O ministro está certo: os militares “pacificaram” o País em 1964

A Ordem do Dia divulgada pelo Ministério da Defesa afirma que “as Forças Armadas acabaram assumindo a responsabilidade de pacificar o País”, que sofria ameaças “totalitárias”. E isso está certo

por Danilo Matoso

Como fez o general Fernando Azevedo e Silva nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, o novo Ministro da Defesa – general Walter Braga Netto – divulgou uma Ordem do Dia para ser lida nos quarteis no dia 31 de março relativizando o golpe militar de 1964 e a ditadura empresarial-militar que se seguiu por 21 anos. Apesar do que vêm dizendo os generais, a ideia é comemorar nos quarteis a atuação política das Forças Armadas.

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Segundo o texto, que trata o golpe por “movimento de 31 de março de 1964”, “o século XX foi marcado por dois grandes conflitos bélicos mundiais e pela expansão de ideologias totalitárias, com importantes repercussões em todos os países”. Na visão de Braga Netto, “havia ameaça real à paz e à democracia” e por isso “as Forças Armadas acabaram assumindo a responsabilidade de pacificar o País”.

O ministro está certo.

De fato, a deposição de João Goulart – que vinha implementando decisivas reformas de base, promovendo a reforma agrária, a luta pelo direito à saúde pública e pelo direito à cidade etc – era uma demanda do governo dos Estados Unidos, que desde a Doutrina Monroe considerava e considera a América do Sul o seu quintal. O envolvimento do Estado norte-americano na promoção e realização do golpe militar de 1964 já foi suficientemente demonstrado em ampla historiografia, e pode ser aferido de modo didático, passo a passo, no documentário de Camilo e Flávio Tavares O dia que durou 21 anos.

O embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, advertia que Jango estaria “dando a porcaria do país de graça para os comunistas”. Infelizmente, porém, a realidade era que não há qualquer registro de contato direto entre o governo brasileiro e o governo soviético na época – se houvesse, talvez a história fosse outra. Se os estadunidenses haviam estendido a aliança militar com o Brasil desde a Segunda Guerra Mundial, a doutrinação anticomunista das forças armadas seria uma das políticas permanentes na segunda metade do século passado.

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Prócer dessa cooperação, o general Wernon Walter assumiria o posto de adido militar no Brasil em outubro de 1962, já com determinação do governo John Kennedy de apoiar a realização de um golpe militar capaz de depor o presidente brasileiro. O programa Aliança para o Progresso distribuiu US$ 5 milhões à oposição de direita nas eleições estaduais e parlamentares daquele ano. O governo dos Estados Unidos financiava ainda os think tanks Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), que – como o instituto Milleninum hoje – produziam centenas de publicações, panfletos, filmes e programas de rádio e de TV destinados à propaganda política anticumunista.

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Externamente, Lyndon Johnson – sucessor de Kennedy – iniciou uma política de boicote econômico ao país, que seria suspenso após o golpe militar. As ameaças se tornaram mais concretas às vésperas do golpe. Os Estados Unidos chegaram a despachar, com o nome de Operação Brother Sam, uma esquadra de um porta-aviões, seis contratorpedeiros, um porta-helicópteros e quatro petroleiros para o Brasil no dia 31 de março de 1964. A missão era atacar o país caso a quartelada promovida pelos militares locais falhasse.

O ministro está certo. Havia, sim, uma ameaça totalitária pairando sobre o Brasil em 1964. Essa ameaça era norte-americana: um país que até hoje não possui eleição direta para presidente e que eliminou na base da força em seu território todo partido de esquerda que não se subordinou ao neoliberalismo do Partido Democrata. E a ameaça se concretizou no regime totalitário implementado por nossos militares. Instaurou-se uma ditadura que perseguiu, prendeu, torturou, exilou e matou milhares de pessoas até 1985.

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De fato, os militares “pacificaram” um conflito com nossos vizinhos do norte, evitando um ataque de sua Marinha de Guerra a nosso país, e o fizeram a custa de um conflito armado contra nosso próprio povo. Uma guerra feroz  por meio de uma ditadura sangrenta, que arrefeceu por poucas décadas mas infelizmente ainda não acabou, conforme demonstram o envolvimento aberto do Alto Comando das Forças Armadas na prisão de Lula, na eleição  e no governo do genocida Jair Bolsonaro.

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