Vivemos um impasse, mas entre boas e más notícias temos luzes e Lula

“Lula” é algo muitas ordens de grandeza além do Luiz Inácio, e ele sabe disso. Lula é uma construção social do nosso povo e da nossa história

Foto: Ricardo Stuckert
por Alexandre Flach

Tanto o reformismo como o revolucionismo do século XX não estão funcionando. Há quem diga que não funcionarão nunca mais. Comprovando Marx, o capitalismo de hoje não teria mais espaço de mais-valia para possibilitar a existência nem de uma burguesia conciliadora, nem de uma classe operária forte.

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Vivemos em um mundo onde o contínuo progresso tecnológico determinou a substituição do trabalho vivo (humano) por trabalho morto (de máquinas) em uma proporção que não permite mais a produção de mais-valia suficiente para manter o capitalismo.

Sem trabalho humano não há mais-valia. Sem mais-valia não há capital, nem capitalismo. A mais-valia encontrou seu limite histórico-sistêmico de crescimento. Como consequência, tanto a burguesia que mantém o seu poder no capital, como a classe operária que o produzia, ambas estariam em franca decomposição econômica e enfraquecimento político.

E a exceção confirma a regra: a China.

Quase toda a parcela da produção que não migrou para o trabalho morto foi dragado para o “socialismo com características chinesas”, que dá muito mais liberdade econômica ao acúmulo capitalista do que o Brasil, enquanto mantém controle com mão-de-ferro sobre o celeiro onde se estoca todo esse capital acumulado: o sistema financeiro. Isso sem falar que deixa nem um pingo de poder político na mão de sua burguesia, naturalmente. Como se vê, um paredão cheio de sangue burguês continua a ser um excelente investimento.

A boa notícia

Não há condições econômicas para um fascismo fechado estilo século XX, e talvez nem mesmo para uma ditadura militar do estilo de 64, porque ambos dependem de alguma expansão capitalista, o que já se viu não ser mais possível. Valha-me deus pela heresia, mas o fascismo na Alemanha, Itália, Espanha etc. “modernizou” esses países, pelo menos no sentido burguês da palavra: crescimento de mais-valia a qualquer custo (leia-se chicote estalando no lombo do trabalhador).

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O problema é que hoje essa conta não fecha. O custo e a dificuldade logística de se manter um regime abertamente ditatorial é muitas vezes maior hoje do que nos anos em que a última palavra em comunicação era a gráfica ou as ondas de AM. E o lucro de manter o povo calado em uma fábrica para trabalhar até morrer é muitas vezes menor do que o auferido apenas em se manter funcionando o fantástico mundo de OZ da “indústria financeira” feita de dinheiro “fiduciário”, sem lastro em nada.

Um burguês que vivesse no mundo da Lua (ou Marte…) poderia até sonhar com algum lucro com sua fábrica quase sem empregados. Mas no próximo “giro” da roda do sistema acabaria percebendo que está com os pneus (e os bolsos) furados. Não é por outra razão que o nosso Hitler tardio dos bolsos furados entrou em contradição mortal com a nossa TV gloebbels. Nestas condições, fascismo hoje é apenas um grito de gângster e jamais um projeto da burguesia de conjunto.

A má notícia

A esquerda política está sem rumo até mesmo no mundo dos conceitos e definha isolada da classe revolucionária.

As diversas forças de esquerda hoje não têm condições de realizar nem o tradicional programa de reformas democráticas, muito menos o programa mínimo da 3ª internacional ou o de transição trotskista. Todas essas estratégias dependem de alguma saúde do sistema capitalista, que hoje já é um cadáver. Por isso, continuar operando na base de luta por salário, emprego, produção de mercadoria, ou qualquer forma de esperança “por direitos” capitalistas, sejam essas esperanças colocadas ao fim de uma eleição ou de uma revolução somente intensifica mais e mais a tendência de isolamento da esquerda a nichos pseudo-vanguardistas e seitas políticas.

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E essa é a péssima notícia: a esquerda foi contaminada pela incapacidade orgânica da burguesia de conceber um mundo pós-capitalista. Por isso, não conseguimos até o momento nem ao menos construir uma teoria efetiva da crise do sistema. E pior: estamos completamente perdidos em nossa função básica de trazer esperanças realistas para o povo e assim conseguir organizar as massas para a luta de superação desse sistema. Um dos sintomas dessa contaminação é a enorme dificuldade de até mesmo entender o que está em questão no fenômeno China.

A tendência política

As eleições chilenas demonstraram, uma vez mais, que a tendência é o forte e rápido crescimento de vetores antissistema na sociedade, independentemente dos discursos que as pessoas usem para se expressar.

O problema é que, no que se refere à expressão política desta tendência, as massas ainda encontram apenas demagogias tanto pela direita como pela esquerda. Para a “extrema” direita (que é o sistema) é impossível levar avante seriamente um processo que tenda a enfraquecer sua própria ferramenta de repressão: o Estado burguês. E para a esquerda, a “revolução” é hoje, no máximo, uma propaganda enganosa para captar militantes, principalmente jovens ou pessoas sem experiência política.

Lula do Brasil

Como sempre, no Brasil há particularidades intensas.

O Brasil é gigante demais. Tem riqueza suficiente para bancar seu próprio capitalismo por muito tempo. Possivelmente, nem a União Soviética ou a China tinham condições de se manterem à parte do sistema capitalista mundial como o Brasil ainda hoje possui.

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Mas como para fazer isto é necessário literalmente pedir permissão para a burguesia própria e a dos EUA, a coisa fica difícil.

O Lula há décadas tenta convencer esse pessoalzinho safado que construir um capitalismo com particularidades brasileiras ainda seria a melhor solução para todos nós. E é provável que isso realmente seja possível e Lula seria o único com força suficiente para possibilitar essa articulação.

Entenda-se: “Lula” é algo muitas ordens de grandeza além do Luiz Inácio, e ele sabe disso. Lula é uma construção social do nosso povo e da nossa história. Uma dessas coisas gigantes tão particulares ao Brasil. O problema é que outra gigante construção brasileira é a nossa burguesia, mestra maior em colocar uma boa canga de boi no pescoço do povo e conduzi-lo (tranquilo ou pacificado) com um belo chicote, mesmo quando o destino é o matadouro.

Luzes

Luzes no fim desse túnel são os movimentos de luta por terra e moradia, e também os que nascem diretamente da capacidade de auto-organização do povo, como a Revolução Periférica.

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São concretamente anticapitalistas, inclusive em suas ações políticas, normalmente centradas na ação direta. O problema é que para se desenvolverem em ações de massas precisarão superar suas lutas particulares ou sua condição de nicho. E isto somente o movimento histórico poderá fazer.

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