O triunfo do ódio na campanha de Trump

O desempenho de Trump na pandemia foi desastroso e o desemprego nos EUA chegou a mais de 10%, resta a seus apoiadores criar espantalhos

Trecho de O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl. Imagem: reprodução
por William Dunne

Ontem (26) o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, fez seu discurso de aceitação para ser candidato a vice-presidente outra vez, nas eleições de novembro. Foi o terceiro dia da convenção do Partido Republicano, que hoje deverá ter o discurso de aceitação de Donald Trump, que disputará a reeleição contra chapa do Partido Democrata, composta por Joe Biden e sua vice, Kamala Harris.

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Todas as campanhas eleitorais da burguesia são feitas de mentiras e distorções. No entanto, chama atenção no discurso de Pence o completo afastamento da realidade. A catastrófica atitude de Trump diante da pandemia em geral foi elogiada, e seus resultados falsificados. Na fantasia criada por Pence os EUA teriam prevalecido contra o vírus graças à “maior mobilização desde a Segunda Guerra Mundial” e à liderança do presidente. Porém a única medida concreta que podia ser mencionada foi a proibição de viagens da China aos EUA, embora Nova York, principal foco do vírus no país, tenha recebido o vírus de viajantes vindos da Europa.

O candidato a vice pelos republicanos também foi obrigado a ignorar os números, já que os EUA já estão chegando a quase 180 mil mortos por Covid-19, maior número de mortos no mundo inteiro. Pence também alardeou a recuperação dos empregos por Trump, no entanto, justamente pela inépcia do governo em encarar a pandemia, o desemprego já passa dos 10% no país. De modo que nem a suposta liderança de Trump contra o vírus, nem a recuperação dos empregos, são argumentos que se sustentem. O presidente dos EUA, como fez Bolsonaro no Brasil, passou um bom período negando a gravidade do problema, recusando-se a usar máscara, e pressionando pela reabertura antes da hora, além de sugerir tratamentos esdrúxulos e sem nenhuma comprovação científica. O tempo que se perdeu com isso está cobrando seu preço.

 

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O mecanismo do ódio

Imagem: divulgação

Para tornar viável um discurso tão distante da realidade, Trump e seus apoiadores precisam recorrer a um apelo puramente emocional, estimulando uma adesão cega. O tempo das redes sociais favorece essa necessidade, compartilhada pelas próprias empresas de Internet. Conforme explica Jaron Lanier em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, as redes sociais estimulam o ódio porque passar raiva aumenta seu engajamento, ou seja, você passa mais tempo usando a rede social. A inteligência artifical subjacente às redes percebeu isso de forma automática, levando um mecanismo cego a estimular o ódio entre as pessoas para que empresas pudessem lucrar com isso.

Com o aumento do engajamento as redes sociais conseguem prever melhor o comportamento dos usuários, e essa previsão é um produto a ser vendido para os anunciantes, que pretendem prever nossos hábitos de consumo. No entanto, essa previsão vai além, porque a rede social consegue modificar o comportamento em massa, e assim prever as atitudes de seus usuários e vender isso como produto. Nas palavras de Lanier, somos todos “ratos de laboratório”. A implicação política disso é óbvia, já que um possível interessado nesse produto são justamente os políticos.

Portanto as próprias características da comunicação atualmente, sob o controle dos capitalistas, favorece campanhas como a de Trump. Cegos de ódio, seus seguidores não recebem criticamente suas informações, comportando-se como uma torcida e seu candidato como um ser infalível. Se os dados da realidade não colaboram, pior para os fatos. Só importa estar do lado do presidente, contra quem não está. A vontade fica acima de qualquer consideração racional e objetiva.

 

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A redoma trumpista

Para colocar esse mecanismo do ódio em pleno funcionamento na campanha, os apoiadores de Trump devem criar espantalhos, como fez Pence em seu discurso ontem. Segundo ele, a chapa adversária, a mais direitista que o Partido Democrata poderia ter apresentado, seria composta de aliados da “China comunista”. Biden seria um “cavalo de Troia” da “esquerda radical”. E seria necessário defender a “liberdade” contra essa invasão estrangeira que a vitória democrata representaria. Esse é o espantalho mais imediatamente eleitoral.

Os outros espantalhos são muito mais graves. Trump continua em sua campanha contra os imigrantes, e Pence anunciou como uma grande realização a quantidade de muro que já teria sido construída. Todos acompanharam o drama dos imigrantes durante o governo Trump, com crianças isoladas em jaulas e separadas dos pais, tratadas como animais pelo país que se vende como campeão dos direitos humanos no mundo. Os delírios da direita têm consequências terríveis na realidade.

E levando tudo isso em consideração chegamos ao ápice do discurso de Pence. No mesmo dia em que ele proferia essas palavras, moradores de Kenosha, no estado de Wisconsin, protestavam contra mais uma violência da polícia contra um cidadão negro. No dia 23, Jacob Blake foi atingido por sete tiros quando tentava entrar em seu carro, onde estavam seus três filhos pequenos. Por isso as ruas de Kenosha estavam tomadas há dias. Os jogadores da NBA se solidarizaram com os manifestantes e não entraram em quadra ontem, adiando uma rodada do campeonato de basquete.

Neste cenário, de pandemia e protestos por todo o país contra a violência policial, Pence identificou como inimigos aqueles que protestam. E garantiu mais repressão:

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“Na última semana, Joe Biden não disse uma palavra sobre a violência e o caos nas cidades desse país. Deixe-me ser bem claro: a violência tem que parar – seja em Mineápolis, Portland ou Kenosha. Heróis demais morreram defendendo nossas liberdades para vermos americanos derrubando uns aos outros. Nós teremos lei e ordem nas ruas da América”.

Pence discursa na convenção republicana. Imagem: Twitter

Enquanto Pence discursava, um adolescente, de 17 anos, foi às ruas de Kenosha armado com um fuzil. Membro de um grupo supremacista branco, o jovem atirou nos manifestantes e deixou dois mortos. Como Pence, os supremacistas brancos não consideram os protestos legítimos, e consideram que devem ser esmagados pela força. Eles têm um inimigo interno, que responsabilizam pelos problemas do país. Grupos supremacistas brancos são antigos nos EUA, mas eles certamente se sentem mais confiantes com Trump no governo, e podem identificar nas ideias do governo um incentivo ao seu programa político irracional baseado no ódio. A promessa de Pence de “lei e ordem” ignora as causas dos protestos. Os supremacistas brancos foram para a rua levar “lei e ordem” com as próprias mãos. Os delírios da direita têm consequências trágicas quando interferem na realidade.

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