Os Estados Unidos, os militares e a possibilidade de um golpe no Brasil

As Forças Armadas e Auxiliares ainda seguram Bolsonaro e alimentam o Centrão, mas até quando?

Foto: Andre Borges/NurPhoto via Getty Images
por Alexandre Lessa da Silva

O diretor da CIA, William J. Burns, esteve no Brasil, no dia primeiro de julho, para um encontro com Bolsonaro e membros de seu governo. O senhor Burns, diplomata de carreira escolhido por Biden para comandar a agência, chegou à Brasília acompanhado de Todd Crawford Chapman, embaixador no Brasil desde 30 de março de 2020, e não tornou pública a conversa que teve com os membros do governo brasileiro. Dentro da imprensa de esquerda, várias opiniões começaram a surgir no sentido da CIA poder estar ajudando a tramar um golpe ou autogolpe no Brasil. Apesar disso, o nosso ex-chanceler, Celso Amorim, discorda dessa interpretação, chegando a afirmar que “a CIA quando aparece não age, quando age não aparece, aparece depois”. Amorim está correto, se a agência estadunidense quisesse agir nesse sentido, não apareceria. Além disso, se o ok fosse dado, Bolsonaro não esperaria um só dia para se livrar de toda pressão que está sofrendo. Para o ex-chanceler brasileiro, os Estados Unidos vieram “tomar o pulso, ver o que está se passando com esses dois países”, lembrando que Burns esteve antes na Colômbia. Nesse ponto, não há como concordar com Amorim, uma vez que o “império” sabe muito bem o que está acontecendo em ambos os países.

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Minha hipótese (e vocês sabem que tenho que usar essa linguagem) é que Burns veio para fazer exatamente o contrário do que foi cogitado por aqueles que pensam que foi dado um apoio ao golpe, isto é, veio para dizer a Bolsonaro que um golpe no Brasil seria contrário aos “interesses americanos”, retirando, assim, qualquer apoio externo a Bolsonaro e aos militares que o cercam.

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Sopesando os prós e contras de um golpe no Brasil para os Estados Unidos, teríamos no lado do pró somente o fato de evitar a chegada de Lula ao poder, enquanto o número de contras forma uma lista enorme. Para começar, os Estados Unidos perpetrariam no poder o homem mais odiado do mundo na atualidade. Além disso, apoiariam o desmatamento da Amazônia e suas consequências para o meio ambiente, indo contra a política ambiental de Biden, o criadouro de novas cepas do Sars-CoV-2, a desvalorização da democracia, a pouca estabilidade da América Latina, o massacre dos direitos humanos e uma série de outros pontos que estão no centro do discurso democrata. Além disso, deve ser lembrado que Bolsonaro encarna Donald Trump, mantendo viva aquela chama que se acendeu no Capitólio. Apoiar Bolsonaro é apoiar Trump, seus valores e riscos, enfraquecendo, assim, a própria ordem democrática mundial, uma das bases do liberalismo e neoliberalismo no mundo. Biden estaria, caso apoiasse um golpe no Brasil, colocando em risco a própria reeleição do Partido Democrata e o enfraquecendo.

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Para quem pensa que a questão econômica é aquela que, sozinha, orienta as ações estadunidenses, tenho uma notícia. O Brasil era a nona economia do mundo em 2018 e, com Bolsonaro, hoje é a décima segunda, o que não nada bom do ponto de vista da exploração econômica, como várias multinacionais já deixaram claro ao sair do país.

Para quem duvida, ainda, da inexistência de apoio externo para o governo Bolsonaro, basta olhar para nossas instituições para acabar com essa dúvida. Durante o governo Trump, Lula foi preso, o general Villas-Boas ameaçou o STF e o Supremo não disse um ai. Da mesma forma, todo o Congresso, com exceção dos parlamentares da esquerda, obedeciam cegamente às palavras do capitão. Agora, o STF enfrenta o governo, parlamentares e políticos, mesmo da direita, entram em conflito com Bolsonaro e as Forças Armadas, revelando uma luta contra o aparelhamento ideológico promovido pela extrema direita.

As Forças Armadas e Auxiliares ainda seguram Bolsonaro e alimentam o Centrão, mas até quando? Elas sabem que a promoção de um autogolpe, ou golpe militar contra Bolsonaro, implicaria um conflito direto com a OEA e uma quebra do compromisso assumido com a assinatura da Carta Democrática Interamericana. Caso isso aconteça, as sanções aplicadas ao país seriam enormes, além de um peso político alto para o governo Biden, que seria responsabilizado também por todo esse desastre, uma vez que tem força para evitá-lo e seria, assim, o grande responsável pela instauração da pior ditadura das Américas, quiçá do mundo.

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Admiro a coragem dos militares que apoiam Bolsonaro, ou melhor, a imprudência ou inconsequência, já que a coragem, nos diz Aristóteles, é um meio-termo entre a covardia ou medo e esses dois vícios. Realmente, é preciso muita “coragem” para arriscar postos, salários, liberdade e, além de tudo, poder deixar suas famílias em situação de penúria, uma vez que a falha do golpe acarretará todos esses infortúnios para aqueles que o defenderam.

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A política, assim como a vida, é um jogo. A pergunta é se vale a pena apostar no Cavalão, pois a realidade demonstra que ele é o maior dos azarões. Façam suas apostas, cavaleiros, e não se arrependam depois.

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