Nazismo se prolifera pelo Brasil atrelado à onda bolsonarista

Antropóloga identificou 530 células nazistas no país até esse ano, em 2019 o número era de 334, mostrado um crescimento que precisa ser confrontado

Imagem: Reprodução
por Alexandre Lessa da Silva

Um caso aparentemente curioso tomou boa parte das manchetes da mídia brasileira na semana que passou. Um professor, da Escola Estadual Amaral Wagner, em Santo André (SP), apareceu andando pelas dependências da escola vestido com  indumentária semelhante àquela da Ku Klux Klan, grupo de supremacistas brancos estadunidense conhecido por sua violência contra as minorias, em especial contra os negros. Apesar de, em uma declaração posterior, o professor afirmar que se vestiu dessa forma para divulgar uma peça teatral, o caso urge uma investigação e o ato, seja pelo motivo que for, merece repúdio. Entretanto, o fato não é um caso isolado. No Brasil, segundo a antropóloga Adriana Abreu Magalhães Dias, há ao menos 334 grupos nazistas, 69 só em Santa Catarina, espalhados por todo o território nacional e fomentados pela necropolítica bolsonarista, como será demonstrado.

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Em 24 de dezembro de 2019, a produtora do Porta dos Fundos, no barirro do Humaitá, Rio de Janeiro, foi alvo de um ataque terrorista em que dois coquetéis molotov foram lançados contra sua fachada. O único identificado foi Eduardo Fauzi Richard Cerquise, um economista e presidente da Frente Integralista Brasileira do Rio de Janeiro. Todos já conheciam o caráter violento de Fauzi. Em 2013, Eduardo Fauzi agrediu o secretário de Ordem Pública do Rio de Janeiro, Alex Costa,  enquanto concedia uma entrevista ao vivo. Naquela época, já era filiado ao PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito, e também era presidente da Associação dos Guardadores de Carro São Miguel. O que não foi divulgado era que pertencia ao movimento integralista, uma vertente tupiniquim do fascismo que teve sua origem nos anos 1930 com a figura de Plínio Salgado e com a participação de nomes como Miguel Reale e Gustavo Barroso. Apesar de ser anterior à Segunda Guerra Mundial, o integralismo ganhou vida nova desde 1990, com o surgimento do Centro de Estudos Históricos e Políticos (CEHP), em Santos (SP), o Núcleo Integralista do Rio de Janeiro (NIRJ) e a Juventude Nativista de Niterói (JNN), sem falar nas várias seções da Frente Integralista Brasileira (FIB).

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Entretanto, não só do integralismo vive a extrema direita, a “alt-right” brasileira. Em 2013, por exemplo, uma célula da Ku Klux Klan surgiu em Niterói (RJ). Essa célula contava com 14 membros e teve sua fundação no mesmo dia em que 5 homens agrediram, com um taco de beisebol, um nordestino. Todos os cinco possuíam tatuagens de símbolos nazistas, algo que remete ao momento atual da Klan, uma vez que, atualmente, a Klan está envolvida numa relação simbiótica com o neonazismo.

No último mês de 2021, foi muito pouco divulgada pela grande mídia uma operação policial contra alvos neonazistas em sete estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Santa Catarina. A Operação Bergon, nome dado em homenagem à freira francesa Denise Bergon, responsável por esconder crianças judias entre alunos católicos durante a Segunda Guerra, apreendeu armas de fogo e bombas que seriam usadas no final do corrente ano.

No Rio de Janeiro, a Operação Bergon, realizada pela Dcav (Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima) e Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), identificou 31 pessoas de 3 grupos autointitulados neonazistas. O grupo, formado por maiores e menores de idade, reverenciavam, em suas conversas, símbolos nazistas, propagavam discursos de ódio, ideologias nazistas e até possuíam um campo de treinamento paramilitar no Parque do Mendanha, na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro. Na casa de um dos membros do grupo, Mengele NS, dentro de uma comunidade da Zona Oeste, foram encontradas armas, fardas e desenhos nazistas. O recrutamento para atos de vandalismo e protestos era realizado através das redes sociais. Pelo andar da carruagem, esses atos eram apenas o começo de algo muito maior.

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Para quem ainda acha pouco tudo que foi narrado até aqui, ainda há muito mais. As investigações que deram origem à operação em questão tiveram sua origem na apreensão de aparelhos eletrônicos de Fabiano Mai, responsável pelas mortes de 3 crianças e 2 professoras a facada em uma creche de Saudades (SC). Nesses aparelhos, foram encontradas conversas com o filho de um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que tem transtornos mentais, entre outros indivíduos. Nessas conversas, o discurso de ódio e o racismo eram disseminados. Através da apreensão e análise dos equipamentos do filho do desembargador, que mora na Zona Sul do Rio, foram rastreados pelo menos 3 grupos neonazistas em sete estados. Alguns membros desses grupos já eram monitorados pelo serviço de inteligência dos Estados Unidos e ameaçavam atacar escolas brasileiras.

Segundo o próprio governo dos Estados Unidos, trazido aqui pela primeira vez, “os esforços investigativos das autoridades brasileiras e da U.S. Immigration e Customs Enforcement (ICE) Homeland Security Investigations (HSI) resultaram na detenção de quatro indivíduos envolvidos em ameaças on-line, crimes de ódio, e no planeamento.” Violência contra judeus e negros faziam parte desse planejamento, segundo as agências estadunidenses. Um dos membros dessas células neonazistas afirmou que pretendia usar os explosivos encontrados durante a celebração do ano novo em São Paulo, o que poderia gerar inúmeras vítimas.

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Em pesquisa mais recente, a mesma antropóloga responsável por mapear 334 células nazistas no Brasil, citada acima, conseguiu chegar a 530 células. O crescimento dessas células é atrelado no discurso de ódio de Bolsonaro. Como as células, os sites que proliferam esse tipo de ideologia também aumentam, apoiados nesse discurso. As conexões entre Bolsonaro e o nazismo são claras e concretas, segundo a pesquisadora citada, o que causa estranheza para a mídia internacional, que não consegue entender como alguém que agita a bandeira de Israel mantém relações tão estreitas com aqueles que defendem a ideologia nazista. Pelo que tudo indica, Israel e os judeus funcionam como uma espécie de escudo para esconder o nazismo que está no interior de cada copo de leite tomado por Bolsonaro. A história já nos ensinou o perigo de todo tipo de fascismo, em especial o nazismo. Todos os elos já estão expostos, resta saber se o Brasil quer continuar nessa rota para uma nova Noite dos Cristais.

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