Programa E-nrolação

Governo federal firma contrato com a Amazon para instalar o “Alexa”, um programa de voz capaz de automatizar pretextos para não pagar o auxílio emergencial durante a pandemia de Covid-19

Programa E-nrolação
Imagem: Perdidos no Espaço
por Danilo Matoso

Exultante, o Secretário Especial de Desestatização, Salim Mattar, anunciou ontem que “O Ministério da Economia e a Amazon fecharam parceria que cria um canal de acesso às informações do governo federal. Agora é possível perguntar ao ‘Alexa’ como tirar carteiras digitais ou acesso ao auxílio emergencial”. Dizem que o aparelho mais barato para usar o programa custa a partir de R$ 250. É o Echo Dot, “um smart speaker que toca músicas e interage com casas inteligentes”. Outros gadgets mais sofisticados como o Echo Show chegam aos R$ 900.

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Salim Mattar é uma espécie de Véio da Havan residente no Palácio do Planalto. Com empolgação de um coach, o Secretário é especialista em dar declarações exaltando as qualidades do mercado e execrando o Estado com todo tipo de chavão típico de conversa de botequim de tiozão do zap. Esse braço direito de Paulo Guedes é pago com dinheiro público para privatizar tudo – ou seja: vender os ativos estatais a preço de banana. Sua meta é destruir e vender os Correios, a Caixa, o Banco do Brasil, a Petrobras e tudo o mais que dê capilaridade e capacidade de investimento ao Estado brasileiro. Diz que, se pudesse, privatizaria até o Palácio do Planalto. Como costuma acontecer com todo o grande empresariado nacional, os negócios de Mattar prosperaram justamente graças ao Estado. Dono da Localiza Rent a Car, esse ousado empreendedor compra veículos novos desonerados de impostos e os revende a preço de mercado há mais de dez anos. Parece ser um bom negócio.

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Salim Mattar, Jeff Bezos e Véio da Havan

É de se imaginar que a Amazon de Jeff Bezos – o Véio da Havan americano – tenha criado o aparelho até mesmo num gesto de humanidade, para fazer companhia aos seus funcionários que passam dias isolados em galpões, forçados a carregar garrafas plásticas para mijar sem perder tempo. Assim eles podem reclamar de algum modo e receber de volta palavras de conforto de seu trilionário CEO.

Por isso, a iniciativa de Mattar e Guedes talvez não seja tão ruim quanto parece. Agora, com a ajuda do Alexa e de algum aparelho Echo, o povo vai poder se beneficiar do conforto e das facilidades que a tecnologia de ponta oferece. Em lugar de ser atendido por um funcionário da Caixa, o beneficiário poderá ser enrolado ou humilhado pelo Alexa. Dá pra imaginar a situação.

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De chinelas, máscara suja, bermudas e uma camiseta rasgada das últimas eleições, o sujeito volta da Boca do Rio com uma renca de lambaris no lombo. Desde que deixara de ganhar peixes no mercado, o moço de sunga e óculos escuros a bordo de um iate ensinava ele e alguns amigos a pescar todo dia na orla. Ele com uma rede, eles com caniços de taquara. No caminho, deixa a pesca com o filho, e decide já ficar na fila da Caixa para ver se consegue ver o que houve com o seu cadastro. Quase dois meses e nada do auxílio emergencial. Passa a noite na rua esperando. No dia seguinte, um funcionário sai e diz que, devido à reestruturação da Caixa, todos agora serão atendidos pelo Alexa – um alto-falante parecido com um painel de interfone na parede. No fim do dia, faminto e com frio, o sujeito finalmente pode perguntar: “seu Alexa, como vou viver sem trabalhar? Tem como sair o dinheiro que me prometeram?”. A voz de Jeff Bezos metalizada responde em tom seco: “acabou a mamata, vagabundo. Vai ter que trabalhar”.

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