O que é a “história” para o marxismo?

Em qualquer uma de suas possíveis interpretações e aplicações, a ciência histórica não deixa de ser a narrativa concreta da luta de classes em prática a todo momento

por Matheus Dato

Objetivamente, é preciso tratar de três determinações que, embora operem em sentidos intimamente ligados, possuem diferenças conceituais e práticas fundamentais. Trata-se das definições de historiografia, história e História.  A importância de um rigor teórico sobre estes conceitos se dá, precisamente, porque a realidade humana somente é inteligível através da compreensão da existência humana como processo histórico concreto do fazer humano. Especialmente, do fazer humano enquanto atividade social.

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A elaboração teórica de qualquer principiologia ou elemento de finalidade da atividade do homem está condicionada ao modo de organização da produção, das formas de propriedade existentes e das forças produtivas socialmente relacionadas em uma sucessão dialética da realidade que podemos chamar, corretamente, de histórica. A exposição de Karl Marx  sobre o fundamento material da história surge como epistemologia real, ou seja, modo de conhecimento estruturado em método, em sua obra fundamental A Ideologia Alemã, finalizada em 1846 em conjunto com Friedrich Engels, mas apenas publicada em 1932. Nas palavras do teórico revolucionário alemão:

“Assim, a moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, tal como as formas de consciência que lhes correspondem, perdem imediatamente toda a aparência de autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento; serão antes os homens que, desenvolvendo a sua produção material e as suas relações materiais, transformam, com esta realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos desse pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência.”

A seguinte afirmação, embora pareça prosaica em uma obra de tanto fôlego e importância como A Ideologia Alemã, é, na realidade, o manifesto de fundação de uma nova ciência capaz de dar conta de todo o fazer material e intelectual da espécie humana em sua forma de relacionar a sua existência ativa no processo de produção. Não à toa, o mesmo Marx chega a reconhecer que a ciência histórica é a única ciência de fato.

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Ilustração: Lucas Milagres

Ciência histórica: a narrativa concreta da luta de classes

Se temos aqui uma determinação do que é a história, ciência da realidade das relações de produção mediadas pelo trabalho, surge para nós uma dupla determinação. Essa, desvenda igualmente o caráter daquilo que poderíamos chamar de História, ou seja, a materialidade mesma compreendida em seu contexto e lugar, bem como a verificação das condições de formação e desaparecimento desta materialidade. De todo modo, não faria qualquer sentido elaborarmos uma reflexão sobre a história e seus desdobramentos se o nosso intuito não consistisse em um esforço para entender os meios e métodos de transformação de nossa sociedade que é, em seu núcleo, histórica. Para o marxismo, em qualquer uma de suas possíveis interpretações e aplicações, a ciência histórica é a ciência da mudança radical do cenário, é a narrativa concreta da luta de classes em prática a todo momento.

É neste sentido que Louis Althusser explica que a História, e por consequência a sucessão dos fatos históricos, é sempre a superação de um determinado quadro por outro, produto de novas condições e contradições na base material da sociedade e em suas circunstâncias ideológicas-políticas. É interessante notar que, entretanto, a determinação própria da história não é fria e rígida, mas um resultado dialético sobredeterminado pelas particularidades de cada tempo social:

“A história não é mais do que a revogação permanente do fato consumado por um outro fato indecifrável a consumar-se, sem que se saiba antecipadamente nem onde, nem como o acontecimento de sua revogação se produzirá. Simplesmente chegará um dia em que as cartas serão redistribuídas e os dados serão lançados novamente sobre a mesa vazia.”

O fundamento da própria História é a sua constante mudança. As alterações profundas em sua estrutura são, nas palavras de Mao Tsetung, o “desenvolvimento das contradições que fazem avançar a sociedade e determinam a substituição da velha sociedade por uma nova.”

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A historiografia como instrumento

Faz-se necessário então traçar o que seria a historiografia. Diante da pouca fama deste conceito, é necessário explicar o por quê de trabalhar com uma categoria como esta na análise histórica a qual nos propomos. Em primeiro lugar, cumpre dizer que “historiografia” é um conceito em disputa. Suas origens remetem não à análise materialista e crítica da História, mas ao contexto positivista de elaboração dos rudimentos de uma ciência histórica, no séc. XIX. A definição de Francisco Iglesias, historiador brasileiro, apesar das limitações temporais explícitas em sua obra, entende a historiografia como a própria ciência da história, história essa constituída pelo desenvolvimento dos povos (IGLESIAS apud TORRES, 1996).

Tal conceituação traz em seu corpo uma ideia da história-disciplina como área crítica do conhecimento. Entretanto, não é possível aceitar que a historiografia se apresente como a própria ciência da história. Por sua natureza, entende de maneira plural as leis do desenvolvimento e da contradição como dadas pelo entendimento que os povos fazem de si mesmos através de seus registros escritos, culturais e antropológicos. Não existe, verdadeiramente, ciência histórica sem definir a práxis humana como determinante da consciência do mundo – não há, portanto, a possibilidade de aceitarmos que a visão dos povos e sociedades sobre si mesmos sirva como fundamento da História e da análise científica. Sem relações de produção estabelecidas em cada localidade geográfica do mundo, sem forças produtivas que resultem da ação das classes sociais e sem os meios concretos de se entender as contradições entre relações e forças produtivas, é absolutamente impossível entender e fazer história.

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A historiografia reside precisamente no espaço temporal, geográfico e intelectual anterior à constituição da história como ciência. Imagem: reprodução

Não por acaso, o marxismo de orientação althusseriana entende que a revolução teórica de Marx reside precisamente em descobrir o “continente” de uma nova ciência, ombreada com as descobertas fundamentais da matemática pelos gregos e da física por Galileu Galilei. Antes do materialismo histórico-dialético, poderia haver historiografia, narrativa histórica ou até o esforço de construção de uma ciência dura que explicasse definitivamente a História humana. Mesmo assim, não poderia haver ciência histórica.

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A historiografia, portanto, reside precisamente no espaço temporal, geográfico e intelectual anterior à constituição da história como ciência. É a efetivação do registro da História, é o fazer humano materializado no mundo por meio da linguagem. Situar temporalmente a historiografia não significa, entretanto, relegar esta área ao papel de um conhecimento científico ultrapassado. A ciência histórica precisa da historiografia como instrumento para desvendar e transformar a História humana, seu objeto.

A luta pela história

A importância de uma introdução de cunho metodológico para este esforço se dá, principalmente, ao percebermos que a produção historiográfica sobre o Brasil é riquíssima. Poucos países afetados pela colonização e dependência possuem um acervo tão vasto e conservado sobre os desdobramentos históricos e acontecimentos relevantes de 521 anos decorridos. Todavia, é um sintoma profundo do estado da história em nosso país que a primeira obra destinada a analisar as condições materiais tenha surgido apenas em 1926 e 1930. Essas duas datas contam com a publicação dos textos Agrarismo e Industrialismo, de Astrojildo Pereira e Octávio Brandão e Esboço de uma Análise da Situação Econômica e Social do Brasil, por Mário Pedrosa e Lívio Xavier (CASTRO, 2017). Em outras palavras, a história no Brasil não tem ainda 100 anos!

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A disputa política a ser travada contra o fascismo é inseparável da luta contra os fundamentos do capital. E essa luta não somente é travada em um espaço histórico: ela é, em si mesma, a luta pela História contra o atraso.

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