Os apuros do “homeschooling” repentino

A quarentena obrigou todos os pais a adotarem o ensino em casa temporariamente, conforme a direita sempre propagandeou. A experiência tem sido amarga

Imagem: Macrovector
por Beatriz Luna Buoso

“Assinale a alternativa que mostra uma das planificações desse sólido”, pergunta o terceiro exercício de matemática do meu filho depois dele ter feito a leitura do dia, produzido um texto para o projeto institucional da escola e assistido à live do curso de inglês. Cauan, 10 anos, que depois de quase 3 meses longe da escola, já não lembra mais o que é planificação, começa a se irritar, lágrimas começam a cair na folha, que acaba rasgando ao passar o lápis. O irmão mais novo que está ao lado usando um alfabeto móvel para formar frases, começa a se exaltar por conta do choro do irmão, que o atrapalha. Com a reclamação do caçula, Cauan joga a folha e o lápis longe, e chorando muito vai para o quarto.

Desistiu. E a mãe?

Tenta pela milésima vez explicar o que é planificação (já que segundo a criança, a explicação não é “do jeito da professora”)? Faz pesquisa no Google? Procura a professora pelo WhatsApp? Ou deixa quieto e amanhã começa tudo de novo? Detalhe que se deixar para o dia seguinte, terá o dobro de atividades para fazer!

Vários pais foram ouvidos durante essa matéria, e assim como eu, mãe solo de dois meninos, todos se sentem perdidos e impotentes! Como fazer meu filho aprender? Qual o melhor horário, o melhor local? Por que essa criança odeia tanto estudar em casa com a mãe? Por que sinto calafrios só de olhar as benditas listas de exercícios dos meninos? O que fazer quando dá tudo errado, e os dois se desinteressam?

Desafios

Famílias de diferentes configurações e classes sociais, com filhos matriculados tanto na rede pública, como privada, estão tendo que se adequar ao “homeschooling”, que é a educação domiciliar, e como era de imaginar, a grande maioria está odiando. Apesar de ser educadora, trabalhar diariamente numa sala de aula, eu me pego perdida sem reação na hora das birras dos meus filhos durante as atividades, pois educar é muito complexo, e a distância entre a criança aprender num ambiente escolar, socializando e aprender em casa com uma mãe em teletrabalho, e cheia de tarefas domésticas, é enorme.

A maioria dos pais ouvidos durante essa matéria, relatam que a grande dificuldade está em passar os conhecimentos específicos de cada disciplina, e devido à grande maioria ter visto todo esse conteúdo há muitos anos, é preciso algumas horas de preparo e estudo antes de sentar com a criança. O grande problema é a falta de tempo para esse tipo de “preparo”, o teletrabalho com as crianças em casa já não é fácil, e as tarefas domésticas são intermináveis, então o momento dos estudos acaba sendo de um estresse enorme para toda a família, que já teve um dia daqueles!

O momento que deveria ser de interação entre pais e filhos, de troca de ideias, de observar e ouvir nossas crianças, é um momento em que os pais tentam virar professores, equilibrar-se e mandar bala nos conteúdos específicos de cada disciplina para cada filho, e claro, encarar o enorme estresse familiar.

Projeto de lei

Das várias coisas que essa pandemia está esfregando na cara da sociedade, a primeira delas é que, pasmem, os ”doutrinadores” não ficam cinco horas numa sala de aula doutrinando crianças com kit gay ou mamadeira de piroca, nem estimulam o terrorismo ou a homossexualidade nas escolas! Esses são os termos que o atual governo usa para se referir aos educadores, o mesmo governo que está por trás do movimento Escola Sem Partido, movimento que demoniza totalmente a figura do docente.

Coincidência ou não, uma meta de Bolsonaro para os primeiros 100 dias do seu governo era justamente legalizar o ensino domiciliar no Brasil, com o argumento de: proteger, religiosa ou moralmente, as crianças; possibilitar o acompanhamento individual; segurança emocional e física; melhores resultados acadêmicos.

A prática é totalmente controversa, já que foi decidido pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2018 que os pais não podem tirar seus filhos da escola para ensiná-los exclusivamente em casa, e os pais que não matricularem seus filhos com idade de 4 a 17 anos na escola podem responder processo e até serem presos por abandono intelectual.

O projeto que faz parte do ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos tem autoria de ninguém mais, ninguém menos, do que Eduardo Bolsonaro, exemplo de aluno educado pelo pai! O PL 2401/2019 segue parado na Câmara dos Deputados, e agora com pouquíssimo apoio popular, já que a quarentena foi uma péssima propaganda para o projeto. 

Relação família-escola           

Em entrevista para o jornal Nexo, a coordenadora do núcleo de educação do Mãe Instituto, Bia Conde, diz que:

as escolas que estão mandando conteúdos têm que ter a sensibilidade de compreender que, muito mais importante que a quantidade de conteúdo que você manda para a criança, é ajudar esses pais e as crianças na organização. Para organizarem o próprio tempo e dividirem com os conteúdos da escola. Se você manda uma gama enorme de conteúdos isso causa muita ansiedade e muita frustração por que os pais estão trabalhando, os pais também são responsáveis por toda a limpeza e refeições da casa. A gente sabe que os afazeres domésticos não são simples e, além do mais, pela primeira vez muitos pais estão nesse lugar do pedagogo, do professor, no que muitas pessoas vão obviamente ter dificuldade com isso. Então pode-se conseguir um equilíbrio se o corpo pedagógico das escolas compreender a importância do convívio e não de ocupar a criança. Se eu presto atenção no convívio, vou mandar atividades em que a criança vai interagir com a família, vou mandar atividades que não sejam de conteúdos específicos, para que pais não tenham que ficar quebrando a cabeça, aumentando o estresse da família. As famílias devem colocar para escola que estão sobrecarregadas, pensar de que forma essa união entre família e escolas pode culminar em um aprendizado que é muito maior que de conteúdo, que é de trabalhar em equipe. Então trabalham os filhos, a família e a escola”.

Sem culpa materna, ou síndrome de péssima mãe! A verdade é que o ensino domiciliar não condiz com a realidade da maioria da classe trabalhadora! Até deixo aqui o meu currículo de boa mãe que se preocupa em colocar 5 cores no prato, consultas e caderneta de vacinação em dia, estojo com lápis apontados e totalmente contra o tal do homeschooling. Espero sinceramente que o homeschooling forçado da quarentena pelo menos sirva para a valorização dos educadores do Brasil.

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