O Brasil em casa não enxerga o Brasil na rua

Sem apoio governamental suficiente, uma grande parcela da população não consegue ficar em casa e seguir as recomendações da OMS, expondo-se ao risco de contágio por necessidade

Imagem: Marco Iacobucci
por Erick Memória

Em junho de 2001, o Jornal Nacional apresentou uma série de matérias sob o título “A Fome no Brasil”. A proposta era mostrar aos brasileiros que se alimentavam, os brasileiros que não tinham o que comer e como os famintos poderiam receber ajuda. Um documento fiel e dramático da fome no Brasil, uma tragédia construída ao longo de 500 anos.

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Em 2002 o governo Lula foi eleito e com ele começou um grande programa para erradicar a fome no país, o “Fome Zero”. O presidente eleito sabia muito bem do que se tratava, pois, diferente de outros, ele não conhecia a fome através do livro “Geografia da Fome” do Josué de Castro. O presidente falava sobre este problema com propriedade, porque passou fome, de modo que a segurança alimentar e o combate à miséria foram os alicerces do seu governo. Segundo Lula apontava, cerca de 900 milhões de crianças vão dormir sem comer todos os dias no mundo. E não apenas no continente africano, mas aqui e agora, no Brasil e na América Latina. O presidente questionava como alguém pode se dizer cristão e deitar a cabeça, sabendo que vizinho a sua casa tem uma criança que não comeu?

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Os 13 anos de governos Lula e Dilma não apenas garantiram o acesso de milhões de brasileiros e brasileiras à comida, mas a uma alimentação saudável. O resultado dessa preocupação com a segurança alimentar é que, após séculos de descaso, o Brasil saiu do chamado “Mapa da Fome”, segundo relatório da ONU publicado em 2014 pela FAO, chamado “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”. Entre os anos de 2002 e 2012, o Brasil reduziu em 82% a população em situação de subalimentação.

Coronavírus

Por que é necessário falar sobre a fome, para poder falar do coronavírus no Brasil? Porque antes do vírus chegar, a fome já tinha voltado a ser realidade para o nosso povo, com os retrocessos dos governos Temer e Bolsonaro. É lamentável que o povo brasileiro perca os seus direitos, sem enxergar que os mesmos culpados por tirar a comida do prato e os recursos da educação e da saúde, são os mesmos que derrubaram os governos do PT.

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A correta campanha global da OMS para ficar em casa, com o objetivo de minimizar o contágio, no Brasil é utopia. É impossível para a grande maioria dos trabalhadores do país ficar em casa, sem dinheiro para comprar comida e gás de cozinha, que vem se tornando cada vez mais caro, e o salário mínimo subindo abaixo da inflação e perdendo poder de compra, ainda mais com o real cada vez mais desvalorizado.

A questão do auxílio emergencial

A oposição ao genocida governo de Jair Bolsonaro conseguiu garantir um auxílio emergencial de R$600. Sabemos que é pouco, mas o presidente achava muito. Se dependesse dele seriam apenas R$ 200. No entanto, o mesmo presidente que acha R$600 uma fortuna para pagar ao trabalhador, garante mais de R$1 trilhão para dar aos banqueiros amigos do Ministro da Economia Paulo Guedes, uma farra danada com o dinheiro público!

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É contraditório, mas a única forma de garantir ao povo o direito de seguir as recomendações da OMS e ficar seguro em casa, é indo às ruas cobrar a responsabilidade do governo em socorrer os que perderam o emprego e garantir serviços essenciais, como saneamento básico e o acesso à água. O Brasil em casa cobra que os trabalhadores não saiam, mas não enxerga o que motiva o Brasil que sai às ruas para trabalhar. Se podemos sair para trabalhar, por que não para nos manifestar?

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