Não, o aborto não é uma pauta secundária da qual Lula possa abrir mão

Fala do ex-presidente sobre legalização do aborto causou pânico em alguns petistas, que parecem duvidar da potencialidade de Lula para ganhar as eleições.

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por Bibi Tavares

Na última terça-feira (5), num encontro com ex-integrantes do Parlamento Europeu, o ex-presidente Lula falou, de forma até corajosa, sobre o aborto. Em suas palavras, “É preciso transformar o aborto em uma questão de saúde pública”, destacando que “madame pode fazer um aborto em Paris”. No entanto, sua fala parece ter criado pânico em um setor da esquerda, mais especificamente nos petistas, que acreditam ter sido um tiro no pé colocar esse debate para jogo quando há uma eleição acirrada a caminho

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De fato, o aborto sempre foi motivo de polêmica. Toda eleição essa discussão surge e a direita tenta utilizá-la para atacar as candidaturas de esquerda, mas isso realmente tem potencial para atrapalhar a campanha de Lula? Tenho a impressão de que não.

O movimento de mulheres praticamente implora, há anos, para que essa pauta seja debatida de forma ampla e que a descriminalização do aborto, seja enfim concretizada. Mesmo assim, durante os governos petistas, incluindo o ápice de aprovação do governo de Lula, essa reivindicação foi muito negligenciada. Na eleição de 2018, quando Haddad e Manuela D’Ávila aceitaram a responsabilidade de derrotar Bolsonaro, infelizmente deram cabo dessa pauta no programa político da candidatura, usando o aborto como moeda de troca por apoio de setores da igreja. Morreu aí, e em tantas outras oportunidades que o PT teve, não só a chance de sustentar um discurso compatível com a esquerda não-moralista, mas também muitas mulheres vítimas de abortos inseguros.

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É compreensível o medo que algumas pessoas têm de que essa fala de Lula atrapalhe sua campanha, mas soa como uma falsa simetria argumentar que as pautas principais precisam girar somente em torno de “arroz e feijão no prato”, como se o pobre, além de ser ignorante, não precisasse de determinados serviços de saúde. O aborto não é uma pauta secundária, pelo contrário. Comida no prato está intrinsecamente atrelada ao direito à interrupção de uma gestação, afinal, quanto mais filhos, mais arroz e feijão será necessário por na mesa.

Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto, realizada em 2016, pelo menos 4,7 milhões de mulheres ja fizeram pelo menos um aborto no Brasil. O perfil dessas mulheres tem se mantido: 67% têm filhos, 88% declaram ter religião, sendo que 56% são católicas e 25% evangélicas ou protestantes. Isso mostra haver aí um público que sabe bem o que é por comida na mesa e ter a responsabilidade de criar um filho.

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Falar o óbvio sobre aborto, gravidez indesejada e saúde não é dar munição para a direita como se fosse uma coisa nova, já que essa não é uma discussão incipiente. É, na verdade, contemplar 4,7 milhões de mulheres brasileiras.

Tem quem argumente que isso pode fazer Lula perder votos nas periferias, ou pelo menos deixar esses eleitores em alerta, entretanto, fazendo um giro nesses números sobre aborto, é impossível inferir que não tenham mulheres periféricas precisando acessar esse serviço. Contaminar a discussão com premissas como a de que pobre só quer saber de encher a barriga prejudica e apaga dados concretos. Mas não dá para encher a barriga de mulher morta, né?

Somente em 2021, o SUS realizou mais de 80 mil curetagens, processo que costuma ser necessário quando o aborto acontece de forma incompleta, na maioria das vezes provocado. Dentro dessas mais de 80 mil curetagens, há uma infinidade de mulheres negras e periféricas que sentiriam firmeza em Lula legalizando algo que todos aplaudem quando é no Chile, na Argentina e outros países.

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Um compromisso com a classe trabalhadora

A obrigação de Lula não é com a direita conservadora, embora haja conservadores nas classes mais baixas, mas sim com a esquerda e as pautas que pretendem melhorar a vida do trabalhador, levando ao máximo o fim da opressão e exploração da classe trabalhadora. Ocultar uma questão polêmica por medo de perder votos faria de Lula alguém que não confia no próprio taco, como se não fosse o presidente com maior índice de aprovação em seu governo e o preferido nas pesquisar atuais.

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Lula só tem a ganhar radicalizando seu discurso, por mais que seja difícil engolir um possível vice como Geraldo Alckmin. No mais, não cabe a esquerda fazer o papel de moralistas da história, essa parte pode ser deixada para a direita, que tem tudo para sair esmagada em 2022.

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