Tariq Ali: debacle no Afeganistão

Todos aqueles que querem continuar lutando devem mudar seu foco para os refugiados que logo estarão batendo à porta da OTAN. No mínimo, refúgio é o que o Ocidente deve a eles: uma pequena reparação por uma guerra desnecessária

Foto: Irving Tobias/ Secretaría de Cultura CDMX
por Tariq Ali para a New Left Review, com tradução de Danilo Matoso

A queda de Cabul para o Talibã em 15 de agosto de 2021 é uma importante derrota política e ideológica para o Império Americano. Os helicópteros lotados carregando o pessoal da embaixada dos Estados Unidos para o aeroporto de Kabul evocaram memórias vivas das cenas de Saigon – hoje Cidade de Ho Chi Minh – em abril de 1975. A velocidade com que as forças do Talibã assolaram o país foi impressionante; e sua perspicácia estratégica, notável. Uma ofensiva de uma semana terminou vitoriosa em Cabul. O exército afegão de 300.000 combatentes esfacelou-se. Muitos se recusaram a lutar. Na verdade, milhares deles debandaram para o Talibã, que imediatamente exigiu rendição incondicional do governo marionete. O presidente Ashraf Ghani, incensado pela imprensa estadunidense, fugiu do país buscando asilo em Oman. A bandeira do Emirado redivivo agora tremula sobre seu palácio presidencial. Em alguns aspectos, a analogia mais próxima não é Saigon, mas o Sudão do século XIX, quando as forças do Mahdi varreram Cartum e martirizaram o general Gordon. William Morris celebrou a vitória do Mahdi como um revés para o Império Britânico. Porém, enquanto os insurgentes sudaneses dizimaram toda uma guarnição, Kabul mudou de comando com pouco derramamento de sangue. O Talibã sequer tentou tomar a embaixada dos Estados Unidos, e tampouco atacar pessoal estadunidense.

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O vigésimo aniversário da “Guerra ao Terror” terminou assim numa previsível e prevista derrota dos Estados Unidos, da Otan e de outros que embarcaram na empreitada. Como quer que se veja as políticas do Talibã – das quais fui um severo crítico por muitos anos –, sua façanha não pode ser ignorada. Numa época em que os Estados Unidos destruiu sucessivos países árabes, não emergiu qualquer resistência capaz de fazer frente aos invasores. Essa derrota pode representar uma virada, e daí a choradeira dos políticos europeus. Afinal, eles apoiaram incondicionalmente os Estados Unidos no Afeganistão e portanto também foram humilhados – sobretudo a Grã-Bretanha.

Biden não teve escolha. Os Estados Unidos anunciaram que deixariam o Afeganistão em setembro de 2021 sem atingir qualquer de seus objetivos “liberacionistas”: liberdade e democracia, direitos iguais para as mulheres e destruição do Talibã. Mesmo sem derrotas militares, as lágrimas de liberais amargurados confirmam a medida de sua perda. A maioria deles – Frederick Kagan no New York Times, Gideon Rachman no Financial Times – acreditam que a retirada deveria ter sido adiada para manter o Talibã sob controle. Mas Biden simplesmente ratificava o processo iniciado por Trump, com apoio do Pentágono, resultante de um acordo firmado em fevereiro de 2020 entre Estados Unidos, Talibã, Índia, China e Paquistão. O establishment da segurança americana sabia que a invasão fracassara: o Talibã não poderia ser subjugado, não importa quanto tempo eles permanecessem. É disparatada a ideia de que a retirada às pressas de Biden fortaleceu de algum modo os militantes.

O fato é que por mais de 20 anos os Estados Unidos fracassaram em construir algo capaz de sustentar sua missão. A radiante Zona Verde era cercada por uma penumbra impenetrável para seus ocupantes. Num dos países mais pobres do mundo, gastavam-se anualmente bilhões em ar condicionado dos alojamentos que abrigavam os soldados e oficiais estadunidenses, enquanto chegavam comida e roupas regularmente de bases no Catar, Arábia Saudita e Kuwait. Não foi surpresa o crescimento de uma gigantesca favela na periferia de Cabul, enquanto os pobres se reuniam para buscar restos nas lixeiras. Os baixos salários pagos às forças de segurança afegãs não foram suficientes para convencê-las a lutar contra seus compatriotas. O exército, formado em mais de duas décadas, estava infiltrado desde o princípio por apoiadores do Talibã, que receberam treinamento gratuito no uso de equipamento militar e atuaram como espiões para a resistência afegã.

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Essa era a realidade miserável da “intervenção humanitária”. Em todo caso, reconheçamos: o país teve um enorme aumento nas exportações. Durante os anos do Talibã, a produção de ópio era rigorosamente controlada. Depois da invasão dos Estados Unidos, ela aumentou significativamente, e agora é responsável por 90% do mercado global de heroína – o que nos faz pensar se esse prolongado conflito não deveria ser visto, pelo menos em parte, como uma nova guerra do ópio. São trilhões em lucros divididos com os setores afegãos a serviço da ocupação. Os funcionários ocidentais eram regiamente remunerados para permitir o negócio. Um em cada dez jovens afegãos é hoje viciado em ópio e as estatísticas das forças da Otan não estão disponíveis.

Quanto às condições das mulheres, pouco mudou. Houve poucos progressos sociais fora da Zona Verde apinhada de ONGs. Uma das lideranças feministas do país no exílio observou que as mulheres afegãs tinham três inimigos: a ocupação ocidental, o Talibã e a Aliança do Norte. Com a partida dos Estados Unidos, ela afirma, agora terão dois (enquanto escrevemos talvez possa ser um, já que os avanços do Talibã no Norte eliminaram facções importantes da Aliança antes da captura de Cabul). Apesar de reiterados pedidos de jornalistas e ativistas, não há números seguros sobre a indústria do trabalho sexual que se expandiu em função dos exércitos de ocupação.

Tampouco há estatísticas confiáveis sobre estupros – embora os soldados estadunidenses fizessem uso frequente de violência sexual contra “suspeitas de terrorismo”, estuprando civis afegãs e permitindo abuso infantil por milícias aliadas. Durante a guerra civil na Iugoslávia, a prostituição se multiplicou e a região se tornou um centro de tráfico sexual. O envolvimento das Nações Unidas nesse negócio vantajoso foi bem documentado. Já no Afeganistão, os detalhes ainda estão por vir à tona.

Mais de 775.000 soldados estadunidenses lutaram no Afeganistão desde 2001. Destes, 2.448 foram mortos, além de quase 4.000 contratados dos Estados Unidos. Aproximadamente 20.589 foram feridos em combate, de acordo com o Departamento de Defesa. Os números sobre mortes entre afegãos são de difícil apuração, já que “mortes de inimigos” incluindo civis não são contadas.

Carl Conetta, do Project on Defense Alternatives [Projeto sobre Alternativas de Defesa], estima que pelo menos 4.200-4.500 civis foram mortos até meados de janeiro de 2002, como consequência dos ataques estadunidenses – quer como vítimas de bombardeios aéreos, quer devido à crise humanitária que se seguiu. Em 2021, a Associated Press relatou que 47.245 civis pereceram devido à ocupação. Os ativistas afegãos de direitos humanos estimam um total bem maior, afirmando que 100.000 afegãos (muitos deles não combatentes) morreram, e três vezes esse número foram feridos.

Em 2019, o Washington Post publicou um relatório interno de duas mil páginas encomendado pelo governo federal dos Estados Unidos para diagnosticar as falhas de sua guerra mais longa: os Afghanistan Papers. O documento se baseia numa série de entrevistas com generais estadunidenses (na reserva e na ativa), consultores políticos, diplomatas, trabalhadores de ajuda humanitária etc.

O conjunto das avaliações foi condenatório. O General Douglas Lute, o “Tzar da Guerra Afegã” de Bush e Obama, confessou: “carecíamos de conhecimentos fundamentais sobre o Afeganistão – nós não sabíamos o que estávamos fazendo… Nós não tínhamos a mais vaga ideia daquilo em que nos metíamos… Se o povo americano soubesse da magnitude dessa disfunção…” Outra testemunha, Jeffrey Eggers, um fuzileiro naval reformado e funcionário da Casa Branca nos governos Bush e Obama, ressaltou o vasto desperdício de recursos: “O que ganhamos com esse investimento de um trilhão de dólares? Valeu um trilhão? … Depois de matar Osama bin Laden, eu disse que Osama provavelmente estava rindo em seu túmulo aquático, considerando o quanto gastamos no Afeganistão”. Ele poderia ter acrescentado: “e ainda perdemos”.

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Quem era o inimigo? O Talibã? O Paquistão? Todos os afegãos? Um soldado veterano estadunidense estava convicto de que pelo menos um terço da polícia afegã estava viciada em drogas, e que outra parcela considerável era de apoiadores do Talibã. Isso colocou um grande problema para os soldados estadunidenses, como um figurão das Forças Especiais não identificado testemunhou em 2017: “eles pensavam que eu chegaria pra eles com um mapa mostrando onde os mocinhos e os bandidos moravam… Foram necessárias várias conversas até que entendessem que eu não tinha aquela informação em mãos. No início, eles só continuavam perguntando: ‘mas quem são os bandidos, onde estão?’”.

Donald Rumsfeld expressara o mesmo sentimento em 2003: “eu não faço ideia de quem são os bandidos no Afeganistão ou no Iraque”, escreveu. “Eu leio todos os relatórios da inteligência e eles transmitem a ideia de que sabemos muito, mas na verdade, quando você vai a fundo, descobre que não temos nada que utilizável. Nós temos uma lamentável deficiência em compreensão humana”. A incapacidade de distinguir entre um aliado e um inimigo é um assunto sério – não apenas num nível schmitteano,1 mas em termos práticos. Se você não sabe a diferença entre aliados e adversários depois de um atentado com explosivos caseiros contra um mercado lotado, você reage atacando todos, criando no processo novos inimigos.

O coronel Christopher Kolenda, assessor de três generais da ativa, apontou outro problema na missão estadunidense. A corrupção era desenfreada desde o início, disse; o governo de Karzai era uma “cleptocracia auto-organizada”. Isso minou, após 2002, a estratégia de construir um Estado capaz de se manter após a ocupação. “A pequena corrupção é como câncer de pele, há modos de combatê-la e você provavelmente vai ficar bem. A corrupção nos ministérios, de nível mais alto, é como câncer de cólon; é pior mas se diagnosticada precocemente você provavelmente ficará ok. A cleptocracia, porém, é como câncer no cérebro; é fatal”. Claro, o estado paquistanês, em que a cleptocracia está entranhada em todos os níveis, sobreviveu por décadas. Porém as coisas não foram tão fáceis no Afeganistão, onde os esforços para construir uma nação foram liderados por um exército de ocupação e o governo central tinha escasso apoio popular.

E quanto aos relatórios falsos, segundo os quais o Talibã fora expulso para nunca mais retornar? Um veterano do Conselho de Segurança Nacional refletia sobre as mentiras difundidas por seus colegas: “Eram suas justificativas. Por exemplo, os ataques [do Talibã] estão ficando piores? ‘Isso é porque o Talibã está ficando mais desesperado, então na verdade esse é um indício de que estamos vencendo’… E isso perdurou por duas razões, para que todos os envolvidos tivessem imagem positiva e para que todos os soldados e recursos parecessem surtir um efeito tal em que sua remoção provocaria a ruína do país.

Tudo isso era um segredo de polichinelo nas chancelarias e ministérios da defesa da Europa da Otan. Em outubro de 2014, o secretário da Defesa Michael Fallon admitiu que “Erros militares foram cometidos, erros políticos foram cometidos, e isso remonta a 10 ou 13 anos atrás… Não vamos mandar soldados de volta ao Afeganistão em quaisquer circunstâncias”. Quatro anos depois, a primeira-ministra Theresa May reenviou tropas britânicas para o Afeganistão, dobrando o seu número de caças para “ajudar a enfrentar os problemas de segurança”. Hoje a imprensa britânica replica o Foreing Office [Ministério das Relações Exteriores britânico], criticando Biden por ter feito o movimento errado na hora errada, com o chefe das Forças Armadas britânicas, Sir Nick Carter, sugerindo que uma nova invasão talvez seja necessária. O baixo clero conservador, os saudosistas coloniais, os jornalistas marionetes, os bajuladores de Blair, todos estão se alinhando para pedir por uma presença britânica permanente no Estado despedaçado pela guerra.

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É surpreendente que nem o General Carter nem seus substitutos parecem ter percebido a escala da crise confrontada pela máquina de guerra dos Estados Unidos, tal como revelada nos Afghanistan Papers. Enquanto os estrategistas militares americanos aos poucos acordaram para a realidade, seus pares britânicos ainda se atêm a uma imagem fantasiosa do Afeganistão. Alguns argumentam que a retirada colocará em risco a segurança da Europa, já que a al-Qaeda se reagrupa sob o novo Emirado Islâmico. Mas essas previsões são insinceras. Os Estados Unidos e o Reino Unido por anos armaram e ajudaram a al-Qaeda na Síria, assim como o fizeram na Bósnia e na Líbia. Tal alarmismo só faz nascer o medo no pântano da ignorância, e não vingou entre o público britânico, pelo menos. A história às vezes empurra verdades urgentes num país por meio de uma demonstração explícita dos fatos ou de um escândalo expondo as elites. A presente retirada parece ser um desses momentos. Os bretões, já hostis à Guerra ao Terror, podem endurecer em sua aversão a conquistas militares futuras.

O que reserva o futuro? Repetindo o modelo desenvolvido para o Iraque e a Síria, os Estados Unidos anunciaram que uma unidade especial permanente, com 2.500 soldados assentados numa base do Kwait, prontos para voar até o Afeganistão e bombardear, matar e mutilar se necessário for. Enquanto isso, uma delegação do alto escalão Talibã visitou a China em julho último, asseverando que seu país nunca mais seria usado como base de lançamentos para ataques a outros países. Discussões amistosas foram travadas com o ministro de Relações Exteriores Chinês, supostamente sobre comércio e laços econômicos. A cúpula lembrou encontros similares entre os mujahidins e líderes ocidentais nos anos 80: os primeiros aparecendo com seus trajes whahhabi e seus cortes de barba regulamentares em frente ao pano de fundo espetacular da Casa Branca ou de Downing Street. Agora, com a Nato batendo em retirada, os principais atores são China, Rússia, Iran e Paquistão (que sem dúvida forneceu ajuda estratégica ao Talibã, e para quem esse é um enorme triunfo político-militar). Nenhum deles deseja uma guerra civil, em franco contraste com os Estados Unidos e seus aliados após a retirada soviética. As relações próximas da China com Teerã e Moscou podem funcionar na construção de alguma frágil paz para os cidadãos desse país traumatizado, com a ajuda da continuidade da influência russa no Norte.

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Deu-se muita ênfase à média de idade no Afeganistão: 18 anos, numa população de 40 milhões. Isoladamente, isso não significa nada. Mas há esperança de que os jovens afegãos se empenhem por uma vida melhor após um conflito de 40 anos. Para as mulheres afegãs, a luta não acabou de modo algum, mesmo se restar somente um de seus inimigos. Na Inglaterra e em outros lugares, todos os que queiram lutar devem voltar sua atenção para os refugiados que em breve baterão às portas da Otan. No mínimo, é o que o Ocidente lhes deve: uma pequena reparação por uma guerra desnecessária.


  1. Carl Schmitt (1888-1985) foi um jurista alemão e liderança do Partido Nazista. É conhecido pela sua distinção entre aliado e inimigo: “o inimigo político não precisa ser moralmente mau ou esteticamente feio… Mas ele é, ainda, o outro, o estranho” (Nota do tradutor). ↩︎

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