Notas do Texas para o Brasil

O lado de cá tende a seguir o exemplo de “levante racial” dos EUA? Leia as considerações de um brasileiro morando em Austin, Texas, sobre os atos e essa possibilidade

Imagem: torbakhopper
por Zeca Dom

Como todo historiador, tenho a gana de ver a história acontecer. E definitivamente, estar nos EUA, na “América” de Trump, é história todo dia.

Como historiador da Cultura, aprendi com Robert Darnton que achamos que somos familiares com outras culturas ocidentais só pelo fato sermos “ocidentais”. Mas não somos. Não por acaso, no Brasil, especialmente entre os intelectuais, existe uma mania de achar que somos familiares com o que acontece nos EUA. Nada mais equivocado, penso eu.

Isto aconteceu, por exemplo, à época da exibição do filme do Pantera Negra: setores progressistas no Brasil entenderam a ‘mensagem’ do filme como um grande apelo a todos os negros do mundo. Será? Além daquele belo filme de heróis ter um grande cast de atores negros, uma nação africana ultra moderna e uma “clara” mensagem do vilão ( olhe só! E não do Black Panther) para todos os negros do mundo: “Bury me in the ocean, with my ancestors that jumped from the ships, because they knew death was better than bondage”. Claro, claro. O mesmo Erick Killmonger que passou décadas trabalhando pra a CIA derrubando governos no terceiro mundo: mas este detalhe convenientemente passou batido na intelectualidade brasileira.

Me parece que algo semelhante está em curso nas últimas semanas, por conta do assassinato de George Floyd. Este homem, negro, foi recentemente mais uma das vítimas da violência policial norte- americana, que insiste em matar negros sistematicamente em quase todas as dezenas de estados. Seu martírio foi filmado, viralizado, e graças à Internet desencadeou uma onda de protestos – muitos deles violentos – nos EUA.

(Devo lembrar, entretanto, que não foi o único evento do tipo filmado este ano. E temo que não será o único.)

Esta onda de protestos ocorreu também no Texas. Estive em um destes rallies, domingo passando em Austin, Texas. Residindo aqui por quatro anos, historiador e estudioso do ativismo negro no Brasil, tive de ir para o evento, marcado para 1 pm. Mesmo sob risco de ser preso e automaticamente deportado.

Preciso lembrar que já havia tido um rally no dia anterior, e a polícia fez três vítimas. Resolvi ir de bicicleta, e já todo paramentado – capacete, máscara e tal – uma amiga brasileira me liga por volta de 12 pm pra avisar: o protesto havia sido cancelado pelos organizadores. O local onde seria o ato – o Congresso do Texas – foi fechado pelo governador para evitar tumultos.

Surpresa. Mas ainda assim, decidi ir para ver como estava o downtown. Chegando lá, outra surpresa: centenas de pessoas simplesmente ignoraram o aviso na Internet e foram mesmo assim. Estavam todas do lado de fora do Congresso. Do lado de dentro da cerca, dezenas de policiais de choque. Assim que cheguei na frente do portão, outros policiais fecharam todas as vias de acesso de carro ao Congresso. Pura sorte aliás: por volta de 1 da tarde, horário previsto para o evento, um jipe militar tipo hummer, com uma bandeira americana e altos falantes com palavras de ordem da extrema-direita, tentou furar a barreira policial. Soube depois que era a turma do InfoWars, turminha alt-right manjada de Austin.

O evento foi muito tranquilo. Definitivamente bem diferente do que estava ocorrendo em outras cidades. Mas se observar bem os noticiários, mesmo o caos nas outras cidades americanas tem muito a ver com a particularidade de cada uma delas. E é o caso de Austin: a cidade é tipicamente democrata, onde a Igreja Metodista apoia a comunidade LGBT e a igreja da University of Texas faz palestras do tipo Jesus was a feminist. Desse modo, o evento tinha todo tipo de ativista. Dependendo de onde você estava aliás, mal poderia ver pessoas negras.

Cabe aqui um parêntesis sobre esses eventos no Texas. É muito comum, aqui, grupos políticos apoiarem outros grupos. Então se a comunidade LGBT vai para um evento, a turma do meio ambiente vai lá dar uma força. Foi essa cultura política que derrubou a ida de Bolsonaro a Nova York e estragou o evento dele em Dallas.

Acompanhei o evento até onde deu; por volta de duas e meia, a manifestação saiu do Congresso e desceu a rua principal rumo à Prefeitura. Como eu estava com muita sorte – não teve confusão e o evento foi realmente pacífico, com gente distribuindo máscaras e água gelada – fui pra casa. Aí fui ler o que estava se falando no Brasil.

Muitos ligados ao ativismo negro, entenderam o que estava acontecendo aqui como um “sinal” para um levante racial no Brasil. Sério. O que me fez pensar novamente nesta mania de acharmos que o que acontece nos EUA é facilmente “interpretado” pela intelectualidade brasileira. Vamos encarar os fatos. Este não é o primeiro levante neste país que foi motivado pela violência policial contra a população negra. Lembre, por exemplo, de Los Angeles em 1992.

Os EUA são um barril de pólvora étnico em determinados estados. Diferentemente do Brasil, casamentos inter-étnicos não são tão comuns, especialmente entre negros e brancos. Para nós como estrangeiros são gritantes as diferenças culturais entre diferentes grupos etno–raciais. Existe ainda uma legislação pró-diversidade explícita que é respeitada. Mas ninguém disse que todas as pessoas gostam. Ainda, grupos como a Ku Klux Klan existem assim como grupos separatistas negros: no Texas tem quase 100 destes grupos.

Ainda, no que tange aos negros, muitos no Brasil não entendem que aqui, até um dia desses, eles eram linchados em cidades do interior, com direito a tirar fotos do negro morto e mandar como cartão postal. Acha que eu estou exagerando? Então digite no Google “lynching”. E segure o estômago.

Não quero de forma alguma dizer que o racismo no Brasil é “light”. Não é este o ponto. Nem que eu não queira que haja um “levante racial”. É que os EUA são outro país, e o que está acontecendo aqui não é exatamente um “sinal” para nada. Mas ainda assim buscamos sentidos ocultos sobre o que acontece aqui, sem ao menos buscar entender o pensamento destes gringos. Hoje por exemplo li uma interessante matéria na Folha de S. Paulo. O articulista apontou um livro de 1930, que “inspira o protesto de negros nos EUA”. Pense comigo: o pensamento negro americano tem mais de cem anos: DuBois, Douglass, Robins, dentre tantos. Você realmente acha que apenas um livro iria “inspirar” o protesto negro americano? Observe as imagens da CNN, NBC ou mesmo da FOX News: nos protestos não são só negros que estão nas ruas, e parte destes eventos inicialmente de inspiração racial está sendo rapidamente apropriado por diversos grupos como oportunidade de ir contra o governo Trump, e o confinamento forçado pela Covid-19. E mais, até a extrema-direita está indo para alguns destes eventos.

Agora, vamos dar a real: se isso que está acontecendo no Brasil, tirar o Bozo, tá valendo. Independente da inspiração.

E tenho dito.

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