Será verdade que Bolsonaro cresce no Nordeste?

Com ataques aos trabalhadores, negacionismo na pandemia e conivência com a destruição do meio ambiente, governo perde popularidade até onde tinha apoio

Imagem: O Partisano
por Salatiel Neres

Nos últimos meses a grande imprensa vem alardeando uma mudança positiva na avaliação do atual chefe do executivo nacional, que teria melhorado sua aceitação no Nordeste, sobretudo, nas camadas mais carentes da população. Os motivos, segundo as pesquisas e seus analistas, seriam basicamente dois: o auxílio emergencial de R$ 600,00 e a inauguração de obras iniciadas e realizadas nas gestões petistas.

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Segundo a revista Veja em matéria publicada no seu site do final no mês de julho, a desaprovação de Bolsonaro teria caído de 66,1% para 56,8%, recuo de 9,3 pontos percentuais. Uma série de outros veículos passou a noticiar essa mudança aos quatro ventos citando outras pesquisas como, por exemplo, a pesquisa realizada pela CNT/MDA (Confederação Nacional dos Transportes) e uma outra do Datafolha. Pesquisas eleitorais são usadas para manipular a opinião pública e conseguir vantagens eleitorais. Além disso, note-se que a maioria esmagadora da população não irá até essas fontes consultar e interpretar esses dados. Inclusive muitos dos analistas e dos divulgadores não se ativeram à análise atenta dessas pesquisas. Senão vejamos.

A pesquisa exclusiva feita para a VEJA pelo instituto Paraná Pesquisas.

Na matéria divulgada no seu site com o título: “Pesquisa: Bolsonaro cresce no Nordeste em aprovação e intenções de voto”, a revista cita uma pesquisa exclusiva que indicaria que os nordestinos estão rejeitando menos o governo Bolsonaro, apesar do negacionismo em relação à pandemia com o saldo de mais de 150 mil mortos.

Alguns pontos interessantes: a) a matéria trata em âmbito nacional cenários para as eleições de 2022 e faz um malabarismo redacional para convencer o leitor de que não há adversários à altura de Jair Bolsonaro para a pleito que se avizinha; b) como se não bastasse tal afirmação ainda complementa com vários cenários onde  nem mesmo Lula teria chances de vitória com Bolsonaro, ficando o ex-presidente com 36,4% das intenções de voto, contra 45,6% do atual mandatário.

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Lembremos, pois, que Lula, no último pleito, mesmo preso injustamente, liderava as pesquisas. Diante de todos os fatos desde a Vaza Jato, passando pela saída de Moro do governo, até a prisão de Fabrício Queiroz, eleições com Lula candidato trariam certamente uma realidade bem diferente.

A pesquisa CNT/MDA.

A Confederação Nacional dos Transporte (CNT) é uma das empresas que se reuniu com Bolsonaro no mês de abril para pedir socorro para que os capitalistas dos transportes sobrevivessem à crise causada pela Covid-19. Diga-se de passagem, que nenhuma delas referia-se a manter salários nem empregos dos trabalhadores. A Confederação na sua nota à imprensa do último dia 9 manifesta seu  apoio à indicação do desembargador federal Kassio Marques para ocupar uma vaga no STF. O ministro tem o perfil dos indicados do governo Bolsonaro que mentem sobre o currículo.

Em que se pese a proximidade da referida instituição ao governo Federal a pesquisa de modo algum faz um recorte regional e tão pouco comprova este suposto crescimento da aprovação.

Note-se: a pesquisa que apresenta dados coletados entre 7 a 10 de maio de 2020, demonstra que a rejeição ao governo Bolsonaro subiu de 31% (janeiro/2020) para 43,4% no período analisado, ou seja um aumento de 12,4 pontos percentuais. De onde sites como o VIRTU entre outros tiraram a informação de crescimento de Bolsonaro no Nordeste? Será que se deram ao trabalho de ler o relatório?

Como tem sido de fato as empreitadas de Bolsonaro no Nordeste?

Em visita ao Ceará no dia 26 de junho para inaugurar um trecho da obra de transposição do Rio São Francisco, obra da gestão de Lula, o presidente reuniu dezenas de apoiadores no município de Penaforte.  Para disfarçar o fiasco da visita o site Ponto Poder, do grupo Verdes Mares, traz a seguinte manchete: “Em poucos grupos, apoiadores acenam ao helicóptero em que estava o presidente Jair Bolsonaro”. A foto que ilustra a matéria deixa bem evidente a quantidade de pessoas reunidas…

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Em contrapartida um ato simbólico em protesto foi organizado na Praça do Ferreira, em Fortaleza, com intervenções políticas e culturais.

Além da Praça do Ferreira, as ações também aconteceram na passarela Aguanambi, na passarela do Aeroporto, na avenida Whashington Soares, no Viaduto do Antônio Bezerra, e no Cariri, onde foram colocadas faixas com #ForaBolsonaro.

Em outra vista também ao Ceará, no dia 17 de setembro, de passagem rumo à Paraíba para a inauguração de uma usina fotovoltaica no município de Coremas, o titular da presidência reuniu novamente dezenas de apoiadores no aeroporto de Juazeiro do Norte. Bolsonaro é o político das dezenas de apoiadores, com certeza.

Protestos são registrados em todas as vezes que Bolsonaro vem ao Nordeste. No Recife 63% das pessoas declaram que não apoiam candidatos indicados por Bolsonaro. Em João Pessoa, a praia de Tambaú amanheceu no dia 7 de junho, com várias cruzes espalhadas pela areia. A ação foi um protesto contra o presidente Jair Bolsonaro. O ato simbólico de espalhar cruzes na praia foi para lembrar os mortos pela pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2) e protestar contra as medidas adotadas pelo governo federal para combater a Covid-19.

No mesmo dia 7 de junho, manifestantes realizaram um ato em protesto contra o presidente Jair Bolsonaro, contra o racismo, o fascismo e a favor da democracia em São Luiz. Em todos as capitais e principais cidades do Nordeste, em consonância com o resto do país, houve manifestações contra Bolsonaro no primeiro semestre deste ano a despeito da pandemia de Covid-19.

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A situação concreta parece indicar é que a estratégia de conseguir simpatia dos nordestinos por parte do Presidente deu com os burros n’água. De acordo com pesquisa do site Poder360 a aprovação da administração federal, que vinha em trajetória de alta na região, caiu 8 pontos percentuais no Nordeste. Passou de 48% para 40% em relação ao último levantamento, realizado de 17 a 19 de agosto, e a desaprovação ficou em 50%.

Já sabemos muito bem

Este governo com sua política de ataques neoliberais aos trabalhadores, negacionismo em relação à Covid19 e conivência com a destruição da Amazônia e do Pantanal perde popularidade até nas regiões onde teve apoio nas últimas eleições.

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Sabemos que a dinâmica social tem seus altos e baixos e que a situação política muda rapidamente, e pode sempre ser manipulada para benefício das classes dominantes, mas em relação à situação de Bolsonaro no Nordeste cito as sábias palavras de Patativa do Assaré:

[…] Já sabemos muito bem
De onde nasce e de onde vem
A raiz do grande mal
Vem da situação crítica
Desigualdade política
Econômica e social[…]
Nordestino sim nordestinado não.

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