos EUA sobre o mundo está em crise. É o controle global dos EUA que será afetado caso os russos consigam impor aos ucranianos uma posição neutra entre a OTAN e a Rússia. Esses aspectos da crise do império são desdobramentos militares e políticos da crise do próprio capitalismo, que nunca se recuperou de 2008. É esse sistema de dominação para exploração econômica que está em colapso, e não a “liberdade e a “democracia”. É em defesa desse sistema que está desmoronando que Yuval Harari conta suas mentiras e a mídia ocidental as reproduz.

Um comentário

Deixe uma resposta