Um tesouro brasileiro chamado Instituto Butantan

Em sua primeira década de existência, o Instituto Butantan teve papel fundamental no controle de epidemias como a peste bubônica e febre amarela que atingiam São Paulo

Imagem: rafapress
por Coletivo Pensar a História

Um dos principais centros de pesquisa biomédica do mundo e o maior produtor de soros e vacinas da América Latina, respondendo por 51% dos medicamentos imunizantes e 56% dos soros de uso profilático e curativo se encontra aqui, no Brasil. O Instituto Butantan foi fundado para combater a epidemia de peste bubônica que havia atingido o Porto de Santos no fim do século XIX. A doença, também denominada “peste negra”, foi responsável por dizimar um terço da população europeia na Idade Média e seguiu assolando o mundo em surtos periódicos nos séculos seguintes, até que o bacteriologista suíço Alexandre Yersin conseguisse isolar o bacilo da peste, abrindo caminho para os primeiros soros e vacinas antipestosos.

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Quando a epidemia ressurgiu no fim do século XIX e atingiu o Porto de Santos, as autoridades brasileiras tentaram encomendar o soro antipestoso, então produzido pelo Instituto Pasteur na França e pelo Instituto Messina, na Itália, mas as duas instituições estavam destinando quase toda a produção para suprir a demanda dos países europeus. A solução, portanto, era produzir o imunizante no Brasil.

Em 1899, o governo paulista desapropriou a Fazenda Butantan, na Zona Oeste de São Paulo, e instalou um laboratório para produção de soro antipestoso no local. Em 1901, o laboratório, então vinculado ao Instituto Bacteriológico, tornou-se uma instituição autônoma, a princípio denominada Instituto Serumterápico e, posteriormente, Instituto Butantan. Seu primeiro diretor foi o médico sanitarista e pesquisador Vital Brazil, que se tornaria o primeiro cientista a descobrir o princípio da especificidade antigênica, revolucionando o desenvolvimento da imunologia e a produção de soros antiofídicos.

O primeiro encontro do Butantan com epidemias

Em sua primeira década de existência, o Instituto Butantan teve papel fundamental no controle das epidemias de peste bubônica, tifo, varíola e febre amarela que atingiam São Paulo, produzindo imunizantes e coordenando as brigadas de combate e ações sanitárias. Também se destacou pela produção de soros contra picadas de cobras e animais peçonhentos. Em 1902, o instituto já exportava soro para outros estados e países e iniciava sua trajetória como um inovador centro de pesquisas.

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Em 1906, passou a produzir o soro antidiftérico e em 1909 iniciou as pesquisas com o soro antitetânico, que começaria a ser produzido em 1915. Um ano depois, foi pioneiro na criação do soro antiescorpiônico e também passou a produzir os soros antitífico e antidisentérico. Desenvolveu também o soro eumênico para tratamento de distúrbios menstruais, o soro hormônico para combater a epilepsia e um soro para tratar a pneumonia. Em 1918, diante da crescente demanda, assinou convênio com a Casa Armbrust, que passou a comercializar os produtos do instituto. Nesse mesmo ano, começou a fabricar medicamentos e insumos para combater a pandemia de Gripe Espanhola.

“Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos da América na época, visita o Instituto Butantan”. Imagem: acervo Instituto Butantan

A capacidade produtiva do instituto foi bastante ampliada nos anos vinte. O instituto desenvolveu suas próprias vacinas contra difteria, varíola e tuberculose (BCG), iniciou a pesquisa da vacina contra a hanseníase e criou o soro antigangrenoso e três novos medicamentos antiaracnídicos. Afrânio do Amaral, diretor do Instituto Butantan, foi convidado por Harvard para assumir a direção dos serviços antiofídicos e fundar o Antivenin Institute of America, uma das primeiras organizações de produção de soros antiofídicos estadunidenses, inspirada no Butantan.

Renomado mundialmente como um centro de excelência em imunologia, o instituto passou a atrair para seus quadros grandes expoentes da pesquisa biomédica internacional, tais como Karl Slotta e Heinz Fraenkel-Conrat, pioneiros do estudo da progesterona, do estriol e do uso terapêutico dos venenos, que passaram mais de uma década desenvolvendo pesquisas no Butantan.

Contudo, em 1935, o instituto enfrentou uma de suas maiores crises institucionais – o chamado “Caso Butantan”, motivado por disputas político-partidárias e conflitos de natureza interna, que culminaram com o pedido de demissão do diretor Afrânio do Amaral, após desentendimento com o governador Ademar de Barros. Apesar disso, o instituto conseguiu se recuperar e lançou novos produtos, como o soro vacínico para tratamento de coqueluche, os soros neurotrópico e antihistólico, a vacina contra febre maculosa e antirrábica e iniciou as pesquisas da vacina conta a influenza. Nos anos quarenta e cinquenta, o instituto criou novos laboratórios de bacteriologia, imunologia e anatomia patológica e inaugurou o Hospital Vital Brazil, especializado no tratamento antiofídico.

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“A casa do diretor: o início de sua construção ocorreu em 1928 e foi concluída em 1931. A casa teria sido erguida para servir de moradia ao então diretor, o doutor Afrânio do Amaral. Posteriormente, em 1945, nela foi instalado o Hospital Vital Brazil.” Imagem: acervo Instituto Butantan

As restrições durante a Ditadura Militar

Em 1952, o Instituto Butantan foi tema do documentário “A morte que espreita”, produzido pelo governo da Bélgica. Em 1961, iniciou a importação da vacina Sabin contra a poliomielite, produzida pela União Soviética. O golpe de 1964 e a subsequente instalação do regime militar, entretanto, foram seguidos pela restrição dos fluxos comerciais com o bloco socialista, interrompendo a importação do medicamento. Houve também redução dos investimentos em pesquisas, perseguição à comunidade científica e o desmonte das instituições públicas, além da omissão das autoridades diante dos surtos e epidemias, que voltaram a assolar o país – nomeadamente a grave epidemia de meningite que afetou São Paulo nos anos setenta.

Malgrado as dificuldades, o instituto seguiu realizando suas pesquisas, inaugurando a produção da vacina tríplice bacteriana e das vacinas contra cólera e sarampo. Em 1969, tornou-se um dos dois centros de treinamento e pesquisa em imunologia das Américas certificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 1977, mobilizou seus quadros para debelar o surto de encefalite no litoral paulista.

Após a redemocratização, o Instituto passou a ser um dos coordenadores do Programa de Autossuficiência Nacional em Imunobiológicos. Também teve papel importante no esforço para reabastecimento dos estoques de soro antiofídico na rede pública de saúde, sucateados durante o regime militar. Participou da Conferência Nacional da Saúde, onde foram definidas as bases do Sistema Único de Saúde (SUS). Iniciou a produção do soro antibotulínico e o curso de pós-graduação em biotecnologia, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). Também desenvolveu com tecnologia própria a primeira vacina recombinante do Brasil, contra a hepatite B. Em 2002, estabeleceu parceria com a Sanofi Pasteur para produzir a vacina contra a influenza.

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Museu de microbiologia do Instituto Butantan. Imagem: Luiz Barrionuevo

O sucateamento alcança o Butantan

A última década foi caracterizada por uma crise sem precedentes no Instituto. Subordinada à secretaria de Saúde do governo paulista, a instituição foi alvo de uma campanha de desmonte e sucateamento empreendida pelas sucessivas gestões do PSDB e sofreu severos cortes orçamentários. Em 2009, o Instituto teve de fechar sua biblioteca e vários laboratórios de produção de soros e vacinas, pois as edificações, deterioradas pela falta de manutenção, ameaçavam desabar. Em 2010, um incêndio no instituto destruiu a maior coleção científica de serpentes, aranhas e escorpiões do mundo. O conjunto habitacional que abrigava o alojamento dos pesquisadores e funcionários foi demolido e o Hospital Vital Brazil por pouco não foi fechado.

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A produção de vacinas contra hepatite, difteria, tétano e do imunizante Onco BCG foi suspensa. Esses medicamentos são agora adquiridos de laboratórios privados a um custo por unidade até 30 vezes superior ao da produção própria. Apesar do sucateamento e sucessivas tentativas de desmonte, o instituto continua dando valiosas contribuições para a ciência nacional. Em 17 de janeiro de 2021, o Instituto Butantan obteve autorização da Anvisa para uso emergencial da CoronaVac, o imunizante contra a Covid-19 desenvolvido em parceria com o laboratório chinês Sinovac, dando início à vacinação no Brasil.

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