Madame Marx previu: o golpe tá aí, cai quem quer

O Golpe Militar de 1964 se repetiu, mas, em um país apático em que poucos ainda conservam o raciocínio crítico, isso passou despercebido

A madame tava on. Técnica mista
por Alexandre Lessa Silva

“Em uma passagem de suas obras, Hegel observa que todos os grandes fatos e personagens da história do mundo são encenados, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Assim, Marx abre o primeiro capítulo de O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, já deixando claro que o golpe de Estado dado pelo sobrinho de Napoleão era, verdadeiramente, um simulacro do golpe anteriormente dado pelo tio, como também confirma o próprio título do livro, visto que “18 Brumário” corresponde, no calendário adotado à época, a 9 de novembro, dia em que o primeiro Bonaparte tomou o poder na França de 1799.

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A atualidade dos escritos de Marx é impressionante, pois, mais uma vez, personagens e fatos se repetem através de uma nova farsa, só que agora, no Brasil do século XXI. O Golpe Militar de 1964 se repetiu, mas, em um país apático em que poucos ainda conservam o raciocínio crítico, isso passou despercebido. O teatro político brasileiro conta a mesma história, mas de uma maneira muito mais jocosa, diante de uma plateia que não consegue acompanhar o enredo dessa peça com a máscara invertida. O Brasil passou por um golpe militar, assim como em 1964; basta reparar em todos os simulacros daquilo que ocorreu no século passado.

Poucos meses depois que tomou posse, em 1961, o presidente eleito Jânio Quadros renunciou ao poder falando em “forças ocultas”. Para muitos historiadores, Jânio renunciou para fortalecer sua popularidade, através de uma nova edição de uma espécie de “movimento queremista”, só que dessa vez através de sua figura. Obviamente que isso não ocorreu, mas é óbvio também que Jânio nunca foi uma pessoa de pouca inteligência. Ninguém renuncia à Presidência esperando voltar à Presidência, é arriscar o que já se tem. Dessa forma, é muito provável que Jânio já estava esperando por um golpe militar, o que ameaçou sempre os períodos de democracia no Brasil.

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Lista de comunistas atualizada com sucesso

Algo que chama bastante atenção em tudo isso é que Jânio escolheu para renunciar justamente no período em João Goulart, seu vice democraticamente eleito e seu legítimo substituto como presidente, estava visitando a China. Jango (João Goulart) é acusado de comunista pela direita, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, que deveria assumir o poder, teve que ceder o poder a uma junta militar, formada pelos três ministros militares de Jânio (Odílio Denys, marechal do exército; Gabriel Grün Moss, brigadeiro-do-ar da aeronáutica, e Sílvio de Azevedo Heck, almirante da marinha). Depois de uma série de acusações, manifestações, negociações, campanhas como a da Legalidade, capitaneada por Leonel Brizola, e articulações no Congresso, Jango acaba por assumir a Presidência, mas apenas para enviar ao Congresso a mensagem que Tancredo Neves seria o primeiro-ministro. Tancredo foi primeiro-ministro por vários meses.

Em 6 de janeiro de 1963, ocorreu o referendo para escolher entre o presidencialismo e o parlamentarismo. O primeiro venceu com grande maioria e João Goulart teve todos os seus poderes restaurados. Goulart dá início ao seu governo e apresenta as históricas Reformas de Base, uma série de medidas estruturais e de cunho social e político que desagradaram muito à elite brasileira, os políticos de direita, os militares e os Estados Unidos. O resultado da união dessas forças, todos conhecem: o Golpe de Estado de 1964.

Assim como em 1964, uma presidente legalmente eleita, Dilma Rousseff, foi retirada do poder em 2016, sem ter ocorrido nenhum crime. Em junho de 2013, entretanto, grandes manifestações já haviam abalado a parte final de seu primeiro mandato, lembrando muito a Marcha da Família com Deus pela Liberdade de 1964 que ajudou a derrubar Jango. É bom lembrar que, antes das Manifestações de Junho, Bolsonaro já havia lançado sua candidatura à Presidência, na AMAN, em 2014, e os Estados Unidos já usavam a Lava-Jato para atingir o PT.

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O vice decorativo, vulgo Mr. Fora Temer

Se tá na internet, é verdade

Após o impeachment de Dilma, seu vice, Michel Temer, assume o poder, em uma espécie de mandato tampão até a eleição de Bolsonaro. Temer fez o papel, de uma forma menos hábil, de Tancredo Neves em 1964, preparou o caminho para a chegada de Bolsonaro, um ex-capitão do Exército que sempre foi protegido pela instituição e nunca desobedeceu, enquanto político, as vontades do comando dessa Força.

Durante a campanha para presidente de 2018, um único candidato era capaz de derrotar Bolsonaro. Lula, entretanto, estava preso através de toda rede de conspiração encabeçada pela Lava Jato, e impedido de concorrer ilegalmente, visto que o Comitê de Direitos Humanos da ONU, reconhecido pelo Brasil, decidiu que Lula tinha o direito de concorrer. Assim, o Brasil desobedeceu ao direito internacional e sua confirmação pelo próprio direito positivo do país para cassar os direitos políticos de Lula. No meio disso tudo, o general Villas Bôas resolve, por um tuíte, “intervir” no STF, ameaçando o Supremo para que não  tirasse Lula da prisão, negando seu habeas corpus. Como já demonstrou sua dívida com Donald Trump, em um tipo de amor nem tão hétero assim, Bolsonaro também o fez com o general Villas Bôas, afirmando ser ele o responsável por estar na Presidência.

Assim, todas as forças de 1964 reaparecem para o surgimento de Bolsonaro: a direita, os Estados Unidos, a elite brasileira, uma classe média perplexa e os militares. As figuras também se repetem, mas, como os fatos, de uma maneira burlesca: um presidente estadunidense, Obama, desejado pelo governo brasileiro de esquerda da época, um militar que não é um militar governando o país, Bolsonaro, uma elite ainda mais estúpida que em 1964 e uma classe média pautada pelo medo e pelo ódio.

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Em tempos de guerras híbridas, não é preciso de armas para vencer uma guerra ou dar um golpe, mas elas foram usadas, da mesma forma que as armas nucleares atualmente, isto é, como poder de dissuasão para impedir a volta de Lula na última eleição, por exemplo.

Verde oliva no topo

A farsa está montada. Bolsonaro, a todo momento, passa por cima da lei e da Constituição, mas nada é feito. Assim como ele, seus ministros, principalmente os militares, transgridem as leis do país e ainda tornam públicas essas transgressões sem que nenhuma sanção seja aplicada, criando assim uma casta que governa o país e está acima da lei, o que de nenhuma forma corresponde com qualquer ideia de democracia. Para essas pessoas, basta negar a realidade para nada acontecer, escancarando de vez a pantomima que vivemos em uma democracia e que os militares não comandam o país através do mais militar dos civis.

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O Golpe Militar de 1964 se repetiu, só que a farsa criada nessa repetição foi tão grotesca que poucos perceberam o que realmente aconteceu. Agora, é hora de retomarmos nossas vidas e acabar com essa farsa, gritando, como na ópera Pagliacci, que “la commedia è finita”, mas sem o fim trágico presente na obra.

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