Quarenteners: Onde vivem? O que fazem? Eles existem?

Se um dia o isolamento social fez parte da rotina do Brasil durante a pandemia, nunca nem deu pra notar, e graças ao obscurantismo político, o número de infectados só cresce

Imagem: Vitória Filippi
Imagem: Vitória Filippi
por Beatriz Luna Buoso

Quem não acompanha o noticiário, pode pensar que a pandemia no Brasil acabou, ou que nunca existiu. O presidente do Brasil e os negacionistas tinham razão, era só uma “gripezinha”. Com as ruas cheias, comércios abrindo as portas e áreas de lazer funcionando normalmente, fica fácil imaginar Bolsonaro e seu quase amigo Trump dizendo em tom de deboche: Eu avisei!

A verdade é que o #FiqueEmCasa não pegou no Brasil. Num país com um governo inimigo da ciência, sem políticas públicas eficazes para manter as pessoas em isolamento, quem saiu ganhando foi o vírus. Os dados oficiais mostram que mais de 50 mil pessoas morreram e mais de 1 milhão estão infectadas no Brasil, como sempre o povo vem perdendo feio, praticamente de W.O.

O fim antes de começar

No começo do mês de junho, o país pareceu entrar numa roleta russa. Em pleno pico do coronavírus no Brasil, estados “flexibilizaram” medidas de isolamento impostas no mês de março, com objetivo de “salvar a economia”. O cenário é de caos: As escolas fechadas impedem os trabalhadores de ter com quem deixar seus filhos, o transporte público segue lotado e com pouca ou nenhuma proteção. Hospitais estão sem leitos e sem vagas na UTI, os cemitérios estão entrando em colapso, abrindo centenas de novas covas todos os dias. Para completar, ainda tem a saga do auxílio emergencial, que está chegando ao fim (para os que conseguiram receber), obrigando os 40% de trabalhadores informais que existem hoje no Brasil a voltarem às ruas.

Com o assassinato de George Floyd, cidadão negro sufocado por um policial branco em Minneapolis, nos Estados Unidos, uma onda de protestos denunciando o racismo e a violência policial fez milhares de pessoas do mundo todo irem às ruas, inclusive os brasileiros.  Por aqui, as pessoas também se manifestaram contra a política genocida do governo Bolsonaro para a pandemia. Ou seja, independente das condições de segurança nas ruas, o povo precisou sair para trabalhar e lutar pelo direito de se isolar.

Vitória do Vírus

De acordo com a pesquisa feita na última segunda-feira (22) pelo monitor do isolamento do jornal O Estado de S. Paulo, com base em dados da Inloco, empresa de tecnologia que fornece inteligência a partir de dados de localização, a média de isolamento no país está em 38,4%. Para o momento grave que estamos vivendo hoje, o ideal seria que este número estivesse acima de 70%. 

Contudo, à medida que alguns países estão com os números de transmissão sob controle e começam a ensaiar a retomada de suas atividades, o brasileiro parece estar colocando o carro na frente dos bois. Praias e bares estão lotados, as filas para entrar em shopping começam a crescer e as caminhadas nos parques e festas em família voltam a ser rotina. Até invasão em hospitais públicos, por sugestão do presidente, têm rolado. 

Através das redes sociais é possível ter uma ideia de que até as pessoas com mais condições financeiras não estão fazendo o isolamento da forma correta. Aos domingos pipocam fotos de amigos reunidos assistindo lives de sertanejo e festa junina com “distanciamento social e máscara”. Web namoro não existe mais. Os “crushs”, citados na matéria sobre Sexo e Confinamento, já se conheceram e seguem felizes curtindo a aglomeração.

Estocar papel higiênico, álcool em gel, confeccionar máscaras bonitinhas, lavar sacolas de mercado, tudo isso ficou pra trás. No Brasil essa moda nem pegou. Graças à irresponsabilidade e negacionismo do governo ocupado por mlitares, a maior parte da população nunca conseguiu seguir os padrões de comportamento e prevenção sugeridos pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Assim, a pandemia avança desimpedida, sem previsão de término.

Aos “quarenteners” que preferem viver, recomendo que sigam isolados, preferencialmente se banhando em álcool em gel, lavando as sacolas, se contentando com encontros pelo Zoom e aguardando a curva cair de verdade. Aos que precisam sair para trabalhar, graças à falta de políticas públicas para combater a pandemia no nosso país, o mais sincero respeito e apoio na luta pelo fim da extrema-direita fascista do Brasil.

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