Treta no PSOL

Erundina escreveu no Twitter lamentar que o PSOL “negocie suas convicções”, desencadeando uma onda de réplicas e discussões

Imagem: O Partisano
por Ivan Conterno

Em uma publicação no Twitter, Luiza Erundina criticou uma ala do seu partido, o PSOL. Segundo ela, alguns deputados da legenda estariam aderindo ao fisiologismo e à barganha por cargos. A publicação foi feita na sexta-feira (22) e já gerou um burburinho sobre um possível racha.

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O PSOL lançará Luiza Erundina como candidata à Presidência da Câmara. Segundo os apoiadores da candidatura, a vitória de Baleia Rossi, do MDB, de fato representaria uma derrota ao candidato de Bolsonaro, que é Arthur Lira, do PP. No entanto, o apoio a Baleia poderia ser dado no segundo turno. Caberia à oposição apresentar um candidato com compromissos relevantes para a esquerda.

Os deputados que eram favoráveis a votar imediatamente em Baleia Rossi perderam a discussão interna do PSOL. Essa ala é representada por Marcelo Freixo e deputados do MES, corrente política que faz parte do PSOL.

As origens do PSOL

O PSOL foi formado em 2004, após a expulsão de quatro parlamentares do PT em 2003. As correntes trotskistas MES e CST decidiram fundar um novo partido. Heloísa Helena, que foi uma das parlamentares expulsas do PT, fazia parte da corrente DS, que se dividiu e permaneceu, em sua maior parte no PT. 

As divergências do PT, no entanto, já se manifestavam desde a candidatura de Lula em 2002. As correntes trotskistas se manifestaram contra a aliança do PT com os partidos de direita. Essas alianças ficaram mais evidentes quando José Alencar, do PL, foi escolhido como vice-presidente na chapa presidencial do PT em 2002.

Após a fundação do novo partido, a APS, outra corrente política do PT, que não era trotskista, se juntou ao PSOL. Isso só aconteceu após os partidos políticos de direita acusarem o PT de corrupção. A denúncia nunca foi materialmente comprovada, mas causou um reboliço na esquerda nacional. Até partidos da extrema-esquerda, como o PSTU, o PCO e o PCB, recriminaram o PT por ter (supostamente) aderido às práticas de compra de votos na Câmara, tal como ocorria durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB.

Luiza Erundina, por sua vez, é uma arrependida. Foi expulsa do PT em 1993 por ter aceitado o convite de Itamar Franco, recém chegado ao PMDB, para compor um governo de coalizão após o impeachment de Fernando Collor. Após se aventurar por partidos da direita, Erundina se juntou ao PSOL em 2016 para se opor à campanha contra o mandato de Dilma Rousseff, do PT.

Segundo o deputado federal Glauber Braga, do PSOL, a treta é fruto de uma notícia falsa na CNN e todas as posições do partido buscam enfrentar o bolsonarismo. A deputada federal Sâmia Bonfim, do MES/PSOL, entende que as divergências atuais são táticas e pouco significativas. No entanto, as disputas internas no PSOL sobre estratégia política têm sido bastante acirradas desde 2015.

 

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Reviravoltas

Dessa vez, os deputados que defenderam o voto em Baleia Rossi são do MES, corrente que havia criticado tais alianças do PT com políticos da direita. Não bastasse isso, o MES havia aderido à campanha pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff no passado recente. Erundina, por sua vez, se mostra contrária a qualquer tipo de coalizão. O motivo de tal reviravolta nos princípios de cada um seria o desgoverno Bolsonaro, um panorama inédito na política recente do Brasil.

Leonel Brizola Neto, vereador do Rio pelo PSOL, acusou, também no Twitter, as correntes contrárias à candidatura de Luiza Erundina de “liberalismo global popstar”. Desde a fundação do PSOL, inúmeros políticos e correntes descontentes com o PT aderiram ao partido, criando uma situação na qual os trotskistas não são mais a maioria. Essas correntes, com exceção das recém chegadas ao partido em virtude da ruptura com o PSTU, apoiaram o impeachment fraudulento e as operações da Polícia Federal contra o PT. Entretanto, a ala majoritária do partido, encabeçada pela APS, apoiou Lula e Dilma.

Para o presidente do PSOLl, Juliano Medeiros, não há nenhuma negociação do PSOL para retirar a candidatura de Erundina em troca de obter vagas na direção dos trabalhos legislativos e dos serviços administrativos da Câmara. As notícias seriam factoides dos jornais que apoiam Bolsonaro.

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Impossível não assinalar a seguinte ironia nessa história: elementos do PSOL exigiam “autocrítica” do PT, junto com a grande mídia, mas agora o PSOL não parece muito disposto a aceitar críticas vindo de dentro do partido. Pode-se alegar que nesse caso a treta foi plantada pela imprensa. Mas no caso do PT certamente pode-se argumentar isso também. Talvez fosse o caso de terem oferecido solidariedade quando pediram “autocrítica”. Nada como um dia após o outro.

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