O golpismo da classe média

O deputado federal Laerte Bessa (PL-DF) anunciou em um áudio de WhatsApp que votou em Bolsonaro para que ele desse o golpe, a partir disso podemos tirar algumas conclusões

Imagem: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
por Matheus Dato

A população do Distrito Federal não poderia estar menos surpresa ao tomar conhecimento de que o deputado federal Laerte Bessa (PL-DF) anunciou em um áudio veiculado em grupo de WhatsApp que havia votado em Jair Bolsonaro para que este “desse o golpe, acabasse com o STF e, se preciso, fechasse o Congresso”. O parlamentar ainda lamentou a suposta covardia de Jair Bolsonaro por não ter levado a cabo estas pretensões.

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O fato acima, noticiado pelo portal brasiliense Metrópoles, não choca absolutamente ninguém que esteja minimamente inserido na sociedade brasiliense. Em primeiro lugar, porque aqueles que repudiam a fala fascista de Laerte Bessa não esperariam nada menos do que isso, vindo de tão conhecida figura. Em segundo lugar, a base eleitoral fiel do deputado citado não somente se sente contemplada pela fala, mas também não seria capaz de esperar outra postura de Laerte Bessa. “De onde menos se espera, é daí que não sai nada mesmo.”

Afora o espetáculo grotesco, o retrato fiel do Brasil fascistizado contido no áudio, alguns elementos chamam a atenção e merecem uma análise mais cuidadosa. Em primeiro lugar, o contexto do ataque de sinceridade cometido: a questão que ensejou a afirmação do parlamentar foi o veto do presidente da República a respeito de uma Medida Provisória que garantiria o direito à assistência de saúde aos policiais civis do Distrito Federal, mantidos pelo fundo constitucional da União.

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A Polícia Civil da capital federal é, em primeiro lugar, uma categoria que agregou uma série de reivindicações sindicais nos anos 80 e 90 que poderiam ter contido algum caráter progressista. Nos dias de hoje, para além da atividade de alguns elementos isolados, este caráter desapareceu por completo.

De tal maneira, a categoria enfrentou sucessivos abandonos pelo poder público local ao longo dos anos, sendo sonoramente contrariada ao pleitear a recomposição salarial, paridade de vencimentos com a Polícia Federal e direitos de cunho trabalhista adicionais. Em virtude da alta remuneração dos agentes policiais e sua posição enquanto força do Estado, esta classe se distanciou ainda mais da realidade material comum aos trabalhadores do Distrito Federal, uma das capitais mais desiguais do mundo.

Tampouco foi surpreendente, portanto, que a classe média armada e treinada pelo Estado tenha abraçado calorosamente o projeto político bolsonarista em 2018 e que até os dias de hoje concentre uma forte base de apoio ao presidente na capital. Para além disso, o sindicato da categoria apoiou publicamente o processo golpista que iniciou seu curso com a deposição de Dilma Rousseff, em 2016. Despolitizados de maneira ampla, desamparados por suas representações institucionais e colocados em uma posição de classe média tendencialmente decadente do ponto de vista econômico: os elementos necessários para fazer grassar a política da extrema direita há muito estão postos no seio da PCDF.

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Laerte Bessa é um filho desta conjuntura. Talvez um filho feio, pois apresenta ao povo de Brasília a essência mais repugnante do mecanismo golpista da burguesia, fora dos círculos da pequena-burguesia que ainda possuem alguma ilusão democrática. Laerte Bessa também é a imagem plasmada da classe média candanga que vive alheia à miséria das cidades-satélites e do Entorno da cidade, andando a reboque das realizações da extrema direita.

Acontece que talvez não seja mais possível ao deputado federal e seus asseclas manter a fé de que sua categoria de origem estará disposta a seguir um projeto de radicalização do bolsonarismo. Ao contrário, o descontentamento com a política de segurança pública do Governo Federal, que privilegia as forças militares, indica uma dissensão crescente entre a classe média policial e o poder político vigente; não que tal fato represente um giro progressista, longe disto, mas a crise está aberta e nem mesmo os desejos alucinados de que a violência ditatorial aumente parecem ser capazes de conter o problema.

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De toda maneira, é de se esperar que este episódio deixe claro a todos os trabalhadores duas necessidades prementes: a necessidade de politizar e disputar as camadas médias da sociedade, cada vez mais precarizadas pela política de morte do fascismo, e a necessidade de compreender que o fascismo é um projeto político que se encarnou em meio aos mais amplos e diversos setores das classes sociais em luta no país, e que não poderemos poupar esforços para destruí-lo.

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