Parceria com neonazistas na Ucrânia: uma história inconveniente

Por que alguém acreditaria que os Estados Unidos e seus aliados se uniriam a ultranacionalistas na Ucrânia para combater os russos? Porque já aconteceu antes

Imagem: Le Media en 442
por Ted Snider, no Antiwar.com e em The Grayzone, com tradução de João Kamenetz

Volodymyr Zelensky derrotou Petro Poroshenko, na eleição de 2019, com uma plataforma política que incluía fazer as pazes com a Rússia e assinar os Acordos de Minsk. Esses acordos teriam garantido um grau de autonomia às regiões de Donetsk e Lugansk, no Donbas, que votaram pela independência da Ucrânia depois que o golpe de 2014, apoiado pelos Estados Unidos, colocou no poder um governo escolhido a dedo pelos EUA, pró-ocidente e anti-Rússia. A imensa pressão dos ultranacionalistas de extrema-direita fez que Zelensky, que antes apoiava os Acordos, começasse a rejeitá-los. Sob influência dos partidos neonazistas, que, mesmo com pequeno apoio, gozam de imenso poder, Zelensky abandonou sua promessa de campanha, recusou-se a conversar com os líderes do Donbas e a implementar os Acordos de Minsk.

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Essas organizações ultranacionalistas, incluindo o Partido Svoboda e o Setor Direito, durante o golpe de 2014, de novo tiveram papel negativo maior do que o apoio popular que possuem. Elas comandaram e reconfiguraram o protesto pacífico. Também rejeitaram a negociação de paz, que teria levado a um cessar-fogo e a eleições antecipadas. Vários indícios hoje sugerem que os atiradores de elite que, em fevereiro de 2020, transformaram os protestos em guerra civil não eram forças do governo, mas membros da insurgência ultranacionalista. Além disso, foram eles que ocuparam o edifício do governo e forçaram o presidente eleito a fugir da Ucrânia.

Depois do golpe, essas forças neonazistas lideraram a luta contra os separatistas no Donbas. Estavam em condições de lutar porque a mais famosa delas, o Batalhão Azov, tinha sido oficialmente incorporada à Guarda Nacional ucraniana. Os ultranacionalistas não tinham se tornado apenas “uma parte legítima do [protesto] Maidan”, como diz Richard Sakwa em Frontline Ukraine, e “o novo normal na configuração do Estado”, mas parte das forças militares ucranianas, oficialmente .

Eles se tornariam parte também do governo. Sakwa afirma que diversas posições-chaves no governo golpista ucraniano, incluindo a cúpula da segurança nacional, da defesa e do judiciário, foram tomadas pelo Setor Direito e pelo Svoboda, partidos assumidamente neonazistas. O vice-primeiro-ministro e o ministro da justiça eram ambos membros do Svoboda. Andriy Parubiy, um dos fundadores do Svoboda, com “longo histórico de ativismo ultranacionalista”, segundo Sakwa, tornou-se secretário do Conselho de Defesa e Segurança Nacional. Sakwa se refere à indicação de Parubiy como “surpreendente”.

Stephen Cohen, antigo professor emérito em estudos e política russos de Princeton, em um artigo sobre a Ucrânia chamado “A associação dos EUA com neonazistas”, diz que o governo golpista ucraniano tem reabilitado e homenageado colaboradores da Alemanha nazista. Entre os colaboradores do nazismo, celebrados pelo governo da Ucrânia, está Stepan Bandera, que se aliou aos nazistas e cometeu atrocidades contra judeus, poloneses e russos. Sakwa relata que um “havia um retrato gigante de Bandera […] no palco durante os protestos da Praça Maidan”.

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Stepan Bandera e o menos conhecido Mikola Lebed foram membros proeminentes da Organização dos Ucranianos Nacionalistas (OUN) Em 1940, a organização se dividiu, e Bandera se tornou o líder da facção B, a mais radical. A OUN de Bandera se aliou aos nazistas alemães, e, embora a aliança possa ter se formado primeiramente sobre a oportunidade de estabelecer um estado ucraniano, a OUN de Bandera provou ser formada por colaboradores fanáticos.

De acordo com Sakwa, “Bandera adotava uma forma virulenta de nacionalismo integral, uma definição excludente e etnicamente centrada da nação ucraniana, acompanhada pela difamação criminosa daqueles que supostamente minavam sua ideologia, notadamente poloneses, judeus e russos […].” As forças de Bandera acabariam por participar do assassinato em massa desses grupos.

Em Covert Regime Change, Lindsey O’Rourke cita a declaração da OUN-B da organização, de que “os judeus devem ser tratados de forma dura […]. Precisamos exterminá-los […]. Quanto aos judeus, adotaremos quaisquer métodos que levem à sua destruição.” A autora afirma que “nos dias que se seguiram à invasão alemã, tropas da OUN-B realizaram massacres por toda a Galícia do Leste, assassinando um número estimado de 12.000 civis judeus.

A OUN-B e outros grupos se juntariam ao Exército Insurgente Ucraniano (UPA), para lutar pela independência do país contra russos e nazistas. Para realizar seu sonho de uma nação etnicamente excludente, O’Rourke relata que os nacionalistas “engajaram-se no terrorismo de larga escala, nos assassinatos em massa e na limpeza étnica contra as populações polonesas, alemãs, soviéticas e judias da região. O lema era “viva a Ucrânia grande e independente, sem judeus, poloneses nem alemães: poloneses atrás do rio San, alemães em Berlim, judeus na forca”. O líder da OUN-A, Mikola Lebed, declarou, segundo O’Rourke, que eles deveriam “limpar a população polonesa de todo o território revolucionário ”. Eles tentaram. “No primeiro semestre de 1943, os partidários da UPA […] assassinaram cerca de 40.000 poloneses na Volínia”.

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Mas por que alguém pensaria que hoje, em meio à afirmação talvez exagerada de Putin sobre desnazificar o governo e as forças ucranianas, os EUA e seus aliados fariam parceria com elementos neonazistas na Ucrânia para combater os russos ou provocar uma mudança de regime na Rússia? Porque eles já fizeram isso antes.

Entre a colaboração nazista de Bandera e Lebed e o sequestro ultranacionalista do golpe de 2014, há uma história menos conhecida da cooperação dos EUA e do Reino Unido com Bandera e a OUN de Lebed para combater a União Soviética, durante a Guerra Fria.

Em setembro de 1947, a inteligência dos EUA encontrou um grupo de guerrilheiros ucranianos na Alemanha. Em Safe for Democracy, o especialista da CIA John Prados diz que o Conselho Supremo de Libertação da Ucrânia ordenou que os partidários fossem para o oeste “para chamar a atenção dos serviços de inteligência aliados”. Funcionou. Começou aí a história ultra-secreta do casamento dos EUA e do Reino Unido com os ucranianos que colaboraram com os nazistas, em sua luta contra a União Soviética, na Guerra Fria.

Mesmo antes, em 1946, relata Prados, os soviéticos haviam exigido a extradição de Stepan Bandera. Mas em uma operação de codinome “Anyface”, a inteligência dos EUA o protegeu, embora estivesse de posse de informações que potencialmente o implicavam em crimes de guerra.

Os EUA e o Reino Unido escolheriam, cada um, um parceiro. Após a ajuda inicial dos EUA, o Reino Unido continuaria a trabalhar com Bandera e a OUN-B; os EUA trabalhariam com Mikola Lebed, chefe da divisão de segurança da OUN-B.

Em Legacy of Ashes: the History of the CIA, Tim Weiner afirma que “Nightingale era o codinome de uma força de resistência ucraniana que [o secretário de defesa] Forestal havia autorizado a realizar uma guerra secreta contra Stalin. Seus líderes”, diz ele, “incluíam colaboradores nazistas que assassinaram milhares de pessoas […].” Um relatório de 1947 da US Counter Intelligence Corp. (CIC) já observava a “estreita conexão com o movimento de Bandera”.

Segundo O’Rourke, em fevereiro de 1947, Lebed “abordou a CIC sobre a possibilidade de colaboração”. A CIC concordou e, de acordo com Weiner, a CIA contrabandeou Lebed para os EUA, dizendo às autoridades de imigração dos EUA que Lebed estava “prestando uma assistência valiosa à agência na Europa”. Assim como com Bandera, a CIA não ignorava o passado de Lebed. Weiner diz: “Os próprios arquivos da agência descreviam a facção ucraniana liderada por Lebed como uma ‘organização terrorista’”. Eles sabiam que Lebed havia se aliado aos nazistas. “O Departamento de Justiça”, relata Weiner, “determinou que ele era um criminoso de guerra que havia matado ucranianos, poloneses e judeus”. Até tentaram deportar Lebed, mas Allen Dulles interveio, dizendo ao comissário federal de imigração que Lebed era “de valor inestimável para a agência”.

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Citado por O’Rourke, um relatório ultra-secreto da CIA, de abril de 1948, ao Conselho de Segurança Nacional esboçava a proposta de cooperação, na Guerra Fria, com os colaboradores nazistas ucranianos e sugeria “seu possível valor ao governo dos EUA para fins de propaganda, sabotagem e atividade política anticomunista.”

Essa operação receberia o codinome “Operação AERODINÂMICA” e seria lançada pela CIA em 1948. O’Rourke cita Frank Wisner, da CIA: “Em vista da extensão e atividade do movimento de resistência na Ucrânia, consideramos que este é um projeto de alta prioridade.” Ela cita um documento da CIA, adquirido sob a Lei de Liberdade de Informação, que revela planos operacionais para “a exploração e expansão do movimento de resistência ucraniano” para “guerra política e psicológica [e] resistência e guerrilha”.

A Operação Aerodinâmica foi um fracasso, ou “malfadada e trágica”, como a CIA a chamou.

A história da colaboração nazista da OUN durante a Segunda Guerra Mundial, do papel dos ultranacionalistas no golpe de 2014 e subsequentemente no exército e no governo ucraniano já foi contada, ainda que raramente, pela grande mídia. Mas cronologicamente, entre esses dois eventos, está a história ainda menos contada sobre a parceria dos EUA e seus aliados com ultranacionalistas ucranianos, colaboradores dos nazistas, para lutar contra a União Soviética na Guerra Fria.

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Por que alguém acreditaria que os EUA e seus aliados se uniriam a ultranacionalistas na Ucrânia para combater os russos? Porque já aconteceu antes.

 

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