Lula e uma carta para todo o mundo

Ainda não é hora, mas se aproxima o momento do ex-presidente escrever uma nova carta ao povo brasileiro, trazendo, finalmente, esperança

Imagem: O Partisano
por Alexandre Lessa da Silva

Há quase 19 anos, o ex-presidente Lula tornou público um texto intitulado ‘Carta ao Povo Brasileiro’. O objetivo era claro, tranquilizar a população e a elite capitalista no que diz respeito ao seu então futuro governo. Ao povo, ele queria demonstrar que seu governo não seria inviabilizado pela elite financeira e seus aliados. Já os mais ricos, queria tranquilizá-los em função de manter a base capitalista do sistema econômico durante seu mandato.

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A ‘Carta ao Povo Brasileiro’ realçava a necessidade de mudança no país, mas garantindo que isso seria “fruto de uma ampla negociação nacional”. Nesse contexto, Lula fez um apelo a uma ampla aliança pelo país, chegando mesmo a propor um novo contrato social, o que foi um exagero, mas com forte apelo retórico. O respeito aos contratos e obrigações do Brasil foi colocado como premissa de uma chamada “transição”. Transição que, aliás, nunca foi realmente para um “novo modelo”, conforme o texto da própria carta afirma, mas para uma administração mais humana e um pouco mais à esquerda do que os governos anteriores, haja vista as inúmeras pressões sofridas por Lula em suas administrações, invariavelmente vindas do topo da economia brasileira e internacional.

A ‘Carta ao Povo Brasileiro não foi a única carta que serviu para trazer segurança ao meio capitalista. Menos de dois meses depois, uma outra carta foi endereçada ao presidente da República naquele momento, Fernando Henrique Cardoso. Nela, Lula é mais específico sobre as garantias dadas aos grandes capitalistas e instituições financeiras internacionais, assumindo compromissos “de honrar todos os contratos, internos e externos, e o de preservar o superavit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade de o governo honrar seus compromissos.”

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Ambas as cartas serviram a seu propósito, Lula foi eleito presidente e, sem  nenhuma dúvida, cumpriu o que prometeu, para o bem e para o mal, apesar de todo discurso negacionista a esse respeito.

Atualmente, novas incertezas rondam a futura candidatura do ex-presidente. Entretanto, as incertezas agora vem, especialmente, de fora do país. A vitória de Joe Biden, nos Estados Unidos, era necessária para cortar o único suporte internacional que realmente era importante para o atual governo brasileiro. Entretanto, todos sabem que Lula não é o queridinho do governo Biden que, junto com as elites brasileiras, ainda sonha com a possibilidade daquilo que a imprensa tradicional chama de “terceira via” e que, segundo todas as pesquisas, cada dia está mais distante. Portanto, já está na hora de uma nova estratégia que não deixe a escolha por Bolsonaro ser novamente feita, pois, ao menos, a neutralidade deverá ser buscada.

Para começar, é preciso que Lula admita os erros no caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, não importa se existiram ou não. É evidente, porém, que essa admissão deva ocorrer da melhor forma possível, para que  o Brasil não venha pagar por isso futuramente. Não haverá a construção de um amplo acordo internacional sem esse mea-culpa.

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Ainda não é hora, mas esse momento já está se aproximando, de escrever uma nova carta, uma carta cujo conteúdo aborde o tema central das preocupações públicas de Biden e promova, ao mesmo tempo, o tema mais popular nos países mais influentes no mundo capitalista: o meio ambiente. A garantia de um renascimento – já que o país está morto – sustentável deverá ser dada. Um grande projeto ambiental deverá, também, fazer parte desse texto, colocando, assim, Biden em uma sinuca de bico. Isso, também, trará a aproximação de movimentos importantes de defesa do meio ambiente que, por sua vez, pressionarão os seus governos.

Ao dar garantias ambientais é necessário, também, introduzir novos valores em todos os destinatários. Não há segurança ambiental sem democracia, justiça social e direitos humanos. É preciso demonstrar, algo realmente fácil, que o governo brasileiro é muito mais que uma ameaça a todos esses valores e que a defesa do meio ambiente também passa por esses valores, portanto, a luta contra o que assola atualmente o Brasil deve ser de todo o planeta.

As outras potências também deverão estar presentes nessa carta. O respeito em relação à China e Rússia deverá ser ressaltado, assim como a importância estratégica desses países para o desenvolvimento do Brasil, coisa que jamais foi admitida pelo atual ocupante do Palácio do Planalto.

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Tudo isso é necessário para demonstrar o óbvio: não há polarização, no sentido que a imprensa, em geral, aponta, por isso não surge uma terceira via. A única polarização que existe é entre candidaturas, indivíduos, não entre ideologias ou posições no espectro político.

Analisando os políticos brasileiros e seus partidos vemos que encontramos um espectro que vai da extrema-direita até a extrema-esquerda. Assim, há políticos de extrema-direita, direita, centro-esquerda, esquerda e extrema-esquerda. Não há políticos de centro ou centro-direita, o que coloca Lula como o candidato que está mais próximo de um centro ideal inexistente. É esse óbvio que deve ser repetido como um mantra, no sentido de criar uma candidatura vitoriosa.

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Apesar do que foi exposto acima, a luta para a renúncia ou impeachment não deve ser abandonada. A aposta na CPI do Genocídio deve continuar alta, mas outras apostas também deverão ser feitas, uma vez que a cada dia que essa figura nefasta está no poder o Brasil perde um pedaço de seu corpo e de sua alma.

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