Os 173 anos do Manifesto Comunista

Livro fundamental da propaganda marxista continua sendo uma arma fundamental dos trabalhadores na luta de classes

Imagem: Guardian Design
por Salatiel Neres

Quem anda pelo centro de Fortaleza, capital do estado do Ceará, se depara com uma multidão de trabalhadores. Seja nas dezenas de milhares de estabelecimentos comerciais, repartições públicas e empresas de toda natureza, ou nas ruas, com a aluvião de ambulantes e informais lutando pela sobrevivência a cada dia mais inviabilizada pela crise capitalista mundial, e em particular pelas políticas neoliberais do governo Bolsonaro e do seu Chigaco Boy, Paulo Guedes.

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A esmagadora maioria desses trabalhadores sofre os efeitos da crise, mas não vê de onde vêm os golpes que os atingem, e pior, não enxergam como lutar contra o sistema que os oprime. Estas pessoas também desconhecem que na Rua Floriano Peixoto, 735, centro da metrópole cearense, no quinto andar de um prédio, encontra-se o maior acervo do Brasil de edições do Manifesto do Partido Comunista. São mais de 200 edições em vários idiomas e formatos, entre os quais versões ilustradas, quadrinhos e até cordel. Publicadas em catalão, na língua basca, inglês, francês, alemão, italiano, grego, japonês, mandarim, esperanto, húngaro, árabe, polonês, holandês, dinamarquês, russo, entre outras. Esta surpreendente coleção tem um espaço especial na biblioteca da Associação Cearense de Imprensa, denominado de Plebeu Gabinete de Leitura.

Imagem: Salatiel Neres

O Manifesto

O Manifesto do Partido Comunista teve sua primeira edição impressa há 173 anos em uma pequena tipografia em Londres, de J. E. Burghard, no dia 21 de fevereiro de 1848, com três mil exemplares em alemão, naturalmente sem a identificação dos autores, uma vez que se tratava do programa de um coletivo político, a esta altura já consolidado como Liga dos Comunistas, que atuava de forma clandestina desde a década anterior, como Liga dos Justos. Até a primeira metade da década de quarenta, as concepções da Liga eram uma mescla confusa de filosofia alemã e socialismo francês e alimentava-se de utopismos.

Por causa desse confusionismo ideológico, Marx e Engels dispuseram-se a colaborar, mas não aderiram formalmente às suas fileiras. A partir da segunda metade da década de quarenta a direção da Liga começa a evidenciar um giro considerável no seu horizonte político-ideológico, resultante de uma conjunção de variáveis de ordem diversa, que foram ocorrendo gradualmente, como, entre outras: o crescimento do movimento operário e a interação com inúmeras correntes operárias de diversos países, o fracasso da intentona revolucionária blanquista, em 1839, a insurreição dos tecelões da Silésia, em 1844, e a experiência inglesa do cartismo.

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As ácidas críticas de Marx à eclética mescla ideológica da Liga, somada às experiências adquiridas pelo proletariado com as lutas, vitórias e derrotas desse período, serviram de catalisadores para a inflexão político-ideológica que veio a seguir, amplamente debatida no primeiro congresso internacional de comunistas, realizando em Londres em 1847, que foi responsável por uma reorganização dos princípios ideológicos e estruturais, tendo como símbolo dessas transformações a mudança de nome para Liga dos Comunistas. Os debates sobre a plataforma programática da Liga, abertos em junho de 1847, foram tão acalorados e intensos, que culminaram em um segundo congresso, realizado entre 29 de novembro e 8 de dezembro de 1847, no qual Marx e Engels participaram ativamente e, ao fim dos trabalhos, o congresso deliberou confiar a ambos a redação do documento programático da Liga. O Manifesto cumpriu um papel duplo, de síntese e parte constitutiva da expressão sócio-histórica daquela década revolucionária.

O fantasma do comunismo

Ao iniciar o texto com a frase: “Ein Gespenst geht um in Europa — das Gespenst des Kommunismus” — literalmente: “Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”. Marx foi brilhante na metáfora. Este espectro — como rezam algumas traduções — aterroriza a burguesia até os nossos dias.

Na sequência uma outra declaração contundente: “Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objetivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda do fantasma do comunismo um Manifesto do próprio partido”. A frase que fecha o Manifesto e abre um mundo de novas possibilidades à classe trabalhadora e a superação de sua exploração, tornou-se amplamente conhecida, qual seja: “Proletarier allen Ländern, vereinigt euch!” Ao pé da letra: Proletários de todos os países, uni-vos!

Trago aqui essa importante máxima, em alemão, e sua subsequente tradução propositalmente para acentuar uma questão fundamental. Todas as revoluções têm em primeira instância caráter nacional. Marx e Engels captam isso com maestria. Todos os revolucionários da história lutaram pela consolidação, independência ou demandas diversas dos seus respectivos países. É óbvio que a revolução em caráter internacional faz parte do âmbito do pensamento e da práxis revolucionária, porém o que fica demonstrado ao analisar os processos de luta dos povos oprimidos, assim como o fizeram Marx e Engels, é que não existe contradição entre nacionalismo e marxismo. Mas esse é um debate amplo que ficará para uma outra ocasião.

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Atualidade do Manifesto

Marx identificou e expôs as contradições do regime burguês e propôs a sua superação, não de forma determinista ou profética, como querem fazer pensar alguns detratores do marxismo, inclusive alguns críticos de “esquerda”. Antes indicou seu calcanhar de Aquiles e traçou o fio condutor que poderá levar ao fim a sociedade de classes. Toda sua obra, até mesmo seu Magnum Opus — O Capital — foi direcionada aos trabalhadores, como ferramenta para que pudessem perceber quem os golpeia, de que forma o fazem, e o melhor, como derrotar os inimigos de classe.

Desde que Karl Marx e seu companheiro Friederich Engels redigiram as últimas linhas dos seus escritos até os dias de hoje, muita água já rolou embaixo da ponte. O capitalismo parece estar vencendo, porém examinando mais de perto, percebemos que os seus limites estão extremamente evidentes hoje. Crises constantes são parte intrínseca do sistema capitalista. Estamos sofrendo os efeitos do colapso que ocorreu em 2008. A pandemia de Covid19 escancarou a brutalidade do Capital. Já se computam mais de dois milhões de mortos no mundo, vítimas do coronavírus, diante de um sistema incapaz de lidar com os grandes problemas sociais e coletivos.

O trabalho precarizado explora ao máximo e proporciona rendimentos ínfimos à classe trabalhadora. Revoltas explodem no mundo inteiro. Na França com os Coletes Amarelos, nos Estados Unidos com os coletores de lixo em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, ou os operários do estaleiro Bath Iron Works (BIW), no Maine, entre outros setores. Na América Latina vemos os protestos no Chile, Colômbia, Equador e Bolívia, contra a desigualdade econômica. Tensões étnicas e a brutalidade policial incendeiam o continente. No Brasil tivemos a paralisação dos trabalhadores dos Correios, a maior greve da história da empresa, a greve dos petroleiros, o breque dos entregadores por aplicativo, só para citar alguns.

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Colapso

Toda essa convulsão social no mundo deixa evidente o colapso do capitalismo. Mas se engana quem acha que o sistema vai cair de maduro. Para que possa realmente ocorrer uma revolução, é preciso a união de todos os trabalhadores e trabalhadoras, sob uma mesma bandeira — a do fim do capitalismo. As classes antagônicas delineadas no Manifesto Comunista ainda são as mesmas, e cumprem o mesmo papel. Apesar de todos os esforços do pós-modernismo para ocultar essa realidade por trás de lutas identitárias, lugares de fala e representatividade, a exploração continua e a luta de classes se intensifica de várias formas.

É diante desse panorama mundial que chego à conclusão óbvia de que, embora o acervo de edições do Manifesto Comunista citado no início do texto seja uma importante afirmação de sua longevidade e atualidade, de nada serve esses escritos enclausurados numa sala e encarados apenas como algo exótico. Melhor seria se o Manifesto estivesse nas mãos dos trabalhadores, sendo lido, estudado e discutido, nas fábricas, nas universidades, nas ruas, nos partidos políticos, em cursos presenciais ou online por todo o mundo, ajudando a formar a consciência de classe e preparando o proletariado para a sua missão histórica: a superação do capitalismo rumo ao socialismo.

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Uma excelente iniciativa neste sentido foi lançada há alguns meses pelo entregador antifacista Paulo Lima, conhecido como Galo. Paulo Galo já é nacionalmente conhecido pela sua liderança entre os entregadores durante os breques dos Apps. Através de uma vaquinha online ele conseguiu comprar uma Kombi, equipamento de som e exemplares do Manisfesto Comunista para iniciar um trabalho de politização dos trabalhadores nas periferias. O projeto foi batizado de Nação dos Trabalhadores e a Kombi de Paulo Freire. A proposta é levar às favelas consciência de classe através da palavra de Jesus Cristo, do método de Paulo Freire e o comunismo, buscando dar sequência a uma luta milenar dos trabalhadores rumo à Revolução Brasileira.

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