O papel dos soviéticos na erradicação da Poliomielite

Um pseudo-ceticismo por grande parte do contingente científico no ocidente acabou por atrasar uma solução eficiente como a vacina oral e o método de imunização massiva

Imagem: O Partisano
por Maria Eduarda Ferreira

Não é a primeira vez na história que uma vacina produzida em solo russo provoca desconfiança entre os cientistas ocidentais. Antes de tudo , é importante afirmar que não é intenção deste texto articular uma defesa da Sputnik V — vacina registrada recentemente pelo parlamento russo, com artigos publicados na The Lancet — nem julgar se a desconfiança acerca dela é ou não fundamentada.

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A pretensão é discorrer sobre um fenômeno específico, e que aparenta ocorrer em tempos de graves epidemias e polarização. Como também observar como o pensamento científico pode estar interligado às questões geopolíticas inerentes à sua respectiva época. Os acontecimentos retratados neste artigo ocorreram em um contexto de ameaça iminente de uma guerra que caso fosse travada, poderia significar o fim da humanidade, e isso também deve ser levado em consideração.

As grandes epidemias e o alerta para a imunização

Durante o verão de 1952, surgia nos EUA a pior epidemia de Poliomielite do país. Naquele ano, cerca de 58.000 casos da doença foram reportados, sendo 3.145 mortos e 21.269 paralíticos. Àquela época, ainda não havia vacinas ou remédios que pudessem evitar que o estágio mais grave da doença acometesse a população.
A poliomielite é uma doença viral que provoca uma paralisia de leve a incapacitante. As primeiras infecções são datadas da pré-história, e descobertas arqueológicas encontraram muitos casos em crianças do Antigo Egito. Durante milênios, a doença sobreviveu de forma discreta até meados de 1900, quando as primeiras epidemias surgiram na Europa. Daí em diante, os surtos se tornaram regulares e frequentes, principalmente durante o verão.

A epidemia de 1952, além de muito violenta, também foi responsável por alarmar a população norte-americana acerca da gravidade da pólio e despertar a consciência pública para a necessidade de uma vacina. Neste mesmo ano, o médico virologista e epidemiologista Jonas Salk passou a trabalhar nas pesquisas para o desenvolvimento da primeira vacina antipólio.

A vacina Salk induzia a resposta imune com o vírus inativo. As autoridades norte-americanas licenciaram a vacina apenas 2 horas depois de Thomas Francis, diretor da Escola de Saúde Pública de Michigan apresentar em 1955 os resultados do estudo de campo que havia sido realizado em 12 de Abril de 1954. A pesquisa concluiu que a Salk possuía uma eficácia de cerca de 70%.

Durante o anúncio do ensaio, representantes do laboratório de controle biológico (uma divisão do Serviço de saúde pública dos EUA) se reuniram com um grupo de consultores especiais, e emitiram os primeiros requisitos mínimos oficiais. Seguindo as recomendações desse grupo, o secretário do Departamento de Saúde licenciou a vacina contra a Poliomielite e emitiu licenças de produção para seis laboratórios farmacêuticos.

Em 25 de Abril de 1955, uma criança que havia sido vacinada com a Salk, fabricada nos laboratórios Cutter da Califórnia, deu entrada no hospital com sinais da Pólio. No dia seguinte mais cinco casos. O serviço de saúde pública mandou recolher rapidamente os lotes. Em 27 de Abril o Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH) enviou dois virologistas experientes na operação de produtos biológicos para realizar uma vistoria rigorosa. Nos meses seguintes 94 pessoas vacinadas receberam diagnóstico da Poliomielite. Os infectados haviam sido vacinados no mesmo laboratório.

A partir das evidências epidemiológicas foi constatada uma relação significativa entre os laboratórios Cutter e a ocorrência da poliomielite paralítica em cerca de 200 pessoas. O caso ficou conhecido como ‘Incidente Cutter’ e acabou por abalar parte da credibilidade pública da vacina Salk.

Apesar da onda de contaminação ter sido provocada pelos lotes do laboratório Cutter, outros 4 produtores da vacina; Wyeth, Parke-Davis, Pitman Moore, e Eli Lilley tiveram problemas durante o processo da inativação viral.
Os padrões estabelecidos nos testes de campo não haviam sido utilizados na área de produção da vacina, e os testes de segurança do governo federal não eram rigorosos o suficiente. Consequentemente, um dos lotes dos laboratórios Wyeth continha o vírus vivo, e também chegou a provocar paralisia por resíduos ativos. Contabilizando assim, um total de 204 paralisias e 11 mortes. Ocorreram também casos isolados de contaminação de profissionais. Em pelo menos 3 deles suspeitou-se de que o vírus havia adentrado por meio de ferimentos superficiais, durante o manuseio incorreto de tecidos infectados. Em 2 ocorrências houve paralisia leve de membros como mãos e pernas e o terceiro evoluiu rapidamente para a morte.
O então senador de Oregon, Wayne Morse comentou na época: “O governo federal inspeciona carne nos matadouros com mais cuidado do que inspeciona a vacina contra a poliomielite”.

Não houve vistoria internacional, e tudo foi resolvido pelos órgãos locais responsáveis. Apenas um grupo de estudos havia relatado à OMS, antes do incidente, que a Salk era segura e eficiente. Alguns países como Suíça, Austrália e Holanda cancelaram imediatamente suas campanhas. Outros como Canadá e Dinamarca deram continuidade ao programa, demonstrando que com o devido controle e fiscalização do estado na produção da Salk, esta não representava perigo e possuía eficácia de cerca de 85%.

Na mesma época, três outros grupos trabalhavam simultaneamente no desenvolvimento de uma vacina contra a Pólio nos EUA. Cox em Lederle, Koprowski e colaboradores no Instituto Winstar e Albert Sabin em Cincinatti. Estes utilizavam um vírus vivo atenuado em vez do inativo. Apesar de Koprowski ter sido o primeiro autor de um informe sobre o uso de poliovírus vivo enfraquecido, Sabin liderou um método mais efetivo.

A testagem da vacina Sabin foi recomendada pela OMS aos EUA em 1957, que ignorou o pedido em função da Salk que havia sido aprovada e já estava em circulação. Em seu artigo “O Papel de minha cooperação com os cientistas soviéticos na erradicação da Pólio” Albert Sabin relata que o então chefe da Fundação Nacional para a Paralisia Infantil (March of Dimes), e pai da virologia estadunidense, Tom Rivers, chegou a aconselhá-lo para que descartasse a sua vacina oral no esgoto mais próximo.

A entrada dos soviéticos na busca pela vacina

Depois da II guerra, surgiram pequenos focos de epidemia da pólio na URSS. A incidência era mais alta nas regiões central e noroeste do país, particularmente nas repúblicas bálticas. A URSS respondeu às epidemias criando o Instituto de pesquisas da Poliomielite em Moscou, chefiado pelo renomado cientista na área de virologia Mikhail Petrovich Chumakov.

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Em janeiro de 1956, Albert Sabin recebeu uma ligação do serviço de saúde pública, informando que um grupo de cientistas russos viajava aos EUA para encontrar Jonas Salk e outros pesquisadores.

A visita dos soviéticos foi inspecionada pelo departamento de estado, sendo necessário obter uma permissão especial para visitar Salk em Pitsburgo pois a cidade era proibida aos russos e havia uma forte desconfiança de que algum dos quatro médicos fosse agente da KGB. Mas, ao observar a pesquisa de Sabin em Cincinatti, Chumakov mostrou-se extremamente interessado e os dois acabaram firmando uma vigorosa amizade.
Sabin foi convidado a viajar à Moscou em 1956, e depois de um intenso interrogatório do FBI a viagem foi autorizada. Chumakov também convidou Jonas Salk, que optou por rejeitar o pedido. O filho de Salk afirmou em entrevista concedida a David Oshinsky em 2002 que seu pai se arrependeu profundamente de ter dispensado o convite, pois gostaria de ter cooperado com o projeto soviético devido à sua importância histórica.

Na Rússia, Sabin organizou palestras e conferências com outros cientistas, e de volta aos EUA, pediu autorização para enviar suas amostras virais à URSS. Apesar das suspeitas de que o vírus pudesse ser usado na fabricação de armas biológicas, o envio acabou sendo aprovado.

Outros testes também foram realizados com a Salk, entretanto, a fabricação era muito mais cara e a vacina era de difícil administração, o que facilitava possíveis erros na produção. Chumakov estava convicto de que a vacina oral de Sabin era a melhor opção. E ele estava correto. Os testes com a Vacina oral fabricada pelos russos demonstraram que ela era muito mais segura, e ao retornar à Rússia em 59, Sabin afirmou
“(…) tal trabalho jamais seria possível nos EUA ou em qualquer outro lugar (…) a imunização completamente segura de milhares de crianças não seria possível não fosse pelo extenso e cuidadoso trabalho e pesquisa de Mikhail Chumakov e Anatol Smorodintsev (…) a eliminação imediata completa ou quase completa e sem precedentes, da poliomielite paralítica através das administrações em massa da vacina em um curto período de tempo, foi a demonstração mais dramática de uma nova maneira de usar vacinas.”

É verdade que não foi tão fácil para Chumakov conseguir aprovação para fabricar a vacina, pois os órgãos controladores soviéticos eram extremamente rígidos. Mas ao fazer contato com Anastas Mikoyan, figura conhecida da revolução, membro do Politburo e responsável pelas questões de saúde pública, Chumakov conseguiu convencê-lo de que a vacina era mais barata e eficaz que a Salk, obtendo assim a permissão necessária para a realização dos testes de campo.

As testagens foram realizadas paralelamente. Os ensaios conduzidos por Smorodintsev, colega de Chumakov em Leningrado, tiveram início ainda em 1957 em pequena escala com 67 crianças. Chumakov pediu a Sabin que enviasse a maior quantidade possível de cepas para produzir, e os testes sob sua supervisão, foram realizados em larga escala com cerca de 20.000 crianças.

Juntos, eles executaram a maior testagem de campo da história da Pólio, envolvendo 17 milhões de pessoas. Ao final de 1959, cerca de 15 milhões já estavam vacinadas em território soviético. 1,5 milhão por Smorodintsev, e o restante por Chumakov.

Em dezembro de 1959 o Ministro da Saúde Sergey Kurashov expediu uma ordem de imunização em massa de toda a população entre 2 meses e 20 anos de idade até julho de 1960. O que significava vacinar 77 milhões de pessoas em poucos meses, algo inimaginável aos padrões da época. O periódico The British Medical Journal chamou a campanha de “Blitzkrieg contra a Poliomielite”.

Os resultados promissores foram reportados durante a primeira Conferência Internacional de Vacinas com Poliovírus vivo. Sabin ficou exultante e escreveu a Chumakov: “(…) nesse ritmo a URSS será a primeira nação a erradicar a poliomielite.” Na Tchecoslováquia também foram organizadas grandes testagens de campo entre 1958-59. Com vacinas produzidas em Praga com as cepas de Sabin e lotes adicionais da vacina de Chumakov, cerca de 140.000 crianças entre 2 e 6 anos foram vacinadas.

Baseado nos estudos de cientistas soviéticos o programa foi um sucesso, e em 1960 já havia se expandido por todo o território. Utilizando a vacina nacional e também a importada da URSS, cerca de 93% da população infantil da Tchecoslováquia fora imunizada, aproximadamente 3.5 milhões de crianças entre 2 meses e 14 anos. Não foram registrados mais casos de Poliomielite no território já nas duas estações epidêmicas após o início da campanha.

Na Hungria os testes tiveram início com a Salk, e apesar das campanhas, uma nova epidemia grave ocorreu em 59, marcando assim o fim da produção da Salk e o início do investimento nas vacinas Sabin.
A Bulgária também usou a Salk até 1959, quando fez a troca pela vacina oral. As campanhas então seguiram por todo o leste europeu; Hungria, Polônia, Alemanha Oriental, Bulgária, Iugoslávia, e assim por diante.

Ao fim da década de 1960, 77 milhões de crianças estavam vacinadas na URSS e 23 milhões na Europa Oriental, contabilizando um total de 100 milhões de pessoas imunizadas.

Implicações geopolíticas e a atuação da OMS sob a cortina de ferro

Era quase um consenso entre a Europa Oriental e o Ocidente — mesmo a partir de visões respectivamente distintas — que os programas de vacinação em massa realizadas eram particularidades dos estados comunistas.
Os países participantes das campanhas consideravam o sucesso da luta contra a pólio fruto da superioridade do sistema socialista, enquanto os centros de pesquisa do ocidente enxergavam as vacinações em massa como produto de um autoritarismo inerente ao sistema socialista.

Diferente da estratégia utilizada no Leste europeu, a vacina Salk nos EUA era, via de regra, financiada por fundos e instituições privadas ou não-governamentais, que contava com subsídios e doações, como o March of Dimes .

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À medida que a poliomielite era erradicada, ganhava fôlego no bloco socialista a comparação entre o “mundo livre da pólio” e o ocidente relutante em utilizar a vacina oral que, em nome do livre comércio, continuava a sofrer fortes epidemias da doença.

Hungria e Tchecoslováquia também buscavam enfatizar a importância dos estados socialistas e do planejamento estatal para o sucesso da batalha contra a pólio.

No entanto, mesmo depois de resultados tão promissores serem apresentados pela comunidade científica soviética na Primeira Conferência Internacional de Vacinas com Poliovírus Vivo durante a Convenção Pan Americana da OMS em 1959, havia — principalmente entre os cientistas estadunidenses — um ceticismo muito grande em relação à veracidade dos dados, à pesquisa soviética e ao método utilizado.

Existia também uma preocupação de que a vacina pudesse ser usada para propagar o socialismo. Apesar do suposto temor a respeito do método, o fato de ser fabricada pelos russos sempre falava mais alto.
Embora tivesse sido demonstrado a partir de testes em macacos a eficácia da vacina oral — que por ser excretada auxiliava na imunidade de rebanho — o contingente da OMS não estava convencido. Solicitaram por fim, uma averiguação internacional sem a qual nenhuma recomendação seria dada pela Organização Mundial da Saúde no sentido de utilizar a vacina.

O cientista americano John Paul Scott sugeriu então, que a OMS enviasse uma virologista estadunidense muito respeitada no campo da Pólio. Dorothy Horstmann, pesquisadora de Yale foi enviada à URSS e Europa Oriental por seis semanas para avaliar minuciosamente a qualidade dos trabalhos nos laboratórios e os padrões empregados para garantir a segurança da vacina.

A vistoria de Dorothy constatou que o contingente técnico-científico e a esterilização utilizada nos laboratórios eram impressionantes, sendo portanto, um processo de fabricação extremamente seguro que tornava praticamente impossível a contaminação ou acidentes durante o processo. O relatório revelou também como funcionava o inovador e extraordinário programa de vacinação massiva em curso na URSS.

Na Estônia por exemplo, eram escolhidos pontos de facilitação de onde diariamente partiam equipes de profissionais levando as vacinas em recipientes térmicos. Para a distribuição rural saíam equipes de enfermeiros e assistentes para cobrir determinada área. Nas cidades eram distribuídos pontos em escolas, enfermarias, creches, ambulatórios, fábricas e assim por diante. Tudo era protocolado e o nome de cada pessoa vacinada era cuidadosamente registrado numa lista, um método eficiente e muito similar ao que é posto em prática durante as campanhas de vacinação aqui no Brasil.

Dorothy também reportou que nada passava despercebido sob o sistema soviético. Ao menor sintoma de Poliomielite, um profissional era enviado para investigar e registrar a ocorrência e a regra era a super, em vez da subnotificação dos casos.

Campanhas intensivas de propaganda eram elaboradas antes e durante o período da imunização. Primeiramente sendo direcionada aos profissionais de saúde, e em seguida à população em geral. Também eram transmitidos programas de rádio e TV, conduzidos diretamente pelo Dr. Chumakov para explicar ao grande público a importância da total cooperação popular para o sucesso do programa. Local e data das campanhas eram amplamente divulgados.

Por fim, a Dra. Horstmann concluiu: “Como podem deduzir neste relatório, o extraordinário programa de imunização em massa desenvolvido nas diversas repúblicas só foi possível graças à então existente organização sociopolítica da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.”

Passadas as seis semanas, o relatório foi entregue à Organização Mundial da Saúde, sendo positivo ao método Sabin e à produção soviética.

No entanto, a OMS optou por não publicar o artigo. Talvez pela demonstração de força que isso traria aos Estados socialistas durante a guerra fria — já que é evidente o mérito do sistema econômico e da intervenção estatal na saúde pública para o sucesso na produção e nas campanhas em massa — ou ainda por outros motivos, como os embates com a URSS, o que provavelmente ainda não justificaria tamanha omissão numa época em que a luta contra a pólio seguia a todo vapor.

Mesmo com a publicação negada, e sem vínculos oficiais com a organização, o artigo foi amplamente divulgado entre os cientistas, o que ajudou a mitigar parte do ceticismo descomedido em relação à vacina e consequentemente a transformou numa opção promissora. Mas parte dos cientistas ocidentais ainda relutavam.

Durante a conferência Internacional da OMS em Washington DC, Charles Armstrong, respeitado cientista estadunidense, pôs a vacina em dúvida durante um discurso acalorado onde afirmou veemente que “não se podia confiar nos russos”.

O representante da delegação soviética, então vice-ministro da Saúde e notável virologista, Victor Zhadanov, interrompeu os ataques com um discurso que seria lembrado entre cientistas como um alerta de que há momentos na história onde a cooperação por um interesse comum, deveria estar acima de diferenças culturais e políticas.

“Gostaria de assegurar [a vocês] de uma coisa: que nós, na União Soviética, amamos nossas crianças e nos preocupamos com seu bem-estar da mesma forma que as pessoas nos Estados Unidos ou em qualquer outra parte do mundo se preocupam com as suas.”

A delegação foi ovacionada durante a conferência. Naquela época os soviéticos haviam decidido reintegrar a OMS, a fim de pressionar os países membros a também apoiar a luta pela erradicação da varíola.
O sucesso das campanhas de vacinação foram evidenciados pelos Estados socialistas, como prova da necessidade da intervenção pública no sistema de saúde. Em contrapartida, a grande adesão das massas populares às campanhas, preenchia o espantalho ocidental de um sistema onde os cidadãos eram rebanhos obedientes e uniformes.

A Hungria enfrentou duras críticas na comunidade internacional em 1959, quando o governo processou alguns pais e familiares por se recusarem a vacinar seus filhos.

No livro “Pólio: an American History” o autor norte-americano David M. Oshinsky afirma que o sucesso da vacina produzida pelos soviéticos foi devido “ao bom planejamento do Dr. Chumakov, e aos poderes coercitivos do Estado soviético”.

Também, outros autores como Dora Varghas induzem ao pensamento de que a busca pela erradicação da Pólio em solo soviético tinha suas raízes na concepção estética de que corpos doentes não se encaixavam na “utopia comunista”, e que as campanhas de vacinação eram a forma de um “estado paternalista” legitimar sua autoridade. Pois, caso fossem bem-sucedidas os resultados seriam visíveis imediatamente, caso não, outros fatores sem conexão com o Estado — como a ciência — poderiam ser culpados.

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Dora afirma ainda que um sistema de saúde “militarizado” e a massiva e “compulsória” adesão popular à vacina, teria ligado o alerta para as supostas similaridades com o “eficiente sistema de saúde sob o Nazismo” pois, um sistema ditatorial poderia facilmente controlar epidemias através de métodos tipicamente autocráticos.

A tentativa de conferir, não uma preocupação legítima com a saúde da população, mas sim uma puramente “estética” e com a inaptidão ao trabalho é até hoje erroneamente sustentada por alguns estudiosos em análises e artigos.

De fato, uma doença viral que causa paralisia em crianças não é bem vista em qualquer nação minimamente humanista, por ser uma condição evitável através do avanço da ciência. Mas é necessário esclarecer que não havia nenhuma orientação tipicamente eugenista — nem algo próximo à isso — na legislação soviética. Na verdade, a primeira associação de trabalhadores deficientes da história moderna que se tem conhecimento foi a VIKO, uma liga criada na URSS após a Revolução de 1917, cujo principal esforço era fornecer oportunidades de trabalho para portadores de deficiência em todas as áreas da vida profissional, incluindo esportes e atividades físicas.

Os testes de campo em larga escala realizados na Europa Oriental e o método de vacinação em massa — que naquela época eram vistas como singularidade dos Estados socialistas — foi pouco a pouco sendo considerado o mais efetivo para a erradicação de doenças virais, especificamente a Poliomielite, em escala global.

Esse método acabou por se concretizar como referência científica, sendo colocado em prática em outros países ao redor do globo, como Cuba e Brasil, e mais tarde se tornando modelo global de vacinação recomendado pela OMS. Depois da aplicação da iniciativa mundial para a erradicação da doença utilizando a vacinação em massa, a incidência da Poliomielite reduziu em torno de 99%, e o número de países endêmicos caiu de 125 para 2 em 1988.

No Brasil foram notificados cerca de 3.600 casos em 1975, e 1.290 em 1980 quando começaram as campanhas. Já em 81, o número caiu para 122 casos. E em 1989, foram registrados os últimos casos da poliomielite no país.
O papel desempenhado pelos Estados socialistas durante a corrida pela vacina antipólio, e na saúde pública de forma geral, tornou-se parte do legado humanitário de uma sociedade onde a vida e a saúde humana são questões prioritárias.

Por ter sido por um bom tempo, considerado algo impraticável fora do bloco socialista, levou alguns anos para que a vacinação em massa fosse posta em prática nos países capitalistas. A própria vacina Sabin só foi autorizada para fabricação nos Estados Unidos em 1962, mesmo sendo muito mais barata, segura e eficaz.
O mérito creditado à autoridade do Estado na implementação de uma saúde pública funcional, principalmente durante períodos de epidemia, causou desilusões no período da guerra fria, e tornou-se um empecilho na história da poliomielite. A percepção do método como parte de um sistema tipicamente ditatorial, foi aos poucos sendo abandonada à medida em que as campanhas eram acolhidas mundo afora.

Há uma ideia geral de que as organizações de fiscalização a nível global, como a Organização Mundial da Saúde ou sua organização-mãe, as Nações Unidas, seriam isentas de ideologia. Mas a verdade é que muitas vezes estas instituições tendem a seguir uma hegemonia mesmo quando isso vai de encontro aos interesses por ela defendidos, não necessariamente por toda organização em si, mas do seu núcleo.

Essa espécie de ceticismo infundado, omissão ou desconfiança mesmo diante de provas, se mostra mais incisiva quando se trata de avanços científicos ou sociais provenientes de países não alinhados ao eixo ocidental. Um exemplo recente foi a grande desconfiança de alguns especialistas ocidentais com a estratégia de combate ao covid na China, inicialmente encarada como prova do autoritarismo do Estado Chinês.

No caso da poliomielite, um pseudo-ceticismo por grande parte do contingente científico no ocidente acabou por atrasar uma solução eficiente como a vacina oral e o método de imunização massiva, demonstrando como a inclinação no esforço de “demonizar” um sistema contraposto à hegemonia, e tudo o que provém dele, pode ser extremamente desastroso. Ao passo que a Salk era crível e incentivada, a vacina produzida em solo russo era depreciada.

Assim como negar avanços científicos por razões simplistas dentro dos limites do senso comum é nocivo, fazê-lo dentro de uma perspectiva pseudo-cética, em busca de reforçar uma narrativa quando todas as evidências apontam para uma verdade factual, o é ainda mais, porque compromete a credibilidade e razoabilidade científica de dentro para fora.

Não se pode ratificar qualquer pesquisa sem evidências ou demonstrações. Mas por outro lado também não se deve omitir avanços, pois como demonstrado, este tipo de ingerência pode desacelerar o desenvolvimento de toda a humanidade.

O que um dia fora considerado o subproduto de um sistema “totalitário”, é hoje conquista do mundo livre de um fatal inimigo em comum.

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Apesar do estigma de um Estado socialista autocrático como fonte de um sistema extremamente efetivo ter permanecido, seu verdadeiro legado se consolidou numa das maiores demonstrações do que pode ser a sociedade humana, quando o seu horizonte for a superação da ordenação social como a conhecemos, e seu constante aperfeiçoamento para preservação e desfrute de todos os homens de todas as nações, em todas as esferas da vida.

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