Que escondem as cartas geopolíticas dos Estados Unidos?

Devemos ser objetivos quanto às intenções de uma economia inflacionária como a dos EUA, que explora e divide o conhecimento e a inovação em função de si mesma

Imagem: One Vector
por Rafael Ignacio, com tradução de Danilo Matoso

Sempre nos perguntaram onde começam os conflitos e onde acabam, quem são seus atores principais, que há por trás de cada cenário ou quais são suas condicionantes. Parece mentira que nesses momentos tão difíceis, em que a pandemia de Covid-19 faz estragos na economia e na sociedade, existam aqueles que não se ocupem da colaboração internacional e que a única coisa que lhes importe seja um interesse nacional hegemônico. Esse é o caso dos Estados Unidos; em especial, do presidente nomeado para o Nobel da Paz.

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Não é novidade o intervencionismo da Casa Branca em assuntos da política externa de outros países, tampouco são novidade as denúncias feitas contra seu atual governo pelas políticas contra imigração e as condições dos refugiados. Em especial, as crianças em campos de concentração de imigrantes que foram criados, o apoio a governos golpistas como o da Bolívia, o movimento de interesses sobre o Fundo Monetário Internacional (FMI) nos países da América do Sul, o crescente vespeiro geopolítico no Oriente Médio – que cria cada vez mais tensões com o Irã e outros países. Sem dúvida, dentre outras coisas, na jogada política atual os olhares estão voltados para a China, a Rússia e o Oriente Médio.

Nesse tabuleiro, o centro das tensões é a derrubada da China de sua posição econômica no plano internacional. Para isso, desde 2019, Washington leva a cabo toda uma escalada, sanções econômicas e taxação de produtos e empresas chinesas – tudo com o objetivo de resgatar as empresas norte-americanas que se mudaram para este país asiático. Mas que cartas os Estados Unidos jogam para tanto?

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Para analisar o tabuleiro, temos dois cenários no âmbito da China; em primeiro lugar, temos um mercado muito vinculado a Washington e cada vez mais tenso com as barreiras econômicas e sanções; um segundo cenário acompanha o comércio internacional com a Europa e a Ásia – os principais mercados – unido a cada vez mais tensas relações diplomáticas com países como a Índia. Isso é o que a atual administração da Casa Branca busca flanquear, com duplo efeito: o mercado internacional e as relações da China com outros países.

Washington tenta também pressionar as empresas e engenheiros norte-americanos e de outras regiões que levam adiante projetos de desenvolvimento de energias renováveis – parte do novo plano econômico Chinês para impulsionar o desenvolvimento de sua indústria a níveis superiores, assim como a entrada numa possível revolução energética. Referimo-nos ao projeto de fusão nuclear que a China conduz com empresas e engenheiros de outros países, e que levaria a uma revolução energética com energia renovável por meio da criação de uma estrela artificial. Isso claramente afeta os interesses das petroleiras dos Estados Unidos e sua economia.

Temos também outra jogada em nosso tabuleiro. A Belarus, após as eleições, viu-se numa escalada da oposição calcada na tese da fraude eleitoral. Essa escalada é apoiada por países da Europa Ocidental, muitos dos quais não reconhecem de forma indireta nem o modelo político nem as eleições. Lukashenko apresentou provas, como conversações interceptadas entre Berlim e Varsóvia, nas quais fica demonstrada a intenção de países como a Alemanha ou a Polônia de desestabilizar o governo de Minsk, assim como inventar o envenenamento de um opositor russo que está sendo tratado na Alemanha.

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Mas qual é o papel da Casa Branca nesse cenário? A Rússia é o principal exportador de gás para a Comunidade Europeia – uma forte competição para Washington, que deseja fornecer seu próprio gás a Bruxelas, e aplaude as tensões entre Berlim e Moscou. Também devemos ressaltar que Minsk e Moscou são dois aliados estratégicos, e que uma mudança política na Belarus afetaria à Rússia e sua influência tanto na China, como parceiro comercial, quanto na América Latina e no Oriente Médio.

No Oriente Médio temos outro importante lance dessa jogada. Numa região que há séculos não vê paz, se aproxima outra escalada com a assinatura do tratado entre Israel e Arábia Saudita, com a condição de que Israel deteria a agressão ao território palestino. Irã e Turquia se opuseram ao acordo, acusando Riad de abandonar a causa palestina, e denunciando que, num contexto de eleições estadunidenses e de um escândalo de corrupção envolvendo Bemjamin Netanyahu, o ato seria positivo para ambos os mandatários em seus países pela tentativa de buscar a “paz” na região – mascarando, na verdade, a futura expansão israelense. A Síria também se encontra sob a lupa geopolítica: um país de que as tropas norte-americanas se recusam a retirar-se para assegurar os interesses de petroleiras após as ofensivas antiterroristas impulsionadas por Damasco e Moscou. Todo isso para ganhar controle hegemônico sobre o ouro negro.

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Em todos esses cenários, vemos como se movem as peças e que, após cada jogada, a Casa Branca marca sua presença. Devemos ser objetivos quanto às intenções e aos interesses econômicos de uma economia inflacionária como a de Washington, que explora e divide o conhecimento e a inovação em função de si mesma. Temos aqui o tabuleiro, as intenções e os objetivos dos contrários. Só falta a consciência de classes, a consciência dos movimentos pela igualdade social e a equidade. O futuro desse tabuleiro geopolítico depende de nossa capacidade de reagir ante as pretensões hegemônicas do capital.

Uma política econômica e social acertada deve ter o homem como centro e preocupação. Se não se delineia uma política que corresponda a esse conteúdo, não haverá desenvolvimento nem sequer paz.

Fidel Castro, II Congresso da Associação de Economistas do Terceiro Mundo, Havana, 26 de abril de 1981.

Imagem: reprodução

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