Um mundo, dois métodos: coronavírus e governos progressistas II

O modo de lidar com a crise nos países com governos progressistas vem demonstrando cabalmente, pelo contraste, a necessidade da humanidade de se livrar dos governos neoliberais

KK Shailaja, ministra da Saúde e Bem Estar Social do estado de Kerala, na Índia Imagem: Madhyamam, Outlook India
por Beatriz Luna Buoso

Enquanto alguns países estão em pleno pico da doença, outros vêm retomando suas atividades aos poucos, e tem também aqueles que estão participando da corrida para desenvolver a vacina que todo o mundo aguarda ansiosamente. Sobre os países que serão tema desta segunda parte da série, só o tempo irá dizer se todos eles serão capazes de lidar com outras possíveis ondas da Covid-19 e o avanço na complexidade do vírus. O que podemos afirmar é que, com certeza, a vida das pessoas nestes países progressistas, com orientação socialista, serão colocadas acima dos interesses econômicos. A saúde e educação públicas e de qualidade são prioridades, diferentemente do que acontece no capitalismo, em que a ordem do dia é sucatear tudo o que é público, rumo à privatização.

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Além de ter vencido a guerra contra os EUA, Vietnã computou zero mortes por Covid-19

Com quase 100 milhões de habitantes e 1,4 mil quilômetros de fronteira com a China, epicentro inicial da pandemia de coronavírus, o Vietnã tinha todos os motivos para viver uma tragédia, mas, surpreendentemente, o país não registrou nenhuma morte por Covid-19 e teve menos de 400 pessoas infectadas. A República Socialista do Vietnã agiu rápido, com firmeza e responsabilidade. Um mês antes do primeiro caso no país, importantes medidas já começavam a ser adotadas.

As medidas adotadas pelo governo e a transparência com a população foram elogiadas pela própria Organização Mundial da Saúde. O vírus chegou no país no dia 23 de janeiro e poucos dias depois o governo criou o Comitê Diretor Nacional de Prevenção de Epidemias, em parceria com médicos e cientistas. Um site estatal também foi colocado no ar para disseminar informações à população e um aplicativo móvel de declaração de saúde foi criado para ajudar o público a relatar suas condições médicas e, assim, seguir a operação de rastreamento de contatos.

Além de cancelarem os voos internacionais, fecharam a fronteira com a China, o que causou grande impacto na economia do país, devido à dependência econômica e parceria comercial entre os países. O uso de máscara tornou-se obrigatório e aglomerações com mais de 30 pessoas foram proibidas. Uma importante atenção também foi dada aos trabalhadores migrantes, que retornavam justamente de Wuhan, China, onde o vírus se originou. Cerca de dez mil trabalhadores ficaram em quarentena por 21 dias, e os mais pobres contaram com um suporte econômico do governo, que liberou um pacote de estímulo de US$ 2,5 bilhões para essa parte da população. Todos que chegaram no país foram obrigados a se isolarem por 14 dias e grande parte das pessoas infectadas foram isoladas em prédios militares e monitoradas através de câmeras, garantindo que o isolamento fosse cumprido. Quem teve contato com esses que testaram positivo foi localizado e testado.

Ao todo, cem mil pessoas foram isoladas e, para cada caso confirmado, mais de 900 pessoas foram testadas, a maior taxa de testes por caso confirmado no mundo. Com poucos recursos, os vietnamitas criaram seu próprio kit de teste que, além dos excelentes resultados, teve um custo baixo (menos de US$ 25). Boa parte dos kits foram exportados para os Estados Unidos e Europa. Os métodos, muito julgados como invasivos, tiveram forte aprovação e apoio popular. Localização, testagem e isolamento rigoroso. O pequeno país socialista derrotou o coronavírus.

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Kerala, o estado comunista da Índia 

“Distância física e unidade social”, esse foi o lema do governo comunista deste estado localizado no extremo Sul da Índia, Kerala. Com 40 milhões de habitantes, o local é liderado por um membro do Partido Comunista da Índia Marxista (CPIM), além de ser um dos estados mais globalizados do país. Seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é o mais alto da Índia, com cerca de 0,790, superando a média indiana que é de 0,467. Dentro de um país tão pobre governado pela extrema-direita, Kerala, hoje sob o governo de Pinarayi Vijayan, tem a maior taxa de alfabetização, maior igualdade de gênero e maior expectativa de vida.

Atentos aos erros e acertos da China, o Conselho de Planejamento de Kerala adotou imediatamente uma série de ações rigorosas. A primeira medida adotada foi garantir que todos os turistas voltassem para seus países e os trabalhadores que estavam retornando fossem colocados em quarentena por 21 dias. Para garantir o isolamento desses trabalhadores e dos desabrigados foram criados mais de 4 mil centros de assistência, com alimentação, itens de higiene e máscaras, além de acompanhamento médico. O governo ampliou o sistema de saúde já existente e remanejou médicos da capital para cidades mais afastadas, investindo fortemente em testes e rastreando possíveis suspeitos. Uma atenção também foi dada à saúde mental da população, disponibilizando psicólogos para atender por telefone as pessoas isoladas que precisassem de apoio.

Outra medida importante tomada pelo estado foi a manutenção do fornecimento de merenda, mesmo com as escolas fechadas, além de distribuição de cestas básicas para todos. Pensando nos impactos causados à economia, a estratégia do governo foi abrir os cofres e gastar o que fosse necessário para garantir as necessidades imediatas da população, assim como impedir as demissões, garantir a renda mínima para os trabalhadores, a sobrevivência das empresas, fortalecer todos os serviços públicos e a distribuição de alimentos. Desta forma, Kerala foi o primeiro estado indiano a retomar suas atividades econômicas.

República Popular Democrática da Coreia

A República Popular Democrática da Coreia não registrou nenhum caso da doença, embora a grande mídia negue os méritos do país socialista e insista em dizer que há ocultação de casos. Já a OMS confirma que a Coreia do Norte é um dos poucos locais que não apresentaram nenhum caso. Logo em janeiro, quando o vírus foi detectado, o país fechou suas fronteiras e bloqueou todas as rotas marítimas e aéreas e centenas de turistas foram colocados em isolamento na capital Pyongyang. O mesmo procedimento foi feito com os coreanos que chegavam de outros países. Os hospitais e postos de saúde foram adaptados para os atendimentos, caso o país enfrentasse uma situação difícil com muitos casos de contágio. Foram fechadas as escolas, aeroportos e os portos, e os serviços essenciais que permaneceram abertos passaram por processos de desinfecção diários.

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Assim como todos os países de orientação progressista ou socialista citados nesta série, a Coreia do Norte também se preocupou em conscientizar o seu povo sobre a pandemia. Várias campanhas foram feitas para reforçar a importância do uso de máscara, álcool em gel e higienização das mãos. A programação especial da TV estatal do país foi atualizada de forma que mantivesse uma transparência entre o governo, a pandemia no mundo e a população coreana. Carros de som também foram usados reforçando as orientações do governo. O líder Kim Jong-un e seu Partido dos Trabalhadores da Coreia trabalharam juntos com a ciência e até o momento tiveram sucesso nesse combate. Hoje, o país está desenvolvendo sua própria vacina, já em fase de testes e com garantia da eficácia e segurança necessárias ao medicamento que está sendo desenvolvido por cientistas do Instituto de Biologia Médica da Academia de Ciência Médica do Norte, através da enzima conversora da angiotensina 2 (ACE2).

Argentina e os resultados de suas mudanças  

Pouco se falava sobre o coronavírus no Brasil quando nossos vizinhos argentinos fecharam as fronteiras e decretaram quarentena obrigatória, sob pena de prisão ou multa para quem a descumprisse. O país que havia passado por um inferno astral econômico devido às negociações da dívida externa e as restrições financeiras herdadas do governo neoliberal de Maurício Macri, agora tinha que agir com poucos recursos e de forma que os setores mais afetados pelo governo anterior não sofressem ainda mais. Enquanto o vírus se espalhava rapidamente pela Europa, o governo argentino anunciou as estratégias que seriam adotadas para combater a doença no país. A partir de 11 de março, enquanto no Brasil o vírus era tratado como uma simples “gripezinha”, todos que chegavam na Argentina foram obrigados a fazer uma rigorosa quarentena.

Através dos meios de comunicação, foi anunciado o decreto de estado de emergência sanitária e a população foi alertada sobre a situação da pandemia no mundo. Todas as fronteiras foram fechadas, assim como as escolas e serviços não essenciais. No dia 19 de março, o país já registrava 97 casos de contágio e 2 mortes. O presidente Alberto Fernandéz decretou quarentena para toda a população. Com a quarentena “prematura”, o governo ganhou tempo para ampliar e fortalecer o sistema de saúde, de forma que não houvesse colapso e fosse capaz de atender a demanda de infectados por Covid-19. No que se refere a itens essenciais para evitar o contágio, na Argentina não teve máscara sendo vendida a preço de ouro e nem briga para garantir o álcool em gel. O governo de Fernandéz ampliou o abastecimento desses produtos e estabeleceu um preço máximo, suspendendo a taxa de importação para esses suprimentos básicos.

Trabalhando junto com a Ciência e com o Ministério da Economia e Desenvolvimento, o governo peronista conseguiu assegurar a interrupção das atividades econômicas, dando suporte para os micro e pequenos empresários, para a população de baixa renda, aposentados e grupos de risco. Com o país vivendo um momento de recessão e de extrema desigualdade social como herança do governo Macri, destacam-se as medidas que evitaram o aprofundamento da miséria no país, as medidas de proteção à classe trabalhadora e o investimento na saúde para o enfrentamento à pandemia. Para os grupos citado acima, foram suspensos o corte de energia elétrica, água, telefone fixo e móvel, gás encanado e proibido despejo por falta de pagamento. O decreto tem validade de 180 dias. Para as mães de crianças de até 6 anos, gestantes e pessoas com deficiência, foi ampliado o auxílio que garante um cartão alimentação, medida importantíssima que evita o agravamento da fome no país.

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Demissões, suspensão de contrato e redução de salários também foram proibidas durante 60 dias. Os trabalhadores da área da Cultura e do Turismo, setores tão afetados em todo o mundo, receberam atenção do governo argentino. Foi criado um importante programa de subsídios para apoiar os centros culturais, com cerca de 30 milhões de pesos para cobrir gastos correntes ou operativos. Assim, Alberto Fernandéz tem obtido resultados bastante positivos e, consequentemente, sua popularidade vem subindo entre os argentinos.

O que vem por aí…

A pandemia mundial escancarou as diferenças entre o sistema socialista e capitalista. Os primeiros deram um exemplo de humanidade para o mundo, colocando a vida de seu povo acima dos interesses econômicos imediatos do país, mostrando a importância de se investir em serviços públicos. A solidariedade desses países também é evidente quando vemos ações como: investimento em pesquisas de medicamentos e vacinas, que são do interesse de todos, a doação de equipamentos médicos essenciais e, claro, a ajuda humanitária a outros países. Os socialistas não subestimaram o vírus e sua gravidade, e suas respostas às crises sanitária e econômica resultou em menores taxas de contágio e mortes. Cuba, por exemplo, enviou dezenas de médicos para o Brasil, que em outro momento da história acabou com o Projeto Mais Médicos, dispensando centenas de médicos cubanos. Também, num ato de solidariedade, mesmo com um histórico muito conturbado com os norte-americanos, os vietnamitas enviaram 450 mil unidades de EPI aos Estados Unidos. Enquanto isso, numa atitude desumana e criminosa, os EUA não só mantiveram o bloqueio duríssimo contra Cuba e Venezuela, como o endureceram em plena pandemia.

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Os países com mais casos de contágio e mortes por Covid-19, hoje, são países sem um sistema público de saúde, e os que têm, como no caso do Brasil, vêm passando por um processo de sucateamento, como acontece aqui desde o golpe de 2016. Nas grandes nações ditas “desenvolvidas”, a saúde, educação e ciência são tratadas como mercadorias e isso explica bem as altas taxas de contaminados e mortos por coronavírus. O sucesso dos países citados nesta série é uma vitória para todos os comunistas do mundo. Num momento tão importante na história da humanidade, nossas conquistas foram escancaradas. Independentemente do capitalismo continuar vivo, o mundo não será mais o mesmo.

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