O esquema de pedofilia dentro da Casas Bahia que a mídia não quer mostrar

Mesmo com dezenas de denúncias de pedofilia e exploração sexual de menores contra Samuel Klein, fundador da Casas Bahia, e seu filho Saul Klein, grande imprensa opta por não noticiar os casos

Imagem: O Partisano
por Bibi Tavares

Poucas coisas na sociedade do capital são tão cínicas e vis quanto o comportamento da grande mídia. Independentemente do assunto, ela sempre encontra uma forma de manipular as reações, incluindo se calar diante de algum absurdo vindo do andar de cima. Esse foi o posicionamento dos jornalões sobre o tenebroso caso dos Klein, pai e filho acusados de manter um esquema milionário de aliciamento e exploração sexual de menores de idade. Em 15 de abril deste ano, a Agência Pública lançou em primeira mão um extenso artigo de denúncia, explicando passo a passo o modus operandi de Samuel Klein, fundador da Casas Bahia e pai de Saul Klein, também acusado do mesmo crime.

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Segundo a apuração da Pública, Samuel Klein teria mantido uma rotina de exploração sexual de crianças e adolescentes de 1989 até 2010. Conhecido com “Rei do Varejo”, Klein teria uma série de funcionários e assessores que cuidavam de todo o processo, que contemplava encontrar as vítimas e convencê-las a se encontrarem com ele. O alvo principal seriam meninas menores de idade,  socioeconomicamente vulneráveis e preferencialmente virgens. Muitas dessas jovens não tinham sequer 15 anos. Umas das vítimas contou à Pública que aos 9 anos ela foi incentivada por sua irmã de 12 anos a ir se encontrar com Klein. A menina queria muito um par de tênis e a irmã havia dito que ele dava presentes pra quem obedecia ele. Ela não só foi, como passou anos nessa dependência financeira, assim como centenas de outras mulheres ao longo de décadas.

A história é um show de horrores completo. Samuel Klein teria estuprado e praticado cárcere privado com muitas dessas meninas. Algumas ficaram por dias trancadas no quarto com ele, sem poder sair do local, sendo violentadas. Para atrair as vítimas e garantir esse ciclo vicioso, Klein oferecia muito dinheiro, produtos de suas lojas, cestas básicas, apartamento, estudos, enfim, tudo o que a maioria delas não tinha. Em contrapartida, elas teriam que frequentar sua casa a hora que ele quisesse. Algumas eram selecionadas para festas particulares em suas residências distribuídas em Angra dos Reis, Guarujá, Santos e São Vicente.

Klein e uma das meninas aliciadas.

Peixe grande

Durante 11 anos, a Casas Bahia liderou o ranking de maiores anunciantes do país. Em 2013, ano em que a rede de varejo perdeu o posto para a Unilever, o gasto com publicidade foi de R$ 1,59 bilhão. Um pouco antes, em 2009, Abílio Diniz e Samuel Klein criaram a Via Varejo após a fusão da Casas Bahia com o grupo Pão de Açúcar. A sociedade não deu muito certo e um tempo depois a família Klein vendeu as ações da empresa.

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Por “coincidência”, em abril deste ano foi divulgado que a Casas Bahia não terá sua marca exposta nas transmissões de jogos na Rede Globo. A marca esteve presente entre os anos 2000 até 2015 como grande patrocinadora dos jogos de futebol transmitidos pela Globo, nos anos seguintes suas aparições foram menos frequentes. A Via Varejo, dona da Casas Bahia, justificou que agora quer apostar no marketing de outra loja que também é controlada pelo grupo, o Ponto Frio. Também fizeram questão de dizer que Saul Klein, que também está sendo acusado de dar continuidade ao esquema de exploração sexual de menores de idade iniciado pelo pai, não tem mais nada a ver com a empresa. Acontece que em 2019, as ações da Via Varejo foram a leilão e seu comprador foi, não por acaso, Michael Klein, herdeiro de Samuel Klein e irmão de Saul. Assim, a Casas Bahia voltou às mãos da família Klein.

Samuel e seu filho, Saul Klein. Ilustração: Jorge Berlin/Agência Pública

Desde as denúncias, a Via Varejo está tentando ofuscar um pouco a marca de Samuel Klein fazendo publicidade de suas outras lojas. Somente esse ano, o grupo comprou por uma bagatela de R$ 311,7 milhões espaço em todos os meios de comunicação da Globo, não só TV aberta, R$ 4 milhões a mais do que em 2020.

O silêncio mais caro do mundo

Você deve estar se perguntando como um escândalo desse porte não ganhou destaque na primeira página dos jornais. Por que o Fantástico não dedicou os últimos minutos de programa, como costuma fazer, para falar de casos graves como o assassinato do menino Henry Borel? Provavelmente porque os envolvidos são peixes pequenos em comparação com Samuel Klein.

Não é surpresa pra ninguém que grandes grupos de imprensa como a Rede Globo tenham interesses pecuniosos quando lidam com esse tipo de notícia. Infelizmente, a lógica empresarial tomou conta de uma grande parte do meio jornalístico. Em novembro de 2014, quando Samuel Klein morreu, o Jornal Nacional dedicou alguns segundos do programa para noticiar o ocorrido, contando brevemente a trajetória de Klein. Agora, imagine William Bonner tendo que explicar que um dos maiores anunciantes da Globo, aquele que dá boas gorjetas póstumas para os jornalistas de baixa categoria limparem sua sujeira, explorava sexualmente crianças?

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Até sua morte, era muito comum que veículos grandes falassem de Klein como um vencedor na vida. A figura do self-made man ficou por muito tempo no imaginário das pessoas. Num artigo do El País, de 2014, uma passagem é bem interessante. Ao falar que ele era praticamente um incansável trabalhador, o texto cita: “Trabalhador incansável, mantinha uma cama no escritório para quando se estendia nas jornadas, o que não era incomum”. Se você leu a apuração da Pública, sabe que Klein teria mantido essa cama em seu escritório justamente para praticar os abusos contra aquelas meninas. É lamentável e angustiante ler textos exaltando um homem que teria cometido todo tipo de perversão com menores de idade.

Na denúncia da Pública, testemunhas contaram que entre 1995 e 2000, Samuel Klein manteve um imóvel em um condomínio em São Vicente. Ali, Klein literalmente distribuía dinheiro para meninas menores de idade, pobres, manterem relações sexuais com ele. Elas formavam filas, centenas delas, na esperança de Klein aparecer e distribuir algumas notas ou recrutá-las para seus sórdidos prazeres. Com o tempo, isso foi incomodando cada vez mais os vizinhos dentro do condomínio. Ao invés de denunciarem o esquema, os vizinhos de Klein fizeram um abaixo-assinado para que ele se retirasse do condomínio. Aparentemente, eles se incomodavam mais com a falta de discrição do que com o fato de Klein ser um pedófilo a céu aberto.

O fato é que durante todos esses anos, da mesma forma que os vizinhos omissos sabiam o que se passava dentro dos portões de Klein, muito provavelmente a grande imprensa tinha consciência de que ali tinha algo a se investigar. Independentemente do que fosse, o dinheiro de Klein comprou também o silêncio da mídia. Seria totalmente inverossímil jornalistas da grande mídia falarem que nunca receberam uma dica sobre o que acontecia ali, logo eles que ficam plantados em qualquer lugar quando é conveniente. Esse silêncio custou não só alguns milhares de reais, mas também a consciência de muita gente.

Onde foi parar essa notícia?

Mesmo nos jornalões, o caso apareceu somente em artigos de opinião. Alguns desses texto eram bem rasos, escritos como se os autores estivessem mais em dúvida do que outra coisa. Num desses textos, a autora faz uma reflexão sobre a infância de Klein, que teve a família morta num campo de concentração nazista. “Será que ele teria sido uma pessoa diferente se não tivesse tido essa experiência de sofrimento extrema?”, ela se pergunta. Independentemente do que tenha acontecido, nada justifica ou ameniza toda essa perversão praticada contra essas meninas.

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Não contente com uma comparação de muito mal gosto, a autora parece estar imersa numa ingenuidade pura e genuína. O artigo intitulado “O silêncio dos bons” expõe já em seu título que quem escreveu não faz ideia de que os “bons” que ela cita, as pessoas que se omitiram, são, na verdade, cúmplices das práticas sinistras de Klein. Dá pra dizer que os jornalistas e responsáveis da grande imprensa são os bons que se calaram diante de uma apetitosa oferta financeira? Pobrezinhos, realmente estavam precisando do dinheiro. Ouso dizer, ainda, que os únicos bons silenciados nessa história são as centenas de meninas que tiveram suas vidas atravessadas por esse ciclo de violência.

De pai pra filho

Vizinhos, jornalistas, funcionários, assessores, motoristas de táxi, muita gente estaria ciente do esquema que envolvia menores de idade, incluindo crianças. Mesmo depois da morte de Samuel Klein, seu filho Saul herdou não só a fortuna, senão a mente perturbada do pai. Recentemente, o filho foi acusado por pelo menos 30 mulheres pelo crime de estupro. O modus operandi seria o mesmo do pai. Saul também teria mantido meninas em cárcere privado, praticando estupros diariamente. Sobre esse caso, os grandes veículos de comunicação também preferiram se calar.

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É algo muito comum na sociedade patriarcal em que vivemos, o comportamento abusivo ser passado de pai para filho, principalmente quando se tem tanto dinheiro envolvido. É como se o sujeito perdesse a noção do que é real e tivesse a certeza de que não há limites quando se trata de uma hierarquia violenta de gênero previamente criada. Não há muitas perspectivas quando se pensa no fim desse tipo de exploração quando os veículos de imprensa que mais têm voz decide se omitir. E na burocracia do dia-a-dia, essas histórias ficam, infelizmente, arquivadas uma em cima da outra.

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