O Pantanal, a ONU e o quengaral em chamas

Altas doses de mentira e cinismo no discurso de Bolsonaro provocaram fortes alucinações em Olavo de Carvalho: “O Brasil é uma ditadura comunista”

Imagem: Jair Ferreira Belafacce

por Danilo Matoso

É ano eleitoral. Se o Governo Federal está nas mãos da direita, os municípios – mais permeáveis às pressões populares – são uma importante frente de resistência institucional ao amplo desmonte de políticas públicas da administração Bolsonaro. Para aumentar o estrago, a direita quer ganhar as eleições locais, e o apoio de Bolsonaro é fundamental. Nessas épocas, governantes dão aquela polida caprichada na realidade: os problemas inexistem e seus feitos são todos heróicos. Para o presidente, cuja base eleitoral não foi uma corrente política mas uma corrente de notícias falsas no Whatsapp, vale até negar um incêndio de proporções bíblicas no interior do país e denunciar no exterior uma suposta onda de “cristofobia”.

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Dizem que o poeta Rainer Maria Rilke teria escrito há um século que “a verdadeira viagem é a interior” – provavelmente nalguma elegia ou carta a um jovem colega. O escritor era pródigo em perscrutar os rincões da alma em busca de inspiração para suas obras. O espírito romântico da frase – que tanto pode ser tomada como uma constatação ou lamento quanto um método poético – parece se tornar, cada vez mais, uma prescrição para a antipolítica e o comportamento antissocial.

Na última semana, Bolsonaro e outras figuras infelizmente centrais de nossa política deram mostras de haver perdido completamente o contato com a realidade em nome de sua narrativa. Partiram talvez rumo à verdadeira viagem, a interior. Pode parecer uma epopeia para eles. Para nós – usando o mote do excelente blog e podcast “Medo e delírio em Brasília”– é só uma bad trip escrota em que a gente se meteu. Bora passar raiva junto? Bora.

Queima, Pantanal

O presidente da República parece ser incapaz de simplesmente aferir algum infortúnio no Brasil. Se alguém morre, ele pergunta “e daí”? Se muita gente morre, ele diz que não é coveiro. Para Bolsonaro, o mundo gira a seu redor. Em seu mundo e em sua narrativa, qualquer notícia ruim – quer seja ela fruto de suas ações ou não – deve ser refutada imediatamente como “exagero”, “histeria”, “conspiração da imprensa” etc.. Nada de empatia com vítimas de um incidente. Nada de assumir responsabilidade pela condução das políticas públicas. Os culpados são sempre outros, e não ele.

Na última semana, como se sabe, incendiou-se o Pantanal. O fogo teria incinerado 15% da região com nada menos que 16 mil focos de incêndio. Ao todo, as queimadas na região são as maiores desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou a registrar os números por satélite. A queimada é o meio mais rápido de abrir pastagens e os apoiadores de Bolsonaro aguardavam sua presença em Sinop (MT) em sinal de apoio ao agronegócio local na última sexta (18). Cinco fazendas, sozinhas, foram responsáveis por queimar uma área equivalente à cidade do Rio de Janeiro. Investiga-se, por isso, se não se tratou de uma queimada “política” como a ocorrida no chamado “Dia do Fogo” em agosto do ano passado, quando fazendeiros e empresários do Pará organizaram incêndios na mata como manifestação favorável ao presidente, que se declara reiteradamente contrário às políticas de proteção ambiental.

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Chegado o dia da viagem, devido à fumaça causada pelos incêndios na região, a aeronave presidencial não conseguiu pousar na primeira tentativa. Nas imagens de satélite do dia uma cortina de fumaça cobria praticamente todo o estado. Mas afinal, em nova tentativa de aterrissagem, Bolsonaro chegou a seu destino e falou aos fazendeiros. Em retribuição ao caloroso gesto de apoio, o presidente lançou a sua própria cortina de fumaça. Em sua versão íntima do que acontecia, noticiar os incêndios seria “criticar”, “torcer contra” etc.. “Temos sofrido uma crítica muito grande. Países outros que nos criticam não têm problema de queimada, porque já queimaram tudo nos seus países”.

Dois dias antes, ele já dera o tom do seu discurso – a mesma evasiva usada ao longo de toda a epidemia de Covid-19. Para o presidente, ele seria alvo de “críticas desproporcionais à Amazônia e ao Pantanal. A Califórnia está ardendo em fogo, a África tem mais foco que o Brasil”. Confirmando o sucesso da “linha política” de seu líder e as suspeitas quanto à natureza dos incêndios, um dos fazendeiros acusados de haver iniciado o fogo concordou: “tudo que acontece no Brasil é culpa do Bolsonaro. A mídia acha que quanto pior, melhor. Temos que ajudar o presidente a melhorar o Brasil”.

A ONU como uma caixa de comentários

Apoiado pelos pirômanos, acobertado por seus aliados, Bolsonaro gravou seu discurso de abertura para a 75ª edição da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), iniciada na última terça (22) por videoconferência em razão da pandemia de Covid-19. Ele falou a salvo dos olhares de reprovação, das mãos recuadas dos diplomatas, das risadas e olhares de desprezo, das tiradas irônicas nos regabofes que acompanham esse tipo de evento – em que ele evidentemente não se encaixa. Como um comentarista de portal de notícias ou de redes sociais, estava “protegido” pelo meio virtual. Bolsonaro não viajou a Nova York, mas realizou a grande viagem a seu interior. Não foi bonita.

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Foi um discurso abertamente cínico e mentiroso. Bolsonaro afirmou que mantém uma “política de tolerância zero com o crime ambiental” com o Pantanal em chamas e ninguém condenado pelo “Dia do Fogo”. Reafirmou o suposto acerto que sua política de não contenção à pandemia de Covid-19 – responsável pelo genocídio de 140 mil pessoas e arrogou-se responsável pelo programa de Renda Básica Emergencial pautado pela oposição. Governante de uma nação em que 87% da população é cristã (cerca de 65% católicos e 22% evangélicos), Bolsonaro fez um “apelo” à Assembleia Geral da ONU pela liberdade religiosa e “pelo combate à cristofobia”.

Na Assembleia, o discurso de Bolsonaro descolado da realidade serviu de “escada” para o igualmente cínico papel de Donald Trump – que atribuiu à China a responsabilidade pela pandemia. Não apenas sinalizou o apoio incondicional brasileiro à política norteamericana – em vias de abrir guerra contra a Venezuela – mas normalizou globalmente o tom histriônico, conservador, opressivo e abertamente mentiroso do candidato à reeleição nos Estados Unidos. Ao ver Bolsonaro falar, talvez os anfitriões da Assembleia Geral não se sintam tão envergonhados. Podia ser pior pra eles – e é pior pra nós.

Líder em uma ditadura comunista

Bolsonaro, em jornada profunda para dentro de si mesmo, parece realmente acreditar nas barbaridades que fala – a despeito de sua absoluta falta de correspondência com a realidade. Ele discursa não para estadistas ou para o povo brasileiro como um todo, mas exclusivamente para sua “base”: seus aliados políticos e aqueles 10 a 15% da população que pensam razoavelmente como ele. Com sua retórica grotesca reforça sua “coragem de ir lá dizer o que tem que ser dito” – justamente quando não foi lá. Se as ideias dominantes numa época são as ideias da classe dominante, as grandes corporações internacionais criaram com as redes sociais um ambiente perfeito para difundi-las por meio de grupos controlados, que recebem só determinado tipo de informação e nada mais. Para este público, a palavra de Bolsonaro é a verdade, e a verdade os libertará.

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As ficções de Bolsonaro, porém, não coincidem plenamente com aquelas elaboradas por outro importante ideólogo da narrativa governista. O astrólogo Olavo de Carvalho talvez tenha ficado triste ao saber que não poderia voltar a ver pessoalmente Bolsonaro na América do Norte. Passou as últimas semanas lançando vitupérios contra o governo que ajudou a eleger. No mesmo dia da abertura da Assembleia Geral da ONU disparou: “Alguém ainda não percebeu que o comunismo está instaurado no Brasil como única ideologia permitida? Estão todos dormindo, hipnotizados, idiotizados?” e mais: “democracia, o caralho. O Brasil é uma ditadura comunista, com um presidente direitista de fachada”. Olavo comprou uma passagem só de ida ao seu interior e ao da Virgínia.

Há algo de real em seu discurso inflamado – também sob a proteção da internet, claro. Parece ser cada vez mais visível um racha no núcleo conservador do governo. Bolsonaro, ao fim e ao cabo, se gaba na ONU por praticar políticas propostas pela esquerda, como a Renda Básica Emergencial ou a “tolerância zero com crimes ambientais”. Paulo Guedes, que como Olavo reza pela austera bíblia do Consenso de Washington, vem sendo desgastado pelo Planalto sucessivas vezes nas últimas semanas. É improvável que o experiente Chicago boy, com anos de cama no mercado financeiro, se incomode com os arroubos de fachada de Bolsonaro – voltados evidentemente às eleições deste ano e de 2022. Guedes talvez só saia exonerado de ofício. Ademais, Olavo desabafa por ele.

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Em todo caso, não deixa de ser alentadora para todos nós a falta de unidade entre esses setores revelada nesses momentos críticos. Afinal, se não assumem que queima o Pantanal, pelo menos admitem que queima o quengaral. Quem sabe a casa não cai?

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