Mídia criou um Boulos para cada um, a manipulação é para todos

Se você quer ter uma boa noção sobre o que a burguesia prepara para nós, antes de procurar os serviços de uma mãe Diná da esquerda, leia a imprensa capitalista

Zhitkov Boris
por Alexandre Flach

Boulos não é golpista, não é a esquerda que a direita gosta, não é um infiltrado do Soros, Bannon ou um cavaleiro negro, ordenado por Exu-Burguês, para destruir e enterrar Lula e o PT. A burguesia odeia Boulos com todas as suas forças, não quer vê-lo eleito nem para presidente da Sociedade Amigos do Jardim Marajoara, mas está usando e abusando dele na sua cruzada pela “despolarização” da política nacional, dividindo e — quem sabe — destruindo a esquerda no processo. E tem gente inteligente caindo nessa. A prova? está literalmente estampada em todos os jornais.

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Tome um Engov antes e depois, e leia a imprensa capitalista

Precisa ter estômago forte, mas não é necessário ter inteligência paranormal para conseguir desfrutar de tudo o que a imprensa feita pela grana do grande capital é capaz de nos proporcionar. Para ler os capitalistas, basta entender alguns pontos básicos:

  1. Siga a grana: Toda a imprensa capitalista é capitalista. É produzida diretamente pelo bolso dos grandes capitalistas, portanto, não é nem independente nem imparcial, NUNCA. Está do lado de lá da luta, vai sempre e para sempre defender e “normalizar” a exploração burguesa contra o povo.
  2. É segmentada: Como toda produção capitalista, tem uma visão diferenciada por mercado. Manda recados diferentes para a burguesia (alta, média e baixa) e para o povão em geral.
  3. Tem duas funções apenas: Não espere informação, opinião ou investigação. Enfim, não espere jornalismo sério. Para a alta e média burguesia, a sua imprensa organiza a atuação da elite, e para os demais, é manipulação pura e simples. 

Agora veja o que essa imprensa aí diz sobre nosso companheiro Boulos.

Para a esquerda: dividir para destruir

A burguesia está usando a crescente popularidade de Boulos e do PSOL para alimentar as fissuras da esquerda. Dá destaque ao que diz ser uma crescente divisão — chamada de “diversificação” pela CBN” — e a uma comemorada diminuição do PT. Neste contexto, o que poderia ser melhor do que vender Boulos como alguém prontinho para superar o lulismo e o petismo? 

Merval Pereira nos convence que a esquerda estaria mesmo doidinha atrás de “novas alternativas”. E, é claro, apresenta Boulos como “líder hegemônico da esquerda neste momento”:

“Até na esquerda os eleitores procuraram novas alternativas, a mais emblemática o PSOL, que não quer ser moderado, mas não está envolvido em corrupção, ao contrário, nasceu da revolta de alguns membros do PT com relação à corrupção, quando da confissão do marqueteiro Duda Mendonça, que admitiu ter recebido pagamento do PT em contas no exterior no mensalão.”

Já o Estadão gosta de exibir um milhão de rachas na esquerda e Boulos como o “amadurecido” candidato, que “deixou de lado o figurino de agitador”, verdadeiro rival do petismo e grande “líder de uma reorganização dos partidos que até há pouco orbitavam o PT e Lula da Silva”:

“É preciso igualmente reconhecer que o desafiante de Bruno Covas, Guilherme Boulos, do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), mostrou-se amadurecido. Deixou de lado o figurino de agitador que marcou sua carreira como líder dos sem-teto de São Paulo para agregar apoio a seu projeto político, o que foi suficiente para se viabilizar como um candidato de esquerda competitivo numa cidade que desde as eleições de 2016 repudia fortemente o PT e tudo o que o lulopetismo representa.”

Alguém duvida que a burguesia tem plena consciência do que significa para nós da esquerda apresentar alguém como opção amadurecida e “não corrupta” de Lula?

Fraterno e cínico, o portal IG — que fala mais com as massas — apresenta o mesmo jogo de divisão da esquerda, mas aqui por meio de um bondoso conselho de pai pra filho: “Ele precisa vir mais para o centro para tirar essa pecha de radical que colaram a ele, e assim conquistar os eleitores do Márcio França (PSB).” Como ninguém dá conselho de graça…

A Folha — que continua sua obstinada campanha pacificadora do “use amarelo pela Democracia” —  chega a rotular: o voto no Boulos é um voto “BolsoBoulos”. Esquizofrênico, né? Não: preciso. No ponto para enganar mentes vermelhas.

É opção a Lula, mas, paradoxalmente, também é amigão do Lula!

Se, para a esquerda, Boulos é malandramente inserido pela burguesia no centro das feridas e fissuras das forças populares, a grande opção, pronta a enterrar Lula, quando fala com os indecisos de classe média, pequena burguesia em geral, aí a burguesia esbanja habilidade em agora apresentar Boulos como alguém muito próximo do PT e de Lula.

Para centristas — maior parte da população e que vai decidir a eleição, de motoristas de Uber até donos de médias e grandes empresas — Boulos tem que ser visto como socialista e radical invasor da propriedade alheia. Não se pode arriscar, enfim, que este pessoal, que atualmente está pendendo para a direita, cogite pensar seriamente em Boulos e no PSOL. Para este público, a burguesia dedica-se a pura e simples manutenção de mercado. 

No Portal IG, o rival Boulos agora é próximo de Lula. E isso é um problema para ele, obviamente por causa da notória “rejeição ao ex-presidente”. O mesmo que ninguém da burguesia arrisca deixar disputar a presidência. Vai que, né?

“O candidato do PSDB tem alguns pontos a seu favor, como a máquina pública em mãos, a tradicional aceitação de São Paulo a candidatos tucanos, e a rejeição ao rival —  bastante relacionada à aproximação de Boulos com o Partido dos Trabalhadores (PT).”

O Data Folha usa aquela roupagem de pesquisa super científica e confiável para colocar na “boca do povo” que Boulos “tem sido atacado pelo apoio que recebeu de Lula”, sem esquecer de se adiantar ao martelo da justiça para dirigir-se desde já ao ex-presidente como um “condenado por corrupção”, sem direito a recurso mesmo: “Datafolha de outubro aponta que 54% dos paulistanos não votariam em um candidato apoiado pelo ex-presidente, de quem Boulos se aproximou especialmente nas mobilizações contra a prisão do petista em 2018.”

Falando para centristas do andar de cima, o Estadão é bem mais explícito nos apresentando um Boulos que, bem próximo da amarga experiência petista, e sua “forma inconsequente de ver o mundo”, também “se entregaria a aventuras estatistas e fiscalmente irresponsáveis cujos resultados desastrosos já são bastante conhecidos.”

Uma coisa esquerdista e asquerosa, bem próxima do PT, “tudo de que São Paulo não precisa”:

“A eleição paulistana do próximo domingo terá, de um lado, o prefeito Bruno Covas, candidato à recondução, testado nas mais difíceis condições possíveis – uma pandemia e uma severa crise econômica –, e, de outro, Guilherme Boulos, um postulante ainda inexperiente na administração pública e que, ademais, representa um partido de esquerda que em seu programa propõe uma mudança imprudente de modelo econômico. Sendo assim, recomendamos o voto no prefeito Bruno Covas.”

Mudando de tom, Merval Pereira lembra que essa “nova opção” de esquerda, entretanto, não passa de um invasor. Mas claro que isso sai da boca de Covas: “Aqui, nós defendemos a propriedade privada, eles invadem.”

A Folha disfarça um pouco, mistura de propósito alhos com bugalhos na fala maluca de político do centrão, que não é o seu público, mas, para quem é o seu público dá bastante destaque ao pretenso “radicalismo” de Boulos:

“Os dois têm o mesmo nível de estrago, mas pelo menos Boulos não esconde seu radicalismo e sua agenda destrutiva. Já Covas fica deslizando no sabonete e tem também as mesmas ações ditatoriais de retirada dos direitos fundamentais do povo, como a soldagem de estabelecimentos e o cerceamento à liberdade econômica e de locomoção”.

Já para as massas, o Boulos da invasão, radicalzão, é apenas mais um burguesinho de classe média

Se Boulos já passou de adversário do lulismo a companheiro mais radical de Lula, a mágica da burguesia volta a atacar e agora, para as massas, transforma o invasor de propriedades alheias em mais um super almofadinha, bem distante da realidade popular.

E a “voz do povo” ataca novamente: Data Folha diz que Boulos só é popular mesmo entre os mais ricos e bem escolarizados, ou seja, bem longe da grande maioria de pobres e seus suados diplomas de ensino médio:

“O levantamento mostra que Boulos, por exemplo, ainda não rompeu a barreira da parcela da população que promete focar. O candidato tem menos da metade da preferência entre quem estudou apenas até o ensino fundamental do que seu adversário, Bruno Covas (PSDB). O tucano tem performance melhor também entre os mais pobres, os que ganham até dois salários mínimos.”

Engraçado que até a eleição, era o Tatto que tinha mais penetração nos bairros populares. Lembra?

Objetivo geral da burguesia: direita tradicional, sem esquerda nenhuma

Com todo esse show de contradições, a burguesia vai conseguindo o impossível: faz ressurgir a direita tradicional empurrando a luta de classes, a polaridade real da sociedade, para baixo do tapete. Guarda o fascismo no armário para outro momento, enquanto divide e destrói a esquerda nascida nos anos oitenta.

O Estadão fala em um futuro tucano de “responsabilidade fiscal” sem deixar de lado a “desigualdade social”. Covas é visto como um moderado “alheio à gritaria do presidente Jair Bolsonaro”, bem diferente do “aventureiro e inconsequente” Boulos. E Merval Pereira, que é contratado pela burguesia para assinar suas declarações, diz que Bolsonaro “foi derrotado fortemente nessa eleição”, o que contraria o grande crescimento eleitoral do bolsonarismo visto nas urnas. 

Merval está seguro em decretar o fim dessa história de “extremos”, pois que o “resultado mais importante desta eleição municipal é que ela parece marcar o fim da polarização dos extremos políticos”.

Enfim, comemora o futuro presidente despolarizado, despolitizado, direitista controlado do Brasil: “Assim como 2016 deu sinais do que poderia acontecer em 2018, agora parece que o vento deu meia volta, no sentido da direita civilizada.”

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“Direita civilizada” — e de jeito nenhum Boulos ou qualquer outro socialista que cheire a povo no poder — é tudo o que eles querem, camaradas.

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