O que a falta de punição de Pazuello indica

Bolsonaro é mantido pelo Exército e, caso a população não demonstre nas ruas toda sua repulsa por ele, continuará sendo o plano A dos militares

Imagem: Sérgio Lima/AFP (edição o partisano)
por Alexandre Lessa da Silva

Pazuello é um general que parece ter sido feito sob medida para o atual governo. A família Pazuello é de origem judeu-marroquina e, desde sua chegada ao Brasil, tem sua história ligada à Região Norte do país. Abraham Joaquim Pazuello, o avô do general, chegou nos anos 1930 em Manaus para gerenciar a Usina Alegria, um local de beneficiamento de castanha da família Sabbá, também judia e que mantinha laços de sangue com a família do ex-ministro da saúde. Desde então, os laços já existentes entre as famílias só se estreitaram, chegando o pai do general, Nissim Pazuello, a comandar a Companhia de Navegação das Lagoas (CNL), empresa responsável por expandir, e muito, os negócios de ambas as famílias, chegando ao Porto de Santos e ao Rio de Janeiro. Com dois polos econômicos, Rio de Janeiro e Manaus, a família Pazuello multiplicou sua fortuna com negócios milionários, negócios esses que não excluíam o general Eduardo Pazuello.

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Pazuello já nasceu em “berço esplêndido”. Aos 5 anos de idade já era sócio de uma empresa de financiamento e investimento, a Sabbá Crédito (SB) com sede no Rio de Janeiro que, em conjunto com a corretora Garantia, deu origem ao Banco Garantia, comprado posteriormente por Jorge Paulo Lemann. A lista de empresas em que Pazuello é sócio é formada por J A Leite Navegação, Petropurus Representações e Comércio de Petróleo e N Pazuello e Cia de Manaus. Na primeira empresa dessa lista, Pazuello se tornou sócio em 15 de maio de 2020, quando já era secretário do Ministério da Saúde. A empresa, conforme relata Cristina Serra, mantém uma série de relações contratuais com órgãos públicos. Ainda no que diz respeito a essa mesma empresa, o general é sócio de seu irmão, Alberto, acusado nos anos 1990 de pertencer a grupos de extermínio no Amazonas, estupros, envolvimento com drogas e cárcere privado de meninas, tendo uma delas, inclusive, sofrido a amputação de uma das mãos em função de ter sido amarrada por dias.

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No campo da política carioca, a filha de Pazuello, Stephanie dos Santos Pazuello, ocupou o cargo de supervisora da Diretoria de Gestão de Pessoas da Empresa Pública de Saúde do Rio de Janeiro S.A. (Rio Saúde) durante o governo Crivella. Com a derrota de Crivella e a vitória de Eduardo Paes, Stephanie foi mantida na prefeitura, mudando o cargo. Apesar disso, a filha do general alegou à Justiça que era de baixa renda, solicitando gratuidade processual num processo que envolve a antiga escola dos dois filhos, o que foi negado pela juíza.

Como titular do Ministério da Saúde, Pazuello caiu como uma luva para os planos de Bolsonaro, conforme a imprensa e a CPI da COVID confirmam. Atendeu a todas as ordens de Bolsonaro (“um manda e outro obedece”), patrocinou o chamado kit COVID, desconsiderou 53 e-mails da Pfizer para compra de vacina, atrasou a compra da Coronavac, dificultou outras negociações de vacinas, não atendeu aos pedidos do Amazonas por oxigênio, provocando a morte de milhares de brasileiros, enfim, foi o pior ministro da Saúde da história. Não é à toa, portanto, que Pazuello, assim como Bolsonaro, acabou denunciado à Organização de Estados Americanos (OEA) pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Já fora do Ministério da Saúde, o general, ainda na ativa, Eduardo Pazuello  participou de um ato político de apoio a Jair Bolsonaro em 23 de maio do presente ano, em total desrespeito ao Estatuto e Código Penal Militar. Apesar disso, Pazuello não foi punido e o processo disciplinar foi arquivado, atendendo os desejos e ameaças proferidos por Jair Bolsonaro.

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A falta de punição de Pazuello provocou, segundo a grande mídia, uma tensão dentro do Exército. Entretanto, essa “tensão” não deve ser entendida como um racha no Exército.

Hipoteticamente falando, o Exército não tem somente um plano de poder. Há o plano A, B, C … L. Entre eles, há o plano de implantação de uma ditadura com Bolsonaro, uma ditadura sem Bolsonaro (golpe militar contra o próprio Bolsonaro), a reeleição de Bolsonaro, a busca por uma “terceira via” e, até, um governo Lula com uma forte presença militar, tudo dependerá das variáveis do momento.

Obviamente, há generais que tendem mais a um plano do que outro, mas está claro que todos obedecem uma orientação central que, por sua vez, comanda até o próprio Bolsonaro. Essa orientação central, infelizmente, é formada por uma “nova linha dura” do Exército e, no momento, está esticando a corda para ver até onde é capaz de ir. Tal ação não tem um objetivo apenas interno, mas visa principalmente saber até onde há um obstáculo externo, em especial no caso estadunidense. Resumindo, o Exército não tem certeza sobre a aceitação dos Estados Unidos e seus aliados de um golpe militar no Brasil. Aliás, para um governo como o de Joe Biden seria difícil explicar as críticas à China, especialmente no tocante a Hong Kong, em relação à falta de democracia e direitos humanos. Seria uma aceitação, para o atual governo estadunidense, de todo um projeto de Trump e da extrema direita mundial, algo muito embaraçoso para todos os seus apoiadores, aceitando, inclusive, uma derrota na questão ambiental.

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O poder não é de Bolsonaro, ele é apenas mais um cara. O poder da Presidência é do Exército. Isso sempre esteve claro, mas muitos não conseguem enxergar todas as evidências. “O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, afirmou Jair Bolsonaro para o general Villas Boas, responsável pela intimidação do STF que impediu a candidatura Lula e roubou a democracia do país. Bolsonaro não tem mais um grande apoio popular, Lula o supera em todas as pesquisas, a pandemia avança no país, a  desigualdade é tão gritante que só não vê quem não quer, o soft power brasileiro desapareceu, com o Brasil visto como vilão sanitário, ecológico e político em todo o mundo. Tudo isso não poderia ser segurado apenas pelo Centrão e os apoiadores de Bolsonaro. Bolsonaro é mantido pelo Exército e, caso a população não demonstre nas ruas toda sua repulsa por ele e, ao mesmo tempo, os políticos de esquerda não montem uma estratégia nacional e, principalmente, internacional, ele continuará sendo o plano A dos militares e, portanto, manter-se-á no poder.

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