Não sairemos das ruas, não podemos sair!

Aprofundar a unidade do movimento e continuar as manifestações até a derrubada do governo de Jair Bolsonaro e seus auxiliares é o que importa ao atual momento

Foto: Sergio Silva
por Matheus Dato

Os atos de rua do dia 29 de maio de 2021 abriram, indiscutivelmente, uma nova fase conjuntural da luta contra o fascismo brasileiro. De maneira geral, é preciso entender os três momentos que explicam o fenômeno e explicitam o seu caráter: o contexto anterior, a atualidade e o prognóstico para o futuro.

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A luta contra o golpe de 2016 foi levada, de maneira sumária, sem o apoio organizativo das forças políticas mais eminentes do movimento operário e estudantil: o institucionalismo do Partido dos Trabalhadores, da Central Única dos Trabalhadores e da União Nacional dos Estudantes engessou o enfrentamento violento que se fez necessário nesta conjuntura de outrora, dando ares apenas demonstrativos ao povo que foi às ruas. Para além disso, a centralização da defesa do mandato da presidenta Dilma Rousseff apareceu como pauta prioritária dos movimentos de luta contra o golpe, e não sem razão, mas desde então experimentou-se uma cegueira a respeito do quadro maior: não se percebeu, ao fim, que o golpe não era somente contra a presidenta e seu partido mas sim uma ofensiva fascista contra toda a classe trabalhadora.

Por outro lado, a esquerda que se opunha ao ciclo petista de governo ou não encarou o golpe como possibilidade ou deu apoio direto e indireto à derrubada do governo, como foi o caso do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado e setores particulares do PSOL. Desta maneira, a hegemonia política da classe dominante e do imperialismo subiram a um patamar insustentável – literalmente, a esquerda e a classe trabalhadora haviam sido derrotadas.

Deste período até o momento atual, as forças de esquerda foram completamente incapazes de barrar qualquer retrocesso perpetrado pela direita. Salvo momentos pontuais da luta pela educação no ano de 2019, a derrota foi a tônica do movimento dos trabalhadores e as mais diversas causas entremeiam este processo: o fortalecimento da classe dominante por meio da superexploração do trabalho e o aumento relativo de seus lucros, a coesão atingida pela burguesia em torno de um projeto golpista patrocinado pelos militares e pela imprensa, a fascistização da sociedade brasileira e as sucessivas desmobilizações das bases proletárias, a inércia das direções do movimento e a ausência de força progressista de uma maneira geral implicaram no quadro em que prenderam Lula, elegeram Bolsonaro e tomaram o aparelho institucional do Estado de uma forma especial.

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No contexto internacional, a crise capitalista nunca superada de 2008 abriu um ciclo de instabilidade política e necessidade de manutenção radical e violenta da ordem que abriu o espaço fundamental do fascismo. A derrubada de governos populares em África e na América Latina, o aumento da violência colonial de Israel contra o povo palestino e a eleição de um projeto de inspiração fascista na maior potência hegemônica do imperialismo, os Estados Unidos, acentuaram a luta de classes e impuseram sucessivas derrotas à luta dos povos em todo o mundo.

Impulso irrefreável

Com a pandemia de Covid-19, tornou-se inegável mesmo às direções mais recuadas e conciliadoras que o projeto para o Brasil não possui outro caráter senão o extermínio do povo em favor do aumento do poder e da riqueza de uma classe burguesa apátrida. Em uma conjuntura como esta torna-se impossível conter o impulso de luta das massas – nisto vemos o ato antifascista das torcidas organizadas em 2020 expulsarem bases bolsonaristas das ruas e a escalada de violência e repressão contra o movimento popular.

As direções da classe trabalhadora sofreram a enorme pressão da queda de popularidade do bolsonarismo e a crise política e sanitária agravada com a ausência de vacinas e medidas de manutenção do emprego, da saúde e da vida. As bases das frentes, partidos, organizações sindicais, estudantis e demais movimentos apontam unanimemente que o quadro brasileiro não é tão diferente do restante da América Latina e que não existem mais condições de conter a revolta nas ruas.

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A atualidade ainda não traz de maneira clara qualquer indício material de que a equação deixou de funcionar em favor da direita. O golpe continua sendo o partido político dominante no campo da burguesia nacional e a pressão popular ainda não foi capaz de criar uma fratura séria entre as facções do poder do capital; contudo, não se pode negar que, ainda que boicotada expressivamente por setores locais e nomes de peso do Partido dos Trabalhadores e ameaçada pelo aparelho repressor do Estado a todo momento, a realização de mobilizações massivas contra o governo e o fascismo bolsonarista no Brasil e em todo mundo, contando com a adesão explícita dos setores mais avançados de todos os partidos de esquerda, com a classe operária e o campesinato, abre uma nova fase de lutas no Brasil que produz, potencialmente, uma nova correlação de forças capaz de superar a desmoralização e degeneração de uma esquerda institucionalizada e distante da materialidade política e, principalmente, enterrar o cadáver insepulto do fascismo brasileiro.

Adesão na classe média

Entre as milhares de pessoas que tomaram a Esplanada dos Ministérios em Brasília-DF, em frente à sede do poder político, se encontravam não somente movimentos de luta pela terra, por moradia, partidos políticos e suas juventudes e representantes de todo o movimento sindical. Percebia-se a presença de diversos representantes de setores médios da sociedade, funcionários públicos, profissionais liberais e muitos indivíduos que não possuíam qualquer expressão política organizada.

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O sinal que se dá é de que a esquerda está agora em condições de levar a sua política a um dos setores mais fascistizados da sociedade brasileira: a classe média. A disputa política atinge setores cada vez mais amplos da sociedade civil.

Cabe agora organizar de maneira cada vez mais radical o povo para evitar que a política burguesa de massacre que mostrou as suas garras no ato de Recife-PE se mantenha o modus operandi oficial e inquestionado. No Distrito Federal, os manifestantes foram sumariamente impedidos de portar bandeiras de mastro, uma jogada de esvaziamento e supressão de direitos democráticos.

Audácia!

Mais importante do que qualquer outra coisa, precisamos continuar. Não retroceder. Nas palavras de Danton: “audácia, audácia e audácia!”

Deixar as ruas agora, e entregar a vida do povo nas mãos dos seus inimigos, será uma derrota que não prevê recuperações. O saldo é positivo até o momento e ninguém mais é capaz de questionar que está aberto um novo período da luta de classes no Brasil. Aprofundar a unidade do movimento, a organização e disciplina militante do povo trabalhador e continuar as manifestações até a derrubada do governo de Jair Bolsonaro e seus auxiliares é o que importa ao atual momento. O resto é divisão e ilusionismo.

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Lutaremos, venceremos.

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