O horizonte comunista contra o fim da história 2.0

Para neutralizar a classe trabalhadora, a burguesia ergueu um cerco ideológico para apagar e perseguir partidos e lideranças de esquerda

Imagem: Ink Drop
por Vitor Ferreira

Com o acirramento da luta de classes no âmbito nacional e internacional as burguesias começaram processos selvagens de acumulação de capital. Esses processos são frutos de mais uma crise capitalista, que começou em 2008 e até os dias de hoje sofremos com ela. A maioria dos países ocidentais não consegue firmar estabilidade política e/ou econômica, passou-se mais de uma década e a estabilidade não veio. Para piorar, a crise se aprofundou com a COVID-19 e a total ineficácia das burguesias em seus estados em lidar com a maior crise sanitária do século XXI.

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O processo de arrecadação capitalista não poderia esbanjar de outra maneira sua total podridão, quando nesses 12 anos de profunda crise mundial, e agora pandêmica, 1% dos 7 bilhões de seres humanos se tornaram mais ricos do que jamais foram ou se pôde ser na história. Desde o início da pandemia, a riqueza total dos bilionários em todo o mundo aumentou em 25%, mais de US$ 10 trilhões, e isso só se pôde realizar em cima de sangue, suor e lágrimas, em cima da fome mundial, do crescimento do desemprego mundial, em cima de milhares de mortos.

A maior potência militar do mundo e segunda maior potência econômica (já ultrapassada pela China), os Estados Unidos da América são o grande exemplo de como abandonar seu povo, de como deixar crianças e suas famílias a mercê do vírus e suas consequências cotidianas concretas, o grande exemplo da falência capitalista. A tão aclamada União Europeia demonstrou claramente que quando a coisa fica feia é cada um por si, mas todos tem que ser pelos ricos, e não hesitou em abandonar a Itália à beira de um colapso, que felizmente contou com a solidariedade de China, Cuba e Vietnã para se recuperar. No Brasil nunca existiu qualquer projeto de combate ao vírus, pois para o presidente do Brasil nunca existiu um vírus. Para o presidente do Brasil só existem os interesses dos poderosos e o seu lugar de submissão aos interesses imperialistas como país de capitalismo dependente.

Cerco ideológico

É importante destacar que essa, diferente de tantas outras do capitalismo, é uma crise estrutural e não apenas mais uma crise cíclica, em que é necessária a reorganização das relações capitalistas de produção para que ocorram suas arrecadações, e para que isso aconteça é preciso manipular ou apagar toda perspectiva de luta das classes trabalhadoras pelo mundo. Para tentar entender como se dá esse apagamento das perspectivas reais de luta dos trabalhadores, quero destacar aqui quatro pontos:

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1 – O alinhamento entre as mídias hegemônicas, os judiciários, os algoritmos das redes sociais –  tudo isso em posse ou financiado pelas classes dominantes internacionais e nacionais, para aplicar e legitimar golpes de Estado e manipular a opinião pública;

2 – O financiamento incessante das burguesias na chamada “onda conservadora”, aliado ao movimento citado acima, onde figuras como Trump e Bolsonaro realizam seu serviço sujo em conduzir a política da truculência nas ruas para combater de qualquer forma e a qualquer custo, qualquer possibilidade de reação espontânea ou organizada dos oprimidos e explorados. Além disso, ser acompanhado da ascensão de movimentos neonazistas e neofascistas por todo o globo ocidental;

3 – O aprofundamento do neoliberalismo, o processo em massa das privatizações, da retirada quase que total dos direitos básicos dos trabalhadores, a política de austeridade de cortar qualquer tipo de investimento público, exemplos representados pelas duas figuras citadas acima, mas também por Macri, ex-presidente da Argentina, e Macron, presidente da França, entre outros;

4 – Aliado a todos esses processos, o esvaziamento ou simplesmente a negação do debate público com a participação das esquerdas e dos comunistas, a apresentação incansável das mídias das ideias liberais como únicas alternativas à extrema-direita produzida por essa mesma classe. Para além da gigante propaganda sobre o liberalismo é preciso também realizar cassações, perseguições e condenações parciais dos judiciários, das mídias e órgãos internacionais (OEA por exemplo) sobre direitos políticos de figuras da esquerda juntamente das decorrentes tentativas de criminalização dos comunistas, a fim de apagar qualquer horizonte possível aos trabalhadores e trabalhadoras do mundo.

Imagem: Branko Devic

Um domínio sutil

Essa operação liberal burguesa em curso não descolada de nenhum dos pontos anteriores vem acompanhada de seus jargões: “nem de direita e nem de esquerda”, “teoria das ferraduras”, a tal da “frente ampla”, “o mal menor” etc. Essa forma de agir tem como seu objetivo colocar as figuras liberais como guia dos processos políticos, tentando tirar todo programa político das esquerdas e dos comunistas de cena, fazendo com que o único programa político a ser discutido seja aquele que possa ser governado pelas burguesias nacionais e burguesias imperialistas em relação de dominação com os países periféricos.

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Estes processos ininterruptos e inseparáveis ainda podem ter outras ramificações além de não haver nenhuma contradição entre eles e tentativas clássicas de golpes militares e de milícias apoiadas pelas mesmas burguesias, mas, sem dúvida, na atual conjuntura é possível notar essa tentativa “sutil” de acabar com as esquerdas e os comunistas como alternativa de projeto político, via esvaziamento e impedimento do debate e sua criminalização.

O fim da história

Sintetizando tudo isso é possível encontrar aqui uma tentativa clara de resgatar-reafirmar a teoria/falácia de Fukuyama do “Fim da história”, que nada mais foi do que uma maneira de dar legitimidade ao discurso neoliberal de Margaret Thatcher de que “não há alternativa”, aos trabalhadores, que aceitem ficar de joelhos. Um conjunto de subjetividades repetidas, reproduzidas e implantadas de todas as maneiras possíveis no seio dos oprimidos, até que se tornassem um conjunto de objetividades na realidade de todos os explorados.

Em outras palavras, fica claro aqui que a ligação desses dois liberais citados acima é uma forma mais light do velho discurso do desprezível nazista Joseph Goebbels, “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. A polarização da política nos EUA, onde se coloca Biden, um agente tradicional do imperialismo, como única chance de derrotar Trump, e, no Brasil, a incansável tentativa da grande mídia e dos aparatos burgueses em apresentar e reforçar figuras como Luciano Hulk, Sérgio Moro, Doria, Tabata Amaral, entre alguns outros carrascos do povo brasileiro travestidos de teletubbies, são exemplos concretos da estratégia dominante de tampar toda e qualquer visão dos trabalhadores e trabalhadoras de seu lado esquerdo, ou que não tenha mais um lado esquerdo.

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“Viver sem conhecer o passado é como andar no escuro”, o “fim da história” e o “não há alternativa” nos trouxeram até aqui, e essa tentativa de uma espécie de 2.0 desse projeto capitalista-liberal-burguês que anteriormente não hesitou em propagar o crescimento nazifascista, tenta ser retomado por essa fantasia liberal e neoliberal que nos obrigou a construir muros em nossa volta enquanto nos colocavam de joelhos. Pintaram esses muros e nos disseram que era para nos proteger, torcendo e operando para que ali ficássemos. O liberalismo burguês e sua tentativa “felpuda” de nos dominar retira o milho antes de querer nos colocar ajoelhados, tem o cabo de seu chicote revestido de plumas, mas a ponta permanece feita de anzóis.

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Fukuyama em Kiev, abril de 2018. Imagem: paparazzza

O espectro continua assombrando a burguesia

Por último e muito importante, é preciso dizer aos trabalhadores e trabalhadoras que tudo isso está também diretamente ligado ao fato de que ”um espectro ronda” as multidões que o escutam sussurrar, e a burguesia treme, pois sabe que logo esse sussurro ecoará em uma só voz e que essa voz clamará rumo ao horizonte comunista, que pelo mundo milhões de homens e mulheres já estão enxergando através das lentes vermelhas que revelam toda essa estratégia e tragédia histórica da dominação de classes, e como em toda sua história os trabalhadores sempre ousam se levantar, se organizar e já começam a se colocar uns sobre os ombros dos outros para enxergar além dos muros e ver que existe sim um outro horizonte possível, existe uma real possibilidade de um outro mundo e esse novo mundo pode, deve e será construído pelas próprias mãos dos trabalhadores e povos explorados do mundo, unidos!

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