Quebrar as vidraças, romper o cerco ideológico

Se os manifestantes são pacíficos, são tratados como vagabundos, se são violentos, são considerados “selvagens” pela grande mídia

Imagem: Kokulina
por Vitor Ferreira

A colonização e a dominação subjetiva de classe no pensamento dos brasileiros e brasileiras é algo extremamente sério, atual e que tenta apagar qualquer possibilidade de emancipação do nosso povo através de uma criminalização incessante sobre manifestações e reações dos trabalhadores e trabalhadoras. É preciso debater isso de forma mais séria e classificar esse debate como parte fundamental do chamado trabalho de base, não culpabilizando de forma rasa e sectária os homens e mulheres que infelizmente apenas reproduzem aquilo que lhes é imposto diariamente de forma brutal.

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É necessário sempre lembrarmos que luta de classes perpassa toda a esfera da vida social, não é uma mera imagem de um trabalhador versus um burguês, é uma disputa, uma luta concreta e que o jargão das esquerdas sobre conquistar corações e mentes precisa ser mais profundo do que uma mera frase, conquistar mentes não é algo automático feito por osmose, é forma dada de luta de classes pela práxis.

Se as esquerdas sabem como atuam as mídias, judiciário entre outros aparatos da burguesia de forma completamente parcial, não deveria ser surpresa reações de parte dos trabalhadores em favor ao discurso que é dominante, “as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”, cabe a nós analisarmos a difusão dessas ideias e ir ao debate!

O teor da manipulação

Se as manifestações são pacíficas, são tratadas pela mídia hegemônica, por parlamentares de direita e contra-influenciadores como fruto de atos de vagabundos, de desocupados, ou vulgarizam ainda mais como se fosse exagero do nosso povo, como se as mazelas promovidas “não fosse bem assim” da forma que se está encarando, e a nossa dor é superficial. Se as manifestações são mais impositivas com tendências de violência revolucionária fruto de expressão da dor do nosso povo, elas são rapidamente classificadas como ato de vandalismo e selvageria.

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Bom, já sabemos que essas são as formas de desmobilizar e difamar as expressões das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, impostas pela grande mídia nacional e internacional, o cinema e outros aparatos a mando ou em controle direto das burguesias nacionais e imperialistas. Faz-se necessário saber, então, como a classe dominante e seus servos conseguem transmitir essa ideia de que isso é coisa de selvagem.

O mito do europeu civilizado

Essa ideia só consegue ser validada através de uma comparação extremamente distorcida e sobre um apagamento da história, onde no cotidiano brasileiro é transmitido das formas mais diretas e indiretas possíveis a imagem do que é um povo civilizado baseado majoritariamente na Europa, de como são cultos, diplomáticos e etc, que são todos países “de primeiro mundo” pois possuem um povo educado e respeitador da ordem, já a imagem de selvagem vem dos povos latino-americanos.

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Essa dominação subjetiva concretizada em objetiva avança com total facilidade e sem muita resistência em nossas cabeças com o fim da guerra fria, onde os contra-pontos como Cuba, China, Vietnã e outros países sobreviventes do bloco socialista não nos alcançam pela distância geográfica, pela possibilidade real de um bombardeio atômico das potências imperialistas encabeçadas pelos EUA e pelos criminosos bloqueios econômicos que matam milhões impedindo o desenvolvimento de relações desses países com o mundo, o que por si só já deveria/deve ser trabalhado pelas esquerdas, como essa impossibilidade de uma relação internacional real com tais países deve ser considerado um ato extremamente selvagem por parte da Europa e dos Estados Unidos como países imperialistas que são.

Para além do exemplo citado acima, a história escrita de formação da Europa enquanto grande potência deve também ser sempre colocada no centro da discussão pelas esquerdas se queremos combater a dominação e colonização de pensamento dos brasileiros e brasileiras, pois não há povo com história escrita de mais violência do que o povo europeu de modo geral, sem distinção de Europa nórdica e ocidental.

Ficha corrida

As decapitações, guerras de reinos, revoluções violentas, invasão colonial, assassinato dos povos originários de todo o continente americano, roubo dos nossos tesouros naturais que ainda permanece de forma mais “sutil”, a invasão da África, o saque e a escravidão dos negros e negras, o nazismo e o fascismo que são frutos europeus, e as relações econômicas com os países periféricos aprofundando a dependência econômica desses países como no caso do Brasil, entre outros crimes contra a humanidade, são apagados por toda a mídia a mando das burguesias e as esquerdas deixam de fazer essa disputa concreta pela história, pela consciência do nosso povo e acaba caindo no erro de culpabilização individual dos trabalhadores e trabalhadoras.

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Que fazer?

Sem um alinhamento de luta prática com luta teórica (a práxis), o trabalho de base para ações efetivas na sociedade aliado à conscientização efetiva do porquê devemos fazer e apoiar rebeliões e transformações, não iremos avançar mais do que ter alguns dias de protestos, e a criminalização dos manifestantes em defesa dos vidros e prateleiras será hegemônica. Ou entendemos o que é de fato luta de classes, o que é de fato trabalho de base, o que é de fato o poder dominante e como tudo isso se dá em todos os campos de nossas vidas e despertamos para a práxis revolucionária, ou não conquistaremos corações e muito menos o mais importante, mentes.

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