Salário mínimo aumenta em R$ 43 enquanto preço da cesta básica explode

Para o ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, o brasileiro deve ser convencido de que para comer mais é necessário ganhar menos

Imagem: RHJ photo and ilustration
por Danilo Matoso

Há uma semana, o governo federal encaminhou ao Congresso Nacional a previsão de R$ 1.088 para o salário mínimo de 2021. O valor foi aprovado pelos deputados junto à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) na última quarta (16) e seguiu para o Senado. O aumento de R$ 43 em relação a 2020 corresponderia à projeção do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) de 4,11% acumulado em 2020. Por outro lado, até novembro, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Socioeconômicos (Dieese) registrou um aumento até dez vezes maior no valor da cesta básica em um ano. Em Salvador, por exemplo, a cesta básica saltou de R$ 341,45 em novembro de 2019 para R$ 488,10 no mesmo mês deste ano – uma alta de 42,95%. Diversas capitais tiveram altas similares, como Belo Horizonte (40,35%), Goiânia (39,31%), Rio de Janeiro (38,27%) e São Paulo (35,07%). A pesquisa do Dieese mostra, enfim, o que todo trabalhador já sabe: o preço dos alimentos explodiu no último ano, e o salário não é suficiente para comer – e, a depender do governo Bolsonaro, a situação deve piorar no ano que vem.

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“Que comam brioche”

O INPC é calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tomando por base uma ampla gama de preços – nem sempre de produtos ou serviços absolutamente essenciais à maioria das pessoas. Por exemplo, no mês de novembro, a variação acumulada no ano foi puxada para baixo pela deflação – queda nos preços – de itens como passagens aéreas, roupas, transporte por aplicativo, móveis e brinquedos. As maiores altas foram de produtos como o óleo de soja, que praticamente dobrou de preço, tomate (76,13%), feijão (71,39%) e arroz (68,98%) – justamente aqueles essenciais à sobrevivência da população.

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Uma cesta básica alimenta, teoricamente, uma família de dois adultos e duas crianças durante um mês. É composta por provisões mínimas de carne, leite, feijão, arroz, farinha, legumes, pão, café, frutas, açúcar, óleo e manteiga. Em valores absolutos, somente o aumento do preço da cesta em 2020 supera em muito os R$ 43 propostos por Paulo Guedes. Ele corresponde a R$ 146,65 a mais de despesa mensal no bolso do trabalhador em Salvador, R$ 158,79 em Belo Horizonte, R$ 157,30 em Goiânia, R$ 174,26 no Rio de Janeiro, R$ 163,37. Ou seja: apenas para cobrir o aumento do preço da comida, o salário mínimo deveria ter um aumento quase quatro vezes maior que o proposto pelo governo. E não é que o trabalhador assalariado possa compensar o rombo nas contas domésticas “economizando” com passagens aéreas, transporte por aplicativo ou móveis. Essas despesas simplesmente não estão em seu orçamento.

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Mais uma política genocida

Como se sabe, a alta nos preços da alimentação é filha da desvalorização do Real, o que tornou os preços dos produtos do agronegócio – como a soja – atraentes para compradores estrangeiros. Os produtores simplesmente priorizam a exportação e deixam o povo brasileiro à míngua. A política de Bolsonaro para conter o fenômeno se limitou simplesmente a um pedido por mais “patriotismo” dos donos de supermercados (?), enquanto o dólar e o euro explodem. Paulo Guedes, por sua vez, teve a pachorra de afirmar que a alta dos preços se deve ao auxílio emergencial de R$ 600, concedido durante a pandemia – um discurso comprado com alegria pelos “analistas econômicos” de plantão nos jornalões e difundido amplamente pela imprensa até que o próprio povo acredite que tem que ganhar menos para comer mais.

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Com base no preço da cesta básica, o Dieese calcula mensalmente o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas de fato se sustentar. Seu valor em novembro deveria ter sido de R$ 5.289,53. O “salário do Dieese” é conhecido há décadas e demonstra cabalmente a necessidade de uma política de aumento real além da inflação para qualquer governo minimamente comprometido com o bem-estar da população. Desde o golpe de 2016, porém, com a desfaçatez habitual, as gestões de Temer e Bolsonaro vêm mantendo um aumento equivalente ao INPC – sem qualquer valorização real. Pior ainda: com a explosão no preço dos alimentos, o povo já voltou a passar fome. São quase 15 milhões de pessoas que simplesmente não comem o suficiente para viver. O Brasil voltou ao chamado “mapa da fome” da Organização das Nações Unidas, em que mais de 5% da população está em pobreza extrema – de onde havia saído em 2014. Como se vê, há um projeto de genocídio em curso por aqui, e ele não passa apenas pela pandemia.

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