Rosa Parks, segregação nos EUA e racismo no Brasil

Gesto de recusar ceder o assento em um ônibus no Alabama não teria sido possível no Brasil, onde o racismo não apareceu na forma de políticas e leis segregacionistas

Imagem: Suye Xu
por Salatiel Neres

Em 1° de dezembro de 1955, após uma jornada de trabalho, Rosa Louise McCauley pegou um ônibus para sua casa, acomodou-se na primeira fileira dos assentos reservados para “pessoas de cor,” e seguiu seu trajeto de todos os dias. A jovem senhora era casada com Raymond Parks, um ativista da Associação Nacional para o Desenvolvimento de Pessoas de Cor (NAACP). O casal morava na cidade de Montgomery, capital do estado do Alabama, no Sul dos Estados Unidos.

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O Código da cidade de Montgomery exigia que todo o transporte público fosse segregado, e que seus motoristas tivessem os poderes de policial, enquanto comandavam qualquer ônibus, para fins de cumprimento das disposições do código. Durante o percurso, os motoristas forneciam acomodações separadas, para passageiros brancos e de cor, atribuindo assentos.

O veículo seguiu o seu trajeto habitual coletando trabalhadores e trabalhadoras, que, assim como Rosa, haviam dedicado longas horas do seu dia gerando riqueza para os patrões, e recebendo por isso a módica quantia necessária para sua sobrevivência.

A recusa

À medida que o coletivo continuava em sua rota, começou a se encher de passageiros brancos. O condutor percebeu que vários passageiros brancos estavam parados no corredor. Ele parou então o veículo, e moveu a placa que separava as duas seções, pedindo a quatro passageiros negros que desistissem de seus assentos.
Três dos passageiros obedeceram, porém Rosa Parks recusou e permaneceu sentada. Ao ser perguntada por que não havia se levantado, Rosa respondeu corajosamente: “Eu não acho que deveria ter que me levantar.” A polícia foi então acionada e a prendeu sob a acusação de ter violado o Capítulo 6, Seção 11, do Código Municipal de Montgomery.

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Ela foi levada à delegacia, de onde, mais tarde naquela noite, foi libertada sob fiança. Esse ato político foi um entre tantos outros protagonizados pela população “de cor” dos EUA na luta por igualdade de direitos e pelo fim da segregação racial. Nove meses antes, em março de 1955, uma menina de 15 anos chamada Claudette Colvin fez exatamente o mesmo que Rosa Parks na mesma cidade — Montgomery, Alabama.

Impulsionados pelo caso de Parks, ativistas afro-americanos organizaram um boicote aos ônibus de Montgomery, o qual foi um grande sucesso, durando 381 dias e terminando com uma decisão da Suprema Corte declarando inconstitucional a segregação nos sistemas de transporte público.

Rosa Parks logo depois de ser presa, em 1955. Imagem: Getty Images

Uma gota

As tensões raciais eram muito fortes e as leis Jim Crow, promulgadas no final do século XIX e início do século XX, pelas legislaturas estaduais dos Democratas, tornavam a vida dos afro-americanos e de outros grupos “de cor” extremamente difícil para além da exploração capitalista que se aprofundava mundialmente. A utilização de leis segregacionistas só foi possível devido ao conceito da Uma Gota de Sangue (One Drop Rule), a qual afirmava que qualquer pessoa com mesmo um único ancestral de ascendência africana subsaariana é considerada preto.

Este conceito foi muito importante para que senhores de escravos que tivessem filhos mestiços, ficassem livres de responsabilidades materiais com esses descendentes, que eram automaticamente integrados aos grupos socioeconômicos ou étnicos de menor status, independentemente da proporção de ancestralidade em diferentes grupos. Rosa Louise McCauley por exemplo, era uma dessas pessoas de origem miscigenada. Seu avô paterno era filho de uma nativa americana da etnia Creek e de um soldado irlandês.

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Como seria no Brasil?

Se Rosa Parks tivesse nascido no Sul do Brasil e estivesse, digamos, em Porto Alegre em 1955, num busão indo para casa depois de um dia de trabalho, seria apenas mais uma trabalhadora indo para casa. Não estamos dizendo que a jovem Rosa, que no Brasil seria lida como “jussara” — mistura de três “raças” — não sofreria racismo, mas nenhuma pessoa de pele branca dentro de um ônibus no Brasil em 1955, se acharia no “direito” de exigir que ela, ou qualquer outro passageiro qualquer que tivesse sua cor de pele, levantasse e fosse em pé pra casa por ser “inferior”.

Devido ao processo de miscigenação e mestiçagem, nossa formação social é totalmente diferente dos nossos vizinhos do Norte, e portanto as formas como racismo aparece são diferentes. É muito importante que se note isso! Alguns dirão, mas que diferença isso faz? Lá nos EUA a moça era preta e pronto. Eis a chave da questão! Existe uma expressão em inglês, “looks up to”, que é traduzida como admirar, respeitar, mas que ao pé da letra significa “olhar para cima de uma posição inferior.” Assim como um cãozinho olha para o seu dono. Talvez provenha daí o famoso complexo de vira-lata. Era dessa forma que Bolsonaro olhava para Donald Trump.

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Teorias importadas

Infelizmente nós, nossos intelectuais — com raríssimas exceções — a grande maioria dos partidos de esquerda, estamos nessa posição subalterna em relação aos Yankees, importando suas teorias racialistas e racistas, erodindo rapidamente a identidade nacional, substituindo-a pelo identitarismo e feminismo liberais gringos, ao estilo do partido Democrata.

Acompanhamos a eleição de Joe Biden como se ele pudesse trazer a solução dos nossos problemas nacionais — veremos em breve que sua gestão, ao contrário, complicará mais a vida na América Latina. Se tivéssemos acreditado no mito do Biden democrático, teríamos ficado chocados quando Kamala Haris, a primeira mulher não branca a ocupar o posto de vice-presidente, tornou-se também a pioneira no bombardeamento à Síria. Quanta decepção!

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Mas onde está o erro dessa emulação dos norte-americanos? Quais os prejuízos que as políticas racialistas, o feminismo liberal, as pautas identitárias e os lugares de fala tem causado à esquerda e à luta popular?
No próximo texto abordarei as políticas afirmativas na gringa e no Brasil. Falaremos um pouco sobre Kamala Haris, militância de causas, luta de classes e Revolução Brasileira.

Um comentário

  1. Ótimo texto, necessário, nesses tempos em q o Estado (desde 2010) e a mídia brasileira estão fazendo negacionismo com os 46% de mestiços de nossa população (no mínimo, q são os declarados pardos)!

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