O dia em que os estudantes da UnB detiveram um agente da ditadura

Essa história é um misto de três elementos que, curiosamente, percorrem uma série de outros acontecimentos políticos: é cômica, é trágica e didática

por Matheus Dato

A Universidade de Brasília é um local histórico dos conflitos políticos do Brasil, especialmente aqueles mais intimamente relacionados à luta de classes. Em primeiro lugar, o projeto pessoal da Universidade parece estruturar o caráter progressista sempre existente no local, apesar dos ataques frequentes aos diversos campi, alunos, professores e trabalhadores e o seu conteúdo superestrutural inevitável: fruto da elaboração de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira ao cumprirem uma necessidade premente na construção da nova capital, pensaram em um local de produção de conhecimentos que não somente servissem diretamente ao desenvolvimento soberano nacional, mas que incluíssem de maneira direta toda a comunidade de Brasília.

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A presença de uma universidade no centro do poder causava tamanha apreensão nas classes dominantes que o urbanista Lúcio Costa chegou a receber uma série de pedidos para que este local apinhado de estudantes jovens e professores de tantos matizes ideológicos fosse removido para um local mais distante do poder. O artista não deu ouvidos, e lá está a UnB.

São extremamente conhecidas as preocupações que a ditadura empresarial-militar de 1964 dispensou ao movimento estudantil como foco de resistência democrática e revolucionária. Tal qual no governo fascista de Jair Bolsonaro, a Universidade de Brasília recebeu especial atenção da repressão.

Invasão

Em 9 de abril de 1964, apenas oito dias após o golpe, o campus Darcy Ribeiro foi invadido por um efetivo de aproximadamente 900 homens, entre estes policiais militares, agentes do exército e dos órgãos civis de repressão. Nova invasão em 1965, buscando prender e interrogar professores e alunos; curiosamente, neste mesmo ano o SNI (Serviço Nacional de Informações) produziu um relatório elencando 11 itens que demonstrariam a necessidade de que o regime desmontasse o projeto político e pedagógico da UnB.

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Enquanto durou o poder oficial dos militares, a UnB esteve debaixo de sítio, espionagem e invasões (que voltaram a ocorrer em 67, 68, 73, 77 e em ocasiões subsequentes). Alunos e professores foram presos, torturados e mortos, sendo um exemplo nacional o líder estudantil Honestino Guimarães; o Diretório Central dos Estudantes da instituição hoje carrega o seu nome.

Um caso cômico, trágico e didático

A história que pretendemos contar hoje é um misto de três elementos que, curiosamente, percorrem uma série de outros acontecimentos políticos: é cômica, é trágica e, talvez mais importante, é um ensinamento precioso da História de lutas.

Em 1968, no dia 11 de julho, os estudantes da Universidade, desarmados e sub-articulados, prenderam no Restaurante Universitário o policial civil Edrovano Guimarães Gutierrez. Segundo os universitários que participaram da ação, o policial teria sido reconhecido como responsável por operações de repressão ocorridas no Colégio Ave Branca, na cidade-satélite de Taguatinga.

Acuado pela situação, o policial informou que procurava uma estudante de medicina chamada “Maria de Jesus”, desconhecida por todos. Alegou não estar a serviço no momento e que o uso de uma viatura para se dirigir à universidade se devia ao fato de seu carro pessoal estar danificado. O policial passou a noite sendo interrogado a respeito de outros agentes infiltrados na Universidade e chegou a ser removido para o Instituto Central de Ciências, que à época encontrava-se em construção. Edrovano não foi capaz de fornecer maiores informações.

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Cerco

Às duas horas da manhã, a Polícia Civil cercou a universidade, controlando todos os acessos e prendendo alguns estudantes para averiguações. Às 6h30, os homens sob o comando do delegado Paes Leme invadem o campus à procura do policial detido, sem sucesso.

Após a intervenção da reitoria, os alunos da Universidade responsáveis pela detenção do policial exigiram a presença da imprensa no local, o fim do cerco e a soltura de 23 estudantes presos como condição de soltura do agente. Após intercorrências diversas e novas prisões, Edrovano Gutierrez foi solto aproximadamente às 13h do dia 12 de julho de 1968.

Às 13h30, as forças policiais deixaram o campus após o agente policial detido assinar uma declaração de que havia sido bem tratado.

Pêra Dourada

Algumas lições interessantes podem ser retiradas desse episódio. Primeiro, apesar de todas as tensões que envolvem o confronto entre forças de um aparelho repressivo poderoso e um lado visivelmente menos organizado e que corria riscos imensos, o cômico aparece em meio à tragédia: o prisioneiro foi apelidado de “Pêra Dourada” e assim o caso ficou conhecido por todo o Distrito Federal – o sequestro do Pêra Dourada.

O fator mais importante a ser analisado nesta história relatada pelos jornais da época e revivida no bom livro A Rebelião dos Estudantes, de Antônio de Pádua Gurgel, é precisamente o caráter das atividades repressivas contra o movimento estudantil. Não existem piadas e apelidos que possam suavizar este lado.

À época do golpe, 80% do corpo docente da UnB foi demitido ou requereu a sua própria saída por questões de segurança e convicção. Lideranças estudantis sofreram subsequentes prisões cominadas com a prática abjeta da tortura; homens e mulheres foram mortos e alguns se encontram até os dias de hoje desaparecidos. As assembleias e passeatas da Universidade de Brasília foram interrompidas debaixo de tiros e cassetete, uma vez sob as ordens do embaixador estadunidense em pessoa (uma história para outra hora, profundamente valiosa sobre o caráter imperialista do regime).

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Legado repressivo

O projeto universitário sempre será alvo do fascismo em qualquer uma de suas manifestações. A manutenção de agentes da Agência Brasília de Inteligência é fato notório até os dias de hoje; o ex-ministro bolsonarista Abraham Weintraub, depois de contingenciar 30% do orçamento da Universidade, ainda tentou manobrar o Tribunal de Contas para que fossem reprovadas as prestações do ano de 2017.

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Em tempos de guerra, nos momentos em que fascismo demonstra a sua capacidade de reprimir, impor o poder da classe dominante pela força, os estudantes devem se organizar e demonstrar que sua capacidade de luta é a única arma possível para derrotar a barbárie, mesmo que ela seja maior e mais forte.

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