Weintraub e o deboche com os estudantes de baixa renda

Indo contra qualquer mínimo lapso de bom senso, o ministro da Educação acredita que o ENEM 2020 não deve ser cancelado por conta da pandemia, já que ela prejudica a todos, sendo portanto uma doença sem preconceitos.

O ministro
por Bibi Tavares

“E se uma geração de novos profissionais fosse perdida?”. É com essa hipótese que se inicia um vídeo publicado no canal do Ministério da Educação no YouTube, no dia 4 de maio. Com uma bandeirinha do Brasil disposta em cada cenário de quarto ideal para qualquer estudante, atores – sim, atores – encenavam o que provavelmente pretendia ser uma mensagem inspiradora para os alunos que estão preocupados com o não cancelamento do Enem deste ano, mesmo com a pandemia.

Previsto para acontecer em novembro, o Exame Nacional do Ensino Médio é utilizado por alunos de todo o país para acessar as universidades públicas através de suas notas, contudo, o atual cenário de pandemia fez com que a rede pública de ensino suspendesse as aulas para que os alunos pudessem cumprir com a quarentena. Dessa forma, esses jovens ficaram impossibilitados de se prepararem de forma mais adequada para o exame.

Mas perde-se mesmo uma geração de profissionais por conta do cancelamento de uma prova do Enem? O vídeo publicado pelo Ministério da Educação trabalha negando a realidade a partir da ideia de que “a vida não pode parar”, como se esse momento totalmente extraordinário desse margem para viver normalmente, sem ter a pandemia em vista. Uma geração de profissionais está muito mais ameaçada pelo fato do Brasil ser o próximo epicentro de contágio do que pelo cancelamento de uma prova. No último dia 11, cerca de 881 pessoas morreram de Covid-19 no Brasil, isso, sim, parece algo ameaçador.

Ainda assim, para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, parece que pouco importa a ciência ou a palavra de profissionais da educação. No dia 5 de maio, numa reunião virtual com senadores, o ministro chegou a dizer que o Enem “não foi feito para corrigir injustiças”, mostrando que para ele o que prevalece é o individual e não o coletivo. O vídeo cheio de frases de autoajuda como “dias melhores virão” mostra como Weintraub fecha os olhos para um problema anterior à pandemia, que é a desigualdade na qualidade de educação que existe entre ricos e pobres.

Enquanto as escolas particulares e de alto padrão conseguem manter um ritmo de ensino mais ou menos similar ao do dia-a-dia em sala de aula, a rede pública de ensino sofre com falta de infraestrutura e tecnologia, além do fato de que esses professores não foram preparados em nenhum momento de sua formação para um cenário peculiar como esse, em que o conteúdo das aulas precisa ser adaptado às aulas virtuais. Nesse contexto, o maior problema que os alunos de baixa renda encontram é a falta de recursos necessários para estudar, já que nem todos os alunos têm acesso a um computador, e algumas casas sequer dispõem de internet que não seja a do celular.

Segundo reportagem do Nexo, somente 58,2% dos alunos possuem espaço adequado para estudo em casa, 27,9% têm sob sua responsabilidade os cuidados de alguma criança e 19,7% os cuidados de algum idoso no domicílio. É claro que essas responsabilidades aumentam diante da pandemia, já que creches também estão fechadas e a recomendação é a de permanecer em casa. Sobre os equipamentos necessários, o Nexo mostra que menos de 70% dos jovens pobres possuem computador e cerca de 35,7% deles precisam compartilhar a máquina com outras pessoas da casa. Lembrando que o Brasil é gigante e em lugares como interior do norte e nordeste a realidade das escolas é muito mais precária que nas capitais.

Ao não adiar o Enem, o ministro da educação consegue dar vida ao meme “eles que lutem”, jogando nas mãos dos estudantes a responsabilidade de driblar a pandemia, a quarentena e fazer o exame a qualquer custo. O deboche com que Weintraub fala da educação no país é de embrulhar o estômago, já que ele não poupa esforços para deixar claro que tudo se trata de uma competição.

Enquanto isso, em outros países como EUA, do qual Bolsonaro gosta tanto de puxar o saco, França, Reino Unido, Irlanda e Holanda, que possuem exames semelhantes ao ENEM no Brasil, cancelaram suas provas. Inclusive, na França é a primeira vez que o tradicional baccalauréat é cancelado desde seu nascimento, em 1808.

Aqui no Brasil, dezenas de entidades educacionais e universidades públicas assinaram uma carta onde se pede ao INEP e MEC o adiamento do calendário de provas do ENEM deste ano. Dentre as entidades que assinam está a Associação dos Servidores do INEP, órgão responsável pela prova. Além dela, UNE (União Nacional dos Estudantes), UBES ( União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), IFF (Instituto Federal Fluminense), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) também assinam o documento.

As inscrições para o Enem estão abertas desde a última segunda-feira, dia 11 de maio. O prognóstico, infelizmente, é o de que muitos alunos serão prejudicados por um ministro da educação que se orgulha de fazer chacota dos gravíssimos problemas que o Brasil vem passando.

Abaixo você pode acompanhar o terrível vídeo ao qual esta matéria se refere: https://twitter.com/AbrahamWeint/status/1256218923160276992

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