Não é só a economia, idiota!

O bolsonarismo não elegeu as saudades do “milagre econômico”, operado para as elites por Delfim Neto, mas sim a nostalgia com o esquadrão-da-morte do Fleury, dos estupros do Ustra, do “prendo-e-arrebento”

General Braga Netto, Ministro-Chefe da Casa Civil, ajuda idoso debilitado a atravessar o palco. Imagem: Ministério da Economia/Flickr
por Marcus Dunne

Thomas Skidmore, em seu “Brasil, de Jango a Tancredo”, não cansa de apontar a preocupação dos generais-presidentes, sobretudo os castelistas, com a aparência de legalidade e com guardar distância em relação ao estereótipo de caudilho militar latino-americano. Claro que eles, adequando as regras a si pra depois segui-las, não fazem mais do que um papelão. Já a abertura iniciada por Geisel – com mão-de-ferro e mais controle pessoal do que o exercido por Médici – é levada a cabo, apesar das bombas em banca de jornal e do fiasco no Riocentro aprontados pela nossa aloprada linha-dura.

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JORNAL DO BRASIL, em sua edição de 1º de maio de 1981, trazendo a notícia sobre as bombas Rio-Centro.

Eram oficiais de carreira com boa formação, eram políticos. Ao lado das estrepolias da linha-dura e seus tentáculos na arapongagem e na tortura, que criavam e se alimentavam da caça às bruxas mesmo depois de debelada a pífia resistência armada da ‘ameaça comunista’ que nunca houve. O atual presidente jamais teria chegado a qualquer cargo importante durante tal regime: não tinha patente, e a qualidade de boca-suja, sua única, embora não fosse impedimento, tampouco era suficiente.

Chamam de espantalho a imagem caricata dos defeitos, reais ou não, de uma ideia ou de alguém. Elegemos o pior espantalho que um bom apanhado dos lugares comuns sobre o regime militar poderia produzir, aí incluídos os da esquerda apressada, já que toda a barbárie da época virou qualidade aos olhos dos bolsonaristas, provando uma fragorosa derrota nos nossos mal-traçados caminhos civilizatórios.

Só com esse pano-de-fundo é possível compreender como a divulgação do vídeo da reunião do presidente com seu ministério resultou em crescimento do presidente, por não apresentar nada além do já dito, como se o já dito não fosse grave o suficiente. Os esforços para blindar a família – e aqui se identifica com ele quem poria a família acima de tudo e todos – são desde sempre públicos e notórios, como são os laços entranháveis com os milicianos, essa bandidagem formada por gente que consegue ser expulsa das nossas já incrivelmente corruptas polícias. O problema é que tudo isso era sabido por todos, e foi sorrateiramente esquecido pela imprensa que apoiou o golpe a partir de 2013, ativamente trocando a pauta das manifestações por outras tão ‘populares’ que levaram às ruas gente que nunca tinha andado de metrô, devidamente indignada. 

Essa mesma imprensa surfou na popularidade que lhe ia granjeando a campanha de ódio contra o PT, e não creio que um jornalista sequer, dos que forjaram termos como petralha ou esquerdopata, tenha falhado em perceber a profunda irracionalidade de seu público mais raivoso, base do bolsonarismo, que se volta contra esses atônitos Frankensteins, e segue apoiando o presidente, pois os erros do Messias é que são o acerto, por definição.

27/08/2019 19ª Reunião do Conselho de Governo
Os ratos se divertem. Imagem: Marcos Corrêa/Fotos Públicas

“Não vão foder a minha família” não adiciona prova alguma porque todas estavam e estão dadas, como a gravação de Jucá prova que o papel da Lava-jato estava completo, quando chega a hora do acordo ‘com Supremo, com tudo’, como recibo de pedágio não prova nada e outras barbaridades que passaram batidas enquanto interessavam ao golpe que, finalmente, escapou completamente das mãos dos golpistas, pois no circo que é o executivo de hoje, a única voz em que eles confiam, Guedes, fala grosso, mas é justamente à medida em que percebe a falta de coordenação para o seu e qualquer outro projeto.

A bolsa sobe porque o mercado acredita que na ‘guerra de versões’ entre Moro e o presidente, a destezinho tem chances de passar por válida, com o hábito estabelecido pela imprensa, que mostrou o caminho para as fake news e agora esperneia ao ser pautada por elas, mas principalmente acredita que saia a privatização do Banco do Brasil, outro naco de carne atirado aos abutres, mas não há como, tendo a maior desvalorização cambial entre os emergentes, e a segunda maior fuga de capitais estrangeiros, depois da Índia – embora o impacto seja maior aqui, pois não se trata dos valores absolutos, mas do impacto proporcional nas economias -, não há como nos enganarmos pensando em recuperação econômica.

O que o vídeo nos mostra de mais chocante é o profundo amadorismo geral. Guedes parece preocupado em preservar seu discurso, já tendo escolhido os inimigos internos. Damares e Weintraub, do tragicômico grupo ideológico, querem pôr, respectivamente, governadores e prefeitos que discordem da desastrada condução da crise, e ministros do Supremo que teimem em discordar de qualquer desmando do Jair, na cadeia. O Salles quer passar a boiada, mesmo quando até o Skidmore sabia lá atrás que agricultura e pecuária não são a melhor maneira de explorar economicamente a Amazônia. E tudo indica que nem é preciso temê-los tanto: falam da boca pra fora, particularmente o presidente, sempre falando do que seu coração está cheio.

O tal vídeo ganhou algum espaço da imprensa internacional, que não parece ter a dúvida que teimamos em considerar verossímil: informa que houve interferência na Polícia Federal, ponto. Também se dão conta, com a surpresa que não podemos ter, da histeria e abatimento do presidente. Não sabem que o vitimismo foi estratégia de campanha até durante os ataques. O bolsonarismo não elegeu as saudades do ‘milagre econômico’, operado para as elites por Delfim Neto, não foi sequer a saudade do arremedo de normalidade institucional representado pelos nossos generais. As saudades são do esquadrão-da-morte do Fleury, dos estupros do Ustra, do prendo-e-arrebento, e essa disposição do bolsonarismo bem pode sobreviver ao moribundo governo do Jair.

Que trinta anos de democracia nos tenham trazido a tamanho amesquinhamento da política não pode ser entendido unicamente como resultado do golpe orquestrado a partir de 2013. É preciso refletir sobre o modo superficial como nossos atavismos foram atacados e, uma vez esquecidos, por não estarem patentes sob o verniz hipócrita dos costumes liberais da classe média, foi fermentando seus miasmas, para virarem a bandeira cultural em que se apoia o ultra-liberalismo de um Guedes, o mesmo que, aplicado sem rédeas, falhou no Chile a ponto de voltarem atrás depois de dois anos de fiasco. Não é só a economia, idiota!

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