Necropolítica, vacina e corrupção: as denúncias continuam

Ignorância de alguém que tem a inteligência de um poste ou uma política de governo que sacrifica vidas em nome do lucro?

Ilustração: Alexandre Teles
por Alexandre Lessa da Silva

No final de fevereiro de 2020 foi identificado, oficialmente, o primeiro caso de Covid-19 no Brasil, em março chega a transmissão comunitária e, em abril do mesmo ano, Bolsonaro já considerado “o líder do movimento de negação do coronavírus” no mundo, conforme atesta um artigo da Harvard Kennedy School citado em um relatório no site do governo dos Estados Unidos. Não é à toa que tantos artigos sobre o negacionismo do presidente são encontrados no site de busca da PubMed e da National Library of Medicine. Daí, a conclusão é que o primeiro passo de Bolsonaro e seu governo, em relação ao Sars-CoV-2, é o discurso negacionista, apesar de todas as provas do perigo do vírus. A questão, aqui, é se o presidente negava a ameaça pandêmica por ignorância ou por necropolítica, uma vez que era de se esperar que a pandemia avançasse com muito mais força em relação às minorias e aos mais pobres.

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Em função da recusa do governo de promover lockdown e afastamento social, medidas de contenção não farmacológicas, como o uso de máscaras, e de incentivar o contato direto das pessoas e medidas farmacológicas sem nenhuma eficácia e, muitas vezes prejudiciais à saúde, como no caso da cloroquina e do restante do “kit Covid”, dentro do âmbito de um falso “tratamento precoce”, Bolsonaro acabou por ser o principal responsável por tornar o país o centro da Covid-19 no planeta. Ignorância de alguém que tem a inteligência de um poste ou uma política de governo que sacrifica vidas em nome do lucro?

Utilizando o “tendenciosismo de interesse próprio” e a crença burguesa que a propriedade, incluindo o capital, é o principal valor a ser defendido pelo indivíduo, o governo trabalhou para que os detentores dos meios de produção (meios de trabalho e objetos de trabalho) forçassem os seus trabalhadores a irem às ruas protestar contra medidas de afastamento social  (na realidade, afastamento físico) promovidas por governadores e prefeitos. Assim, Manaus, por exemplo, registrou protestos contra o fechamento do comércio antes da gigantesca onda de COVID-19 do início do ano. Como dizia a campanha da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), “o Brasil não pode parar”, pode morrer, mas não pode parar.

Não pode ficar de fora os ataques de Bolsonaro às vacinas. “Você vê o cara (brasileiro) pulando no esgoto”, “da China nós não compramos”, “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”, “pelo menos metade da população diz que não quer tomar essa vacina”, “a vacina chinesa de João Doria”, “morte, invalidez, anomalia. Tudo isso tem um objetivo, uma vez que Bolsonaro, apesar da demora que custou milhares de vidas de pessoas amadas e conhecidas de cada um de nós, acabou por comprar vacinas. Certamente, essas mortes geraram uma certa economia para a Previdência, uma diminuição mínima de nosso gigantesco exército de reserva e uma redução de setores, classes e povos marginalizados pela visão da extrema direita, sem prejudicar em nada o lucro das classes mais privilegiadas, pelo contrário, a economia pandêmica foi boa para tais classes.

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Como foi dito, Bolsonaro acabou por comprar vacinas, mas ele não dá ponto sem nó. Denúncia dos Irmãos Miranda de prevaricação no caso da vacina Covaxin, corrupção na negociação das vacinas da Convidecia, pedido de propina do Ministério da Saúde para a compra de vacinas AstraZeneca de uma empresa estadunidense. Mas os escândalos das vacinas não param aí. Agora, a Agência Pública noticia que “um grupo evangélico fez oferta paralela de vacinas ao Ministério da Saúde e Prefeituras”, confirmando o aviso que dei, nos artigos citados, que todos os contratos de vacinas do governo precisam ser investigados, uma vez que as vacinas são os respiradores do Governo Federal.

A organização evangélica citada pela Agência Pública é a SENAH (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários), cuja página não consegui ter acesso e o perfil no Twitter não mais existe. Sobrou apenas, por enquanto, a página do Facebook, em que o reverendo Amilton Gomes aparece em uma foto comemorando o dia do evangélico, defendendo a paz mundial entre os religiosos. Na informação da página é dito: “SENAH/SEIAR sustentando os valores morais e espirituais que a religião lhe permite, mais (sic) sua temática maior é a busca do respeito na transformação do ser humano…” O erro de Português já demonstra onde o visitante foi parar, assim como uma nota de repúdio à Escola de Samba Gaviões da Fiel, por sua “verdadeira ofensa aos religiosos tradicionais do Brasil e do mundo inteiro”. Interessante, também, que não há nenhum post de 2021, pelo menos agora.

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Em março, segundo a Pública, houve a oferta de vacinas da AstraZeneca e da Johnson para prefeituras e estados, por uma organização evangélica que   articulou a compra de vacinas com o Ministério da Saúde O próprio reverendo Amilton Gomes, citado acima, publicou fotos em suas redes sociais com um texto que confirmava sua reunião com representantes do Ministério para articulação da compra de vacinas. Nessa reunião com o Ministério ainda estiveram presentes o major da Força Aérea Brasileira (FAB) Hardaleson Araújo de Oliveira e o policial militar Luiz Paulo Dominguetti, o famoso “cavalo de troia” da CPI da COVID. Dominguetti, por sinal, afirmou à imprensa que o diretor do Departamento de Logística (DLOG) do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, teria cobrado propina de 1 dólar por dose de vacina, algo que foi reafirmado à CPI. Roberto Ferreira Dias, para variar, foi indicado pelo deputado Ricardo Barros (PP-SC), líder do governo na Câmara, para o cargo e está envolvido em uma série de denúncias. Indicado ainda na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM), Dias foi exonerado em 30 de junho, somente após o caso de corrupção se tornar público. A ligação entre Dias e Barros também passa pelo ex-deputado Abelardo Lupion (DEM-PR), um outro padrinho de Dias. Lupion foi secretário estadual de Infraestrutura pela então governadora do Paraná, Maria Aparecida Borghetti, mulher de Barros.

A denúncia da Agência Pública ainda fica pior depois da revelação que o preço cobrado pela vacina da Astrazeneca não foi de 11 dólares, conforme a Pública mencionou, mas de 17,50 por dose. Assim como na denúncia da Covaxin, que pulou de 1,34 dólar para 15 dólares, a AstraZeneca passou de 5,25 dólares (preço da vacina importada da Índia) para os 17,50 acima, referente à compra de 400 milhões de doses, conforme planejado.

A referência a Ricardo Barros não para em Roberto Dias. Em 2017, quando Barros era ministro da Saúde do governo Temer, a Global conseguiu um contrato de 20 milhões de reais com o seu ministério, com o objetivo de fornecer medicação para doenças raras, sem, no entanto, entregar os produtos. Francisco Emerson Maximiano é um dos sócios da Global Gestão em Saúde e também um dos donos da Precisa Medicamentos, a responsável pela intermediação da vacina Covaxin. Aliás, não foi à toa que a Precisa cresceu cerca de 6.000 % durante o governo Bolsonaro, algo que também precisa ser investigado.

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O ex-ministro da Saúde e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) já afirmou que a própria MP da vacina teve participação direta de Ricardo Barros, demonstrando que a MP foi um manual do esquema de corrupção com a digital do próprio Bolsonaro. Para Padilha, os pontos mais perigosos da MP, segundo o Brasil247, são a autorização para pagamento antecipado, pagamento integral garantido, mesmo sem entrega do produto, possibilidade de contratação de empresas com sanção de impedimento ou de suspensão de contrato com o Poder Público. Dessa forma, a porteira foi aberta pela MP e a boiada estava livre para passar.

Uma última questão precisa ser colocada aqui, uma vez que não vi esse questionamento ainda na imprensa. O governo da África do Sul pagou 5,25 dólares por dose da vacina AstraZeneca, na compra de um milhão e meio de doses, o mesmo preço pago pelo governo brasileiro na AstraZeneca importada (a fabricada pela Fio Cruz custa foi 3,16 dólares). Entretanto, a União Europeia pagou apenas 2,15 dólares, o Reino Unido 3 e os Estados Unidos 4 dólares. O vice-diretor geral de saúde da África do Sul, Anban Pillay, disse que foi informado que “US$ 5,25 era o preço definido para um país classificado pelo Banco Mundial como de renda média-alta”. “A explicação que nos foi dada para que outros países de alta renda tenham um preço mais baixo é que eles investiram [na pesquisa e desenvolvimento], daí o desconto”. Evidentemente, o Brasil foi um dos países que participaram das fases da pesquisa da AstraZeneca e, ao mesmo tempo, comprou uma quantidade muito maior que a África do Sul. Então, por que o governo brasileiro pagou o mesmo valor?

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Deixo a pergunta e espero que a resposta seja encontrada em breve.

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