O colapso mental da elite econômica

O comportamento de nossa classe dominante diante da crise expõe sua burrice e mostra que Bolsonaro talvez seja mesmo seu mais fiel retrato

Imagem: Goin
por Danilo Matoso

Há algumas semanas, nosso sistema de saúde entrou em colapso devido à pandemia de Covid-19. Essa tragédia bíblica pode ser fruto de outro colapso, mais profundo e anterior: o colapso mental de nossa elite econômica. Incapaz de enxergar além de sua bolha e seus interesses imediatos, apostou no negacionismo e na anticiência. Incapaz de entender o valor da vida humana, apostou na morte. Incapaz de produzir lideranças políticas, tem em Jair Bolsonaro seu único ativo político na corrida presidencial.

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Reza o mito liberal que o capitalismo é meritocrático, e que todos aqueles que “realmente se esforçarem” — ou até mesmo “se realmente quiserem” — podem chegar a ter riqueza e bem-estar. Evidentemente não é assim. Salvo poucas exceções (sempre muito incensadas), aqueles que têm vantagens de classe e família serão ricos, e aqueles nascidos na pobreza não chegarão muito além de onde nasceram sem políticas públicas compensatórias que o permitam. Há mesmo um “mercado de bens simbólicos” que garante a distinção e a “vantagem negocial” de quem estuda com a elite, convive com a elite, fala e pensa como a elite. A pandemia evidenciou, porém, que nossa elite não estuda, não fala e nem pensa melhor que o restante da população. Ao contrário, parecem estar presos nos mitos e armadilhas mentais que ela própria criou para justificar para o resto do mundo a sua condição privilegiada.

Desde a grande crise do petróleo da década de 1970, o mundo dos negócios foi inundado por fórmulas mágicas de sucesso, livros de autoajuda. O encurtamento dos ciclos de vigência de cada paradigma econômico, fomentado pela financeirização da economia — e prevalência do capital improdutivo — tirou o chão de nossos valentes businessmen, que diariamente mudam de valores como quem troca de gravata, buscando estar sempre up to date com as novas tendências do mercado. Conceitos básicos fundantes da ciência moderna — como espírito crítico, testagem e comprovação empírica — cederam lugar a uma geleia mental idealista, descolada da realidade, autoindulgente, repleta de fantasias mistificadoras. Estamos na era dos gerentes, baseados em metas e resultados, que não têm perspectiva de vida suficiente para definir as primeiras nem aferir os segundos.

Já dizia Marx, desde seus Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, que o capitalismo aliena o produto do trabalho de seus produtores (o proletariado) mas também aliena o saber-fazer da burguesia, que não sabe produzir o que vende. Hoje vivemos um quadro extremo de alienação em que aparentemente a burguesia foi alijada não apenas da produção, mas da realidade. Afinal, “basta acreditar em si mesmo” que tudo vai dar certo.

Há porém quem caracterize a burrice justamente como a falta de espírito autocrítico. Ou seja: ser menos burro é justamente “não acreditar em si mesmo”. Uma matéria da revista Planeta sobre o tema aponta que a burrice: é contagiosa (as multidões são mais estúpidas que as pessoas que as compõem); a posição de comando amplifica a burrice (“o poder emburrece”); é inconsciente e recidiva (o burro não sabe que é burro e tende a repetir várias vezes o mesmo erro). Este último aspecto se deve também à ignorância.

A extensão da ignorância humana é um axioma das teorias do conhecimento. Como coloca até mesmo o pai da Sociedade Aberta, Karl Popper, se há algo que iguala a todos os indivíduos não é o quanto cada um de nós sabe, mas quanto do mundo cada um de nós ignora. A desproporção entre a medida de nossa ignorância e de nosso conhecimento é tal que só resta a cada um de nós concordar como velho Sócrates e admitir: “só sei que nada sei”. Talvez por isso mesmo, conforme confirmado em um estudo publicado pelos professores David Dunning e Justin Kruger em 1999 no Journal of Personality and Psychology, “quanto menos uma pessoa sabe, mais ela vai achar que sabe. Isso porque “para estarmos cientes da nossa própria ignorância sobre um tema, temos que ter um mínimo de conhecimento sobre ele. Só assim é possível identificar nossas dúvidas e as lacunas em nossa compreensão”.

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O corolário do que ficou conhecido como Efeito Dunning-Kruger é que “quando não sabemos praticamente nada sobre algo, fica fácil cair na ilusão de que conhecemos muito sobre aquilo porque não nos deparamos com a complexidade real do assunto; só com versões simplificadas dele”. O Efeito Dunning-Kruger está na base da formulação e disseminação das teorias da conspiração que fundamentam o negacionismo por trás, por exemplo, dos movimentos antivacina que têm se multiplicado nos últimos anos.

Imagem: Reprodução

Mas a burrice não se limita à teoria. Na definição do economista e historiador italiano Carlo Cipolla, a burrice é essencialmente prática: “uma pessoa burra é aquela que causa algum dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo — ou até mesmo se prejudicando”. Foi o que aconteceu com a classe dominante brasileira na eleição de Bolsonaro e principalmente na pandemia que atravessamos.

Pior que enganar os outros é enganar a si mesmo

No início da pandemia, o empresariado bolsonarista se apressou em colocar no ar — com dinheiro público — a campanha publicitária O Brasil não pode parar. Como já registramos n’O Partisano, alguns “líderes” e “formadores de opinião” da burguesia nacional, preocupados em ter que fechar temporariamente seus negócios, anunciaram em primeira pessoa ainda em março de 2020 que eram contra as medidas de higiene e de isolamento social necessárias à contenção do avanço da Covid-19. Luciano Hang — o Véio da Havan —, Roberto Justus — dono do grupo Newcomm, de publicidade —, Junior Durski — dono dos restaurantes Madero — e Alexandre Guerra — liderança brasiliense do Partido Novo e acionista do Giraffas — foram alguns dos que vieram a público com frases como “não podemos parar por conta de cinco ou sete mil pessoas que vão morrer” ou “você também deveria estar com medo de perder seu emprego”. Pegou mal — pra alguns. Guerra foi afastado da direção da empresa por seu próprio pai, e parece ter “optado” por não voltar a exibir publicamente sua burrice. Durski se desculpou, descontou seu prejuízo em demitiu 600 empregados, e desde então permaneceu em silêncio sobre a pandemia.

Nem todos tiveram o benefício da crítica paterna. Justus chegou a reconhecer seu erro de cálculo alguns meses depois (o dublê brasileiro de Trump havia estimado que morreriam até 20 mil pessoas de Covid-19 no Brasil), mas essencialmente deu mostras de não ter mudado seu ponto de vista (provavelmente como os dois primeiros). Em novembro, sua filha Fabiana Justus contraiu a doença por tentar se proteger com máscaras de tricô, que ela considerava “lindas, estilosas”. A herdeira desabafou: “estou me sentindo uma idiota”. O aprendizado com a prática é um avanço significativo. Provavelmente sem conseguir processar a extensão de seus erros até hoje, seu pai apareceu com a barba por fazer recentemente — considerada uma escandalosa heresia corporativa.

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O Véio da Havan continua sendo o mesmo fascista de sempre. Até aqui, mesmo tendo adoecido ele mesmo e perdido sua mãe para a doença, é ponta de lança no negacionismo, no ataque aos trabalhadores, na defesa de seus privilégios individuais. Sua última bandeira política, juntamente ao empresário Carlos Wizard, tem sido garantir que haja vacinação paga no Brasil — assegurando oficialmente aos ricos o direito de furar a fila de prioridades por vulnerabilidade.

Desnecessário ponderar que, se o país houvesse de fato adotado medidas de isolamento mais radicais, as teria alternado com períodos de relaxamento e de retomada da atividade econômica, permitindo a adequada sobrevivência das atividades produtivas e comerciais com a perda de menos vidas humanas. Foi o que o resto do mundo fez. Em lugar disso, optou-se por submeter toda a população a uma queda de braço entre “formadores de opinião” e cientistas. Claro que esses senhores tiveram também o apoio e o impulso de diversos especialistas que habitam no bioma da classe dominante. Não vamos falar aqui dos médicos como Beny Schmidt que negaram a existência da doença ou daqueles como Nise Yamaguchi que defendem o uso da cloroquina como “tratamento precoce” — fica para outro dia. Fiquemos na elite econômica.

Desde o início da pandemia, brilhantes analistas do mercado financeiro, apoiados num sofisticado sistema de benchmarking e métodos gráficos, se prontificaram a fazer previsões otimistas sobre o número de mortos, corroborando o ponto de vista desumano de seus clientes e empregadores. Afinal “se eles realmente quisessem” o Brasil superaria a pandemia. Foi o caso de Samy Dana — comentarista da rádio Jovem Klan, economista, Ph.D em finanças, professor da FGV — que apresentou com Alexandre Simas um estudo segundo o qual “os modelos que previram o número de mortes pelo novo coronavírus no Brasil e no mundo estão errados”. O objetivo do modelo era “ajudar governantes a saber o que fazer”. Segundo ele, o pico da doença seria no início de maio (foi em julho, para a primeira onda), os leitos disponibilizados seriam suficientes, a população já teria imunidade de rebanho e o número de mortes em São Paulo seria de no máximo 15,6 mil pessoas — o estado já contabiliza quase 68 mil óbitos hoje. Dana errou feio, errou rude.

Guilherme Benchimol, presidente da XP Investimentos e responsável por controlar grande parte do que se chama de “opinião do mercado”, avaliou em maio do ano passado: “o pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo”. Também errou feio. Claro: tudo está bem para o Brasil se está bem para a classe “A”. Parece ter sido essa a diretriz de nossa classe dominante até hoje — além das máscaras de tricô.

Melhor enganar os outros que enganar a si mesmo

No último domingo, banqueiros, empresários e centenas de economistas publicaram uma nota pedindo ao Governo Federal “medidas mais eficazes para o combate à pandemia”. Os signatários demandavam aquilo que pelo menos metade da população vinha pedindo há um ano e que deveria ser óbvio para qualquer mente minimamente ilustrada: “é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica. Não há mais tempo a perder em debates estéreis e notícias falsas”.

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É evidentemente louvável que parte da elite econômica de nosso país se posicione publicamente a favor da vida e a favor da ciência. Isso não apenas mostra que há contradições no conjunto da classe dominante como também representou uma importante retirada de apoio político a Bolsonaro et caterva num momento em que os mesmos ameaçam o país com um golpe militar. Por outro lado, cabem aí uma ressalva e uma pergunta. A pergunta óbvia é: por que demoraram um ano e 300 mil mortes para se pronunciarem? As diretrizes agora defendidas são consenso no mundo há um ano, prescritas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela maior parte da comunidade médico-científica. A ressalva é que o colapso do sistema de saúde — o déficit de leitos, equipamentos, medicamentos e sobretudo de profissionais — atinge tanto ricos quanto pobres. Acabou a trégua anunciada por Benchimol em maio do ano passado.

Na carta, deixam ainda claro que “a controvérsia em torno dos impactos econômicos do distanciamento social reflete o falso dilema entre salvar vidas e garantir o sustento da população vulnerável. Na realidade, dados preliminares de óbitos e desempenho econômico sugerem que os países com pior desempenho econômico tiveram mais óbitos de Covid-19”. Especula-se que talvez no médio prazo não seja uma boa para o comércio internacional a implementação por aqui de um regime militar negacionista, com uma população infestada de todas as cepas de coronavírus. Talvez haja aí pretextos políticos para restrições comerciais. Ou seja: a partir de uma certa escala de genocídio, a pandemia realmente pode gerar uma crise que vai afetar a todos: inflação e dólar nas alturas, pauperização generalizada e retração do consumo. Uma vez mais, não se trata aqui de humanismo, mas de lucros.

A mesma Folha de S. Paulo, que divulgou a carta, fez questão de publicar uma matéria reforçando que “empresários querem terceira via para vencer Bolsonaro ou Lula em 2022”: uma parte do empresariado manteria o apoio ao tosco capitão, mesmo que à custa do extermínio de centenas de milhares de brasileiros — e vale frisar que mesmo a carta dos economistas não faz críticas diretas a ele. É uma peça de hipocrisia, talvez feita com a intenção de não ficarem tão mal na fita, mas é só uma enganação barata se não resultar pelo menos no impeachment de Bolsonaro.

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Ao fim e ao cabo, como já mencionado n’O Partisano, mesmo com todo o dinheiro do mundo — as dezenas de MBAs em Harvard, os coaches, os movimentos populares de proveta, os coletivos políticos suprapartidários (Agora, Acredito, RenovaBR), os think tanks —, a nossa elite econômica não conseguiu produzir um candidato à presidência superior a Jair Bolsonaro. Há um colapso mental em andamento aqui, e talvez a burrice do presidente seja mesmo aquela de seus apoiadores e sua aparência seja seu mais fiel retrato. Nesse caso, valeria reescrever o bordão em forma de pergunta: is the Economy stupid?

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